segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Essa dor terrível

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Francisco Borba Ribeiro Neto, 
coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Os jornais noticiaram, nas últimas semanas, mais dois casos nos quais os pais, pelo que tudo indicam, se suicidaram e mataram também seus filhos. Um aconteceu num condomínio residencial de classe média alta do Rio de Janeiro, outro no Fórum Trabalhista de São Paulo.
Pelo que sabemos, são acontecimentos muito raros, se comparamos com o número de mortes violentas e até de suicídios no Brasil. Mas, num período recente, os jornais têm noticiado, em média, pelo menos um caso por ano. Número suficiente para nos afligir e nos pedir uma resposta, um “porque” ou um “que fazer”.
Psicólogos e sociólogos apontam as pressões sociais e a fragilidade das relações interpessoais como fatores que aumentam as chances de suicídios na sociedade atual. No caso dos pais que matam seus filhos ao se suicidar, os psicólogos também apontam um fator de “proteção”: evitar que as crianças fiquem sozinhas nesse mundo desumano que levou o pai à morte.
É bom lembrar, em nosso contexto, que a Igreja considera o suicídio como um ato que contraria o desígnio de Deus e a inclinação natural do ser humano, mas também percebe que pode ser consequência de perturbações psíquicas graves e não um ato livre da pessoa (Catecismo da Igreja Católica, 2280s). Antes de um ato moral a ser julgado, estamos diante de uma dor terrível a ser acolhida com amor.
Sofrimentos tão grandes, aparentemente tão absurdos e sem sentido, não são raros na história humana. Mas, para cada sofredor, sua dor é única e, no auge da dor, saber que outros também sofrem não é mais que um pálido consolo. Apesar disso, vale a pena, nesses momentos, procurar na história as palavras que a sabedoria cristã encontrou para se dirigir a Deus e aos irmãos diante das grandes provações.
Em 28 de maio de 2006, Bento XVI, em sua visita ao Campo de Contração de Auschwitz-Birkenau, símbolo maior do horror dos genocídios do século XX, clamava: “Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou?”. Diante desses casos terríveis de pais que se suicidam levando seus filhos junto, podemos nos fazer a mesma pergunta.
Gostaríamos de poder não olhar para esses casos, fazer de conta que nem sequer sabemos que aconteceram. Mas, Bento XVI fez questão de dizer que tanto ele quanto João Paulo II, enquanto papas, não podiam deixar de visitar Auschwitz. Nossa fé nos conclama a reconhecer a dor do outro, a mergulhar nela, seja para expressar nossa pobre e aparentemente vã solidariedade, seja para mergulhar mais no mistério de Deus que não eliminou o sofrimento, mas com Cristo escolheu sofrer com suas criaturas.
Continua Bento XVI: “Nós não podemos perscrutar o segredo de Deus vemos apenas fragmentos e enganamo-nos se pretendemos eleger-nos a juízes de Deus e da história. Não defendemos, nesse caso, o homem, mas contribuiremos apenas para a sua destruição [...] Devemos elevar um grito humilde, mas insistente, a Deus: Desperta! Não te esqueças da tua criatura, o homem! E o nosso grito a Deus deve ao mesmo tempo ser um grito que penetra o nosso próprio coração, para que desperte em nós a presença escondida de Deus, para que aquele seu poder que Ele depositou nos nossos corações não seja coberto e sufocado em nós pela lama do egoísmo, do medo dos homens, da indiferença e do oportunismo”.
Diante do luto e da dor das famílias vitimadas por esses suicídios, diante da angústia que nos aflige quando pensamos nelas, a sabedoria cristã não dá uma resposta fácil e esquemática, mas nos recorda a esperança e o alento de quem se reconhece sob o manto da ternura de Deus.
Jornal "O São Paulo", edição 3118, 7 a 13 de setembro de 2016.

2 comentários:

  1. artigo precioso, meu caro Borba! quanto sofrimento estes gestos causam e causaram nas vitimas, incluindo o suicida e assassino de seus filhos e em nós que somos diretamente atingidos por tamanha dor!!!abraço
    Gertrudes Eisenlohr

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  2. Luminoso artigo, "para cada sofredor sua dor é única...".

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