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Capela da Casa Generalícia dos Padres Assuncionistas Roma, Itália, 2008 |
Hilda Souto, curadora da Associação Cláudio Pastro - Ars Sacra, e Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.
Pouquíssimos brasileiros atentaram para a recente morte do
artista sacro Cláudio Pastro. Contudo, daqui a 200 anos, quando a maioria das
personalidades públicas de hoje for apenas um parágrafo nos livros escolares ou
personagens de teses acadêmicas de história, a obra e o nome de Pastro serão muito
conhecidos, vistos como uma referência de nosso tempo.
Ele foi o maior artista religioso brasileiro depois do
Aleijadinho. Pouco sabemos e lembramos das intrigas políticas e das crises
econômicas brasileiras da passagem do século XVIII para o XIX, mas todos conhecemos
as obras feitas nessa época por Aleijadinho. A arte e a beleza superam os
limites do tempo e nos carregam para a eternidade do Mistério.
Sua obra mais grandiosa é o esplêndido e colorido interior
da Basílica de Aparecida. Por ela, foi comparado a Michelangelo. A Basílica é
um dos maiores templos religiosos do mundo. Reúne a tradição cristã dos
primeiros séculos, valorizada pelo Concílio Vaticano II, à arte
latino-americana contemporânea. É um fruto emblemático de nosso tempo. É um
significado semelhante ao que a Basílica de São Pedro e Michelangelo têm para a
relação entre Renascimento e arte cristã.
A síntese artística e a personalidade de Cláudio Pastro
despertaram muitas polêmicas. Contudo, o estudioso bem informado constata que sua
obra foi rigorosamente fiel aos preceitos do Concílio Vaticano II, que
preconiza uma volta às fontes do cristianismo, conforme o Documento Perfectae Caritatis de 1965. A Beleza no
Cristianismo é uma pessoa: Jesus Cristo e a única razão de ser do templo
cristão é a celebração do Mistério Pascal.
Produziu uma arte de culto, como a produção artística dos
primeiros cristãos e das Igrejas orientais. Uma arte que está a serviço da
contemplação do Mistério e de sua presença objetiva no mundo, seguindo
indicações litúrgicas e não a subjetividade do artista, como os grandes ícones
bizantinos.
Por oposição, a arte de devoção, que vigorou na Europa do
Concilio de Trento e formou a sensibilidade religiosa brasileira, está muito
mais vinculada à subjetividade do artista, ressaltando sua sensibilidade e seus
dotes artísticos. Retrata Cristo e os santos buscando demonstrar a capacidade
individual do artista e despertar nossas emoções individuais diante da glória
ou do sofrimento dos personagens bíblicos.
A sensibilidade religiosa brasileira é tipicamente
devocional, daí a dificuldade de entender a arte de Cláudio Pastro, voltada ao
culto mais que à devoção. Porém, quem acompanhou sua trajetória artística
percebe o entrelaçamento entre sua arte e a alma brasileira.
Do encontro entre os ícones bizantinos vistos nos mosteiros
e as formas simples do artesanato popular nasceram suas primeiras obras:
imagens com olhos esbugalhados (porque o santo está sempre contemplado
maravilhado o Mistério) e a pele morena dos primeiros cristãos e do povo
brasileiro.
Nascia assim uma produção artística que bebia nas fontes
cristãs da Patrística, no rico e complexo simbolismo do mundo oriental, mas
também refletia a alma popular latino-americana e as tendências primitivistas
da arte moderno do século XX. Muitos consideram suas obras muito simbólicas e
cerebrais, mas o povo simples sempre aderiu com facilidade a sua beleza e cores
vibrantes.
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Emaus, 1978 |
Com o tempo, suas obras foram se tornando mais delicadas e
os traços mais essenciais. Repetia sempre que toda forma, traço, cor, som,
movimento ou gesto genuinamente cristão é essencialmente continuidade do
Mistério da Encarnação.
Jornal "O São Paulo", edição 3125, 26 de outubro a
1º de novembro de 2016.
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