segunda-feira, 28 de março de 2016

O que o Brasil precisa

Editorial do jornal O São Paulo, ed. 3094, de 23 a 29 de março de 2016.

Segundo a tradição de algumas religiões antigas, quando alguém estava em perigo grave da própria vida, podia recorrer à proteção “divina”, escondendo-se em um templo. Assim a pessoa se colocava sob a proteção da divindade e não podia ser tirada do templo. Nesse caso, nem a justiça e nem a vingança podiam ser executadas enquanto durasse o asilo divino.
Esse recurso era uma alternativa para quem não estivesse em condições de provar a sua inocência, ou de outra forma, para quem estivesse próximo de sofrer um castigo que excedesse a violência do próprio ato. Nos dois casos, o que estava em jogo era o princípio da justiça e não a conivência da divindade.
Os avanços sociais e o desenvolvimento dos mecanismos punitivos e legais, criados pela sociedade, provocaram uma mudança no jeito de fazer justiça. Foram criadas formas processuais e tribunais especializados em diferentes níveis - locais, regionais, nacionais e até mesmo internacionais. O uso de novas tecnologias e o conhecimento científico avançado deram novo impulso aos mecanismos legais. Hoje é possível obter provas residuais de um crime com uma precisão cada vez maior, por meio de impressões digitais, de exames de DNA, de escutas telefônicas, restos de documentos impressos ou digitais. Na prática, quase tudo pode ser submetido a uma perícia, para se tornar prova num processo.
Numa situação em que o Estado é laico, como é o caso do nosso País, é perfeitamente claro que os processos pelos quais se chega a fazer justiça devem ser imparciais e precisos. Refugiar-se no “Templo” não é mais uma opção. O interesse da justiça deve prevalecer em todos os âmbitos. Mas entre as engrenagens desses processos legais, foi criada uma saída, ou melhor, uma entrada para um tipo de “Templo moderno”, onde também se garante proteção. Esse recurso conhecido é chamado de “foro privilegiado”.
Segundo essa prática, quem está exercendo um determinado cargo recebe o benefício de não ser julgado como todos os demais. Nesse caso, se resguarda o ofício, mas se instala uma exceção no princípio da igualdade, garantido pela nossa Constituição federal, que afirma que todos são iguais e sem distinção de qualquer natureza, perante a lei.
Esses “Templos modernos” são muitos e são servidos por “sacerdotes” e “sacerdotisas”, que ganham o benefício da proteção para si ou o invocam para os seus afiliados. Para que toda a sociedade tomasse consciência da extensão e da conveniência desse benefício, foi necessário acontecer uma grande agitação popular.
Mas por tudo isso, parece que chegamos ao tempo de uma verdadeira mudança, de uma metanoia no pensamento e nas atitudes. Não precisamos de novos heróis, que venham para substituir os antigos, perpetuando os esquemas de sempre. A crise política atual é fruto de uma situação semelhante e é também uma ocasião que se abre em duas possibilidades.
De um lado, podemos nos debater acirradamente, defendendo dois movimentos opostos e carregando bandeiras de corres diferentes. Cada lado enxergando a justiça, o direito e o golpe sob o seu ponto de vista e tentando todos os meios para influenciar e formar a opinião das massas. Nessa luta, os vencedores serão os mesmos, e também os vencidos. Os dois lados dizem que estão lutando para manter os direitos sociais, e até fazem propostas de ampliação, mas em nenhum momento se viu a proposta uma reforma que leve à perda dos privilégios. As lideranças continuam resguardadas. Na prática, o resultado final será a manutenção do sistema, com a troca de lugares entre governo e oposição.
Por outro lado, temos a possibilidade de iniciar um processo de mudanças, na ética pública e do comportamento social. As instituições e os poderes - Executivo, Legislativo e Judiciário - existem para promover e garantir o desenvolvimento e o bem-estar do povo. As pessoas que trabalham nessas repartições são servidores públicos e devem prestar contas de seus atos a toda sociedade, sem privilégios ou obstáculos para a execução da justiça. Quanto mais transparentes as relações de governo e quanto mais éticos os servidores, mais fortes serão as instituições, e por isso é tão urgente uma reforma ética na vida pública.
Mas essa reforma não pode avançar se antes, também, não avançar uma reforma na conduta social e pessoal de toda a população. Não podemos continuar buscando obter vantagens e lucros pessoais nas pequenas coisas à nossa volta. Quem fura uma fila de banco ou no trânsito, quem passa e quem recebe notas fiscais frias, quem compra ou revende mercadorias de origem duvidosa ou falsificada, e quem sempre acha um jeito de tirar vantagens de uma situação qualquer, é tão corrupto como aqueles que superfaturaram contratos ou que cobraram propina.
O que vemos hoje pelos jornas e noticiários, com tristeza, é uma nação dividida pelas manifestações. Em nome da justiça e da igualdade, cada lado repete um gesto patriótico, cantando o hino nacional, cada qual defendendo sua ideologia ou seu partido. Não será apenas um desfile de atores e atrizes principais, rodeados por coadjuvantes? O único gesto, verdadeiramente patriótico, que poderá mudar o destino do país é dizer NÃO a todo tipo de corrupção.

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O Brasil entre o confronto e o diálogo.
Francisco Borba Ribeiro Neto

segunda-feira, 21 de março de 2016

Saneamento básico para todos. O sonho de ter um banheiro.

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Gilmar Altamirano é publicitário, especialista em meio ambiente e sociedade e diretor presidente da ONG Uniagua (Universidade da Água).

Desde 1963, as Campanhas da Fraternidade têm sido importante instrumento de evangelização e cidadania. A Campanha da Fraternidade de 1979 foi a primeira a abordar a questão ambiental e a água, principal agente da vida e do saneamento básico, com o tema: “Preserve o que é de todos”. Posteriormente, em 2004, a água é abordada mais diretamente numa das campanhas que mais mobilizaram as comunidades com o tema “Água. Fonte de Vida”. Este ano a campanha toca num dos principais problemas brasileiros: a falta de saneamento básico, com o tema "Casa comum nossa responsabilidade".
Com um tempo curto de articulação e veiculação da campanha, 40 dias da quaresma, o grande desafio é conseguir o pleno entendimento da mensagem, gerar consciência e, principalmente, provocar a ação. Infelizmente, boa parte das pessoas se move na vida com o “piloto automático” e apenas uma pequena parte se engaja realmente nas causas sociais e está propensa a mudar o comportamento e agir efetivamente. A maioria não quer ou não sabe o que fazer para mudar a situação. E como cita a própria CNBB “um problema específico que exige a participação de todos na sua solução", a mobilização não pode ser pontual, mas coletiva.
Uma mobilização coletiva pressupõe: identificação das barreiras para mudança, ouvindo a comunidade-alvo e qual a percepção desta comunidade sobre o problema e as possibilidades de mudar a situação.
Se fizermos uma pesquisa nos surpreenderemos com quantas pessoas sabem de alguma coisa sobre o problema da falta de saneamento ambiental, mas não sabem o que fazer a respeito. A questão estruturante: Investimento em obras de saneamento não acompanharam o crescimento da população. A questão não estruturante: gestores públicos não ensinam a importância e como usar a obra de forma sustentável.
Mesmo onde há rede de esgoto, muitos não ligam suas moradias às essas redes. Às vezes, por não darem o devido valor por desconhecerem, em parte, que esgotos a céu aberto são as principais causas de epidemias.
Como diz o rap “Castelo de Madeira” (composto pelo grupo “A família”, em 2004):

Coisa de louco, abrir a janela e ver no esgoto
Cachorro morto, sentir o mau cheiro e o desconforto
E junto com a lama, o drama, a sujeira
"Brasilite" no calor é um inferno, mó canseira [...]

Sonhei com tudo isso a vida inteira
Realizei meu sonho, meu castelo de madeira.
E é treta todo dia, todo dia, o dia inteiro
Só falta construir um banheiro.


O “Castelo de Madeira” é o barraco na comunidade e a música trata bem a falta de saneamento e dignidade humana que prevalece principalmente na periferia das cidades brasileiras.
Entretanto, uma coisa é termos consciência que “fumar pode provocar câncer”, outra coisa é “agirmos para parar de fumar”. É necessário identificar as barreiras para a ação, a partir daí desenvolver a campanha para ajudar a população a enfrentar o problema com orientações do que pode ser feito. Não cabem soluções impostas por decisões de gabinete. A Igreja já ensina: é fundamental ouvir as pessoas.
Antigamente, nas pequenas comunidades, por meio dos diálogos nos confessionários, os párocos podiam ter uma ideia mais clara de quais eram os conflitos mais frequentes enfrentados pelos fiéis e assim podiam dirigir melhor a mensagem do sermão.
Por isso, não basta a consciência, temos que encontrar o que dizer e o que fazer para mudar.
Jornal "O São Paulo", edição 3093, 17 a 22 de março de 2016.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Três anos de Francisco, a 50 anos do Concílio

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Francisco Borba Ribeiro Neto é coordenador do 
Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Domingo, 13 de março, é o terceiro aniversário da eleição do Papa Francisco. Nesta data, não é necessário comentar sua força renovadora, o peso político de seu compromisso com os pobres e o meio ambiente, ou sua preferência por uma Igreja que, nas palavras de São João XXIII, “usa mais o remédio da misericórdia que o da severidade” (cf. Misericordiae Vultus). Muito se tem escrito também sobre a relação entre Francisco e o espírito do Concílio Vaticano II, o grande evento renovador da Igreja contemporânea.
Qual é o significado dos quase 50 anos que separam o final do Concílio (1965) da eleição de Francisco (2013)? Hoje, para nós, é até difícil imaginar o clima político e cultural do pós-Concílio e seu impacto sobre a comunidade cristã da época. Ditaduras de direita na América Latina, ditaduras comunistas na Europa Oriental, o furor revolucionário terceiro-mundista e a utopia hippie – tudo prestes a se desconstruir no pragmatismo político-econômico do mundo globalizado, a se dissolver na fluidez ideológica da pós-modernidade.
O Concílio aconteceu sob o signo da secularização. Parecia evidente que as religiões eram coisa do passado, resquícios de uma humanidade ignorante e supersticiosa. Na própria comunidade católica muitos pensavam que o “aggiornamento”, a atualização, passava necessariamente pela adoção dos valores da Modernidade e das regras do universo político laico (que bania as religiões para um espaço privado e intimista); pela eficiência assistencialista ou política da Igreja (transformando-a na ONG sem Cristo criticada por Francisco no início de seu pontificado).
Nestes 50 anos, nem sempre o esforço da Igreja para afirmar o vínculo inevitável entre o ser humano e seu Criador foi adequadamente reconhecido. Leituras ideológicas, a esquerda e a direita, desfiguraram tanto a mensagem dos papas quanto o testemunho de muitos santos comprometidos com os mais pobres e com a vida. A consolidação da Igreja no pós-Concílio exigiu um grande esforço para se reconhecer sua origem mística em Deus, se aceitar uma lógica que não era a da Modernidade.
Mas, ao longo do tempo, o otimismo quanto aos potenciais da ciência, do humanismo agnóstico, da revolução utópica ou do mercado deram lugar a profundas decepções, ao pragmatismo sem ética e à perda dos ideais daqueles luminosos anos ’60.
Agora, assistimos muitos casos de renovação das religiões e da busca mística das pessoas. Alguns poderão criticar, por exemplo, o exotismo de certa espiritualidade ao estilo new age ou a intransigência de grupos tidos como fundamentalistas. Mas, 50 anos depois do Concílio, a pessoa sincera pode reconhecer ainda com mais facilidade a exigência de Deus inscrita no coração humano.
Aos cristãos parece muitas vezes que o mundo é cada vez mais hostil à fé. Mas isso não é verdade. O poder, cada vez mais despersonalizado e despótico no mundo atual, realmente tenta afastar-nos cada vez mais de Deus. Mas, quanto mais o poder tenta afastar Deus do coração da pessoa, mais esta sente a Sua falta.
Contudo, para que esta falta possa ser suprida, é preciso explicitar a força da misericórdia, de um coração que se percebe pecador, mas amado por Deus mesmo assim. Esta é a raiz oculta do encanto que o Papa Francisco exerce sobre o mundo.
Quem lê seus testemunhos pessoais em O nome de Deus é misericórdia (Planeta, 2016), compreende como este diálogo entre o coração contrito do pecador e o coração misericordioso de Deus pode criar, com Francisco, a demonstração eloquente de que a Igreja porta a resposta verdadeira também para o homem de hoje.
Jornal "O São Paulo", edição 3092, 10 a 15 de março de 2016.


segunda-feira, 7 de março de 2016

Responsabilidade coletiva no cuidado da água

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Marlene dos Santos Vilhena é mestre e doutoranda em Direitos Difusos e Coletivos pela PUC-SP.

A crise hídrica criou uma oportunidade para a sociedade pensar e repensar que a água é indispensável para a vida humana e para os ecossistemas. A escassez da água potável e limpa chegou, e a necessidade de mudanças de hábitos se torna uma realidade quanto ao uso socialmente sustentável da água para o beneficio da coletividade presente e futura. A Campanha da Fraternidade deste ano reforça em todos nós a necessidade de nos comprometermos com a conservação e com o uso socialmente justo deste recurso.
A ONU alerta que o planeta enfrentará, até 2030, um déficit de água de até 40% - a menos que sua gestão seja melhorada dramaticamente. A agricultura depende da água para a produção de alimentos e as plantações estão usando mais água à medida em que a população mundial aumenta. Infelizmente, nos momentos críticos, nem sempre se administra com uma gestão adequada e com imparcialidade.
Em São Paulo, a redução dos níveis de água nos reservatórios foi motivo de atenção e preocupação, mostrando que o uso racional dos recursos hídricos é indispensável para assegurar a vida. Hoje, se faz necessária uma mudança de postura para o enfrentamento da crise hídrica: mesmo que as chuvas recentes fiquem acima do esperado, não se deve esquecer que a estação chuvosa provavelmente termine entre março e abril. Cabe a todos a responsabilidade de cuidar da água, consumindo responsavelmente esse bem que é fundamental para a existência humana.
Nesse sentido o Papa Francisco, na Laudato si’ (LS 13), nos faz um apelo para que junto possamos cuidar da casa comum: “O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar. O Criador não nos abandona, nunca recua no seu projeto de amor, nem Se arrepende de nos ter criado. A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum. Desejo agradecer, encorajar e manifestar apreço a quantos, nos mais variados setores da atividade humana, estão a trabalhar para garantir a proteção da casa que partilhamos. Uma especial gratidão é devida àqueles que lutam, com vigor, por resolver as dramáticas consequências da degradação ambiental na vida dos mais pobres do mundo. Os jovens exigem de nós uma mudança; interrogam-se como se pode pretender construir um futuro melhor, sem pensar na crise do meio ambiente e nos sofrimentos dos excluídos”.
Diante desse apelo do Papa Francisco, todos somos chamados a olhar para a “Casa comum, nossa responsabilidade”, pois o mundo requer uma postura singular no tratamento dos dons e bens ambientais. Ele afirma que “o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos. Este mundo tem uma grave dívida social para com os pobres que não têm acesso à água potável, porque isto é negar-lhes o direito à vida radicado na sua dignidade inalienável” (LS 30)
A nossa Constituição Federal, em seu artigo 225, consagra o direto à sadia qualidade de vida, e para a efetividade desse direito, dentro dos padrões mínimos exigidos constitucionalmente para um completo “bem – estar”, são necessárias mudanças de valores e modos de estilo vida. De qualquer maneira, a escassez nos levar a cuidar da água de modo permanente, com consciência coletiva que esse bem (água) é limitado e toda a população deve evitar o desperdício de água potável.
Jornal "O São Paulo", edição 3091, 2 a 8 de março de 2016.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O Tecido da Realidade

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Ulisses Barres de Almeida, doutor em Astrofísica, é pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF/MCTI), leciona no programa internacional de pós-graduação IRAP, e membro da Associazione Euresis, dedicada ao debate entre fé e ciência.

Uma teoria física que descreva alguma lei fundamental é um instrumento intelectual de enorme potência tecnológica e cultural. Tecnológica, porque abre portas para que o homem domine um novo aspecto da realidade, cuja natureza e o controle, antes lhe escapavam. Basta pensar no desenvolvimento da termodinâmica no século XVIII, que levou a Inglaterra, berço da máquina a vapor e da revolução industrial, à hegemonia econômica e política mundiais. A mecânica quântica, o transistor e os computadores são outro exemplo, moderno, da mesma dinâmica, donde seguiu-se o Vale do Silício.
O potencial cultural não é menos evidente. A mecânica newtoniana, por exemplo, influenciou a gênese de uma concepção mecanicista do mundo na era moderna. Do mesmo modo, várias correntes de pensamento do século XX beberam da fonte escavada por Einstein e os físicos quânticos dos anos 20 e 30.
A teoria da relatividade de Einstein, em particular a Relatividade Geral, que substitui a descrição clássica de Newton sobre a gravidade é, em certo sentido, algo ainda mais especial. No pano de fundo da Física Clássica, o espaço e o tempo, e por consequência o próprio universo, eram eternos e imutáveis, um palco fixo no qual se desenrolava o drama cósmico.
A Relatividade de Einstein levou a uma nova visão do espaço e do tempo, isto é, daquilo que poderíamos chamar o próprio “tecido da realidade”. Estes dois entes fundamentais deixaram então de ser quantidades passivas, para se tornarem dinâmicos, deformando-se e mudando de aspecto (o espaço se dilata e se contrai, a passagem do tempo se acelera ou se retarda) como resposta aos eventos em curso. Além disso, o próprio tempo deixa de ser algo etéreo e se torna a quarta dimensão daquilo que chamamos hoje o espaço-tempo.
Este espaço-tempo dinâmico revolucionou a natureza de tudo, tal como entendida pela razão humana. Um espaço-tempo dinâmico abriu portas para a descoberta e entendimento do Big Bang, permitiu a descrição de um universo que se expande e que portanto evolui, sujeito à novidade, um universo no qual átomos se formam onde antes não existiam, criando galáxias e estrelas, ao redor das quais planetas dão origem à vida. O espaço-tempo dinâmico da Relatividade Geral permitiu ao cosmos, à realidade, ter uma história própria, e a história humana passa a ser um capítulo deste livro. A Relatividade Geral abriu renovado espaço para discussões filosóficas e teológicas sobre o sentido e destino do cosmos, duas palavras que só existem dentro de um conceito de história.
Ondas gravitacionais são a comprovação mais forte e direta da realidade deste “tecido dinâmico” no qual estamos imersos. Cada pedaço de matéria que se move no espaço-tempo deixa um rastro do seu passeio, ondas no espaço e no tempo, que os cientistas do experimento LIGO registraram ao medir as vibrações microscópicas produzidas por elas.
As ondas gravitacionais detectadas pelo LIGO nos trazem notícias da colisão de dois buracos negros, ocorrida há mais de 1 bilhão de anos e abrem uma nova era na Astrofísica, uma descoberta que será considerada entre as maiores do século XXI. Elas confirmam a verdade física de uma ideia. Agora podemos dizer: “O mundo é assim!”, e gozar do prazer e alegria inigualáveis de conhecer uma verdade nova, recém-revelada. Contemplamos o mistério de um universo em evolução, de uma realidade e de um futuro que não são fechados, mas abertos à novidade, que marcou toda a história cósmica até nós - como as ondas gravitacionais, que lhes são a memória, nos mostram. 
Jornal "O São Paulo", edição 3090, 24 de fevereiro de a 1º de março de 2016.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O ecumenismo na crise brasileira atual

Ilustração: Sergio Ricciuto Contewww.sergioricciutoconte.com.br
Francisco Borba Ribeiro Neto é coordenador do 
Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Diante da gravidade da crise política, econômica e social que o Brasil atravessa, é natural que as comunidades cristãs se interroguem sob o que fazer, como responder à situação. Num momento como este, o ecumenismo é chamado a mostrar uma outra face, infelizmente pouco reconhecida e divulgada entre nós: não só buscar a necessária e justa unidade entre as diversas denominações cristãs, mas ser também um espaço onde os cristãos em unidade lutam pela construção do bem comum.
Nesta hora, alguns fios condutores que unificam a visão de mundo de todos aqueles que fizeram a experiência do encontro com Cristo são particularmente significativos. Por exemplo, a percepção de que nenhum sistema político poderá construir um mundo melhor sem a ação decidida de pessoas justas e integras. Não há bem comum estável e verdadeiro sem o compromisso moral com a verdade e a justiça. Mas também a percepção de que o bem comum não depender da vontade de quem está no poder, mas tem que ser fruto do esforço e do compromisso solidário de cada um. A falta de solidariedade e de compromisso com a sociedade é um pecado de nossas “elites” que sem dúvida tem muito a ver com nossas mazelas atuais.
A tensão para manter um compromisso ético e pessoal com a verdade, a justiça e a solidariedade é um ponto em comum que unifica a todos os que seguem a Cristo com sinceridade. Cada cristão sincero pode ser mais ou menos capaz de corresponder a este desejo de fidelidade, mas todos se reconhecem neste ideal. Curiosamente, esta parece ser também a característica que o povo brasileiro mais deseja ver em seus dirigentes – e que parece ver muito poucas vezes neles.
Como transformar esta tensão ideal num caminho concreto de construção da vida social e da política? Este é um desafio “ecumênico”, que – para o bem dos brasileiros – deve ser respondido de forma conjunta por todos os cristãos.
Os velhos – e este que escreve estas palavras se considera um deles – sabem destas coisas. Mas muitas vezes se esquecem delas, ou perdem o impeto para se jogarem no mundo a partir delas. Por isso precisam estar perto dos jovens, atentos a eles e à energia juvenil com que se lançam na procura pela verdade e a beleza da vida.
Por tudo isso, um evento particularmente significativo está para ocorrer neste início de ano na PUC-SP. Um grupo de jovens da Aliança Bíblica Universitária (ABU) iniciaram uma bela amizade com assessores da Coordenadoria de Pastoral Universitária. Desta amizade, vivida sem dúvida num clima fraterno e numa busca compartilhada por Cristo, nasceu o desejo de realizarem juntos uma reflexão sobre a situação política atual.
Assim, estão realizando a mesa redonda “As contribuições do Cristianismo em meio a atual crise socioeconômica e política – uma perspectiva ecumênica”, que acontecerá no dia 25 de fevereiro de 2016, a partir das 19h30, na PUC-SP (Rua Monte Alegre, Nº 984, auditório 239). O tema será abordado pelos professores Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia da FAAP, Paul Freston, professor da Wilfrid Laurier University (Canadá), e Jonas Madureira, professor da Faculdade Teológica Batista em São Paulo.
Este encontro pode ser uma bela ocasião para que estudantes e profissionais de todas as idades, cristãos de todas as denominações e mesmo não cristãos, possam fortalecer um caminho de unidade para a construção de um Brasil melhor. Uma contribuição importante dada pela PUC-SP, que assim reafirma seu caráter católico – mas por isso mesmo aberto a toda a comunidade cristã e a todos os homens de boa vontade.
Jornal "O São Paulo", edição 3089, 17 a 23  de fevereiro de 2016.




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A Casa Comum, responsabilidade e respeito

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Marcelo Barroso é doutor em Engenharia Hidráulica e Saneamento pela USP, coordenador do curso de Engenharia de Inovação do ISITEC/SP e  membro da comunidade Totus Mariae.

A inquietação com a Casa Comum se apresenta tanto na Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2016 (CF2016) como na encíclica Laudato si’ (LS), do Papa Francisco, sugerindo a possibilidade de uma forte sinergia entre ambas. A CF2016 da ênfase ao Saneamento Básico como problema referencial a ser debatido, conhecido e reivindicado, assentado na questão das responsabilidades do governo (municípios, estados e União) e da sociedade. Por outro lado, a Laudato si’, mostra a inseparabilidade entre a defesa do meio ambiente e do bem comum na necessária Ecologia Integral, a qual pressupõe o respeito pela pessoa humana enquanto tal, com direitos fundamentais e inalienáveis orientados para o desenvolvimento integral.
O que está acontecendo com a nossa casa comum nos une em uma preocupação comum. “As raízes éticas e espirituais dos problemas ambientais, nos convidam a encontrar soluções não só na técnica, mas também na mudança do ser humano” (LS 8), conforme reporta o Patriarca Bartolomeu e de maneira análoga Papa Bento XVI e Papa Francisco. Este é um desafio necessário para um olhar ampliado e mais fidedigno da realidade nesta CF2016.
Nosso olhar não pode se deter na ausência dos serviços de saneamento básico. É necessário aprofundar o problema, na perspectiva de uma Ecologia Integral, procurando ver em profundidade tanto os aspectos técnicos e políticos do problema quanto os aspectos pessoais e éticos que envolvem técnicos, profissionais e dirigentes responsáveis. Só assim será possível o problema em toda a sua amplitude e dar-lhe a abordagem necessária.
Os problemas de saneamento básico devem ser vistos numa perspectiva integrada. Não podem ser dissociados das políticas de desenvolvimento urbano, que determinam os investimentos prioritários do setor público e como os serviços são distribuídos.  O saneamento básico também não pode ser dissociado da gestão por bacias hidrográficas, conforme já preconiza a Política Nacional dos Recursos Hídricos. Os municípios, as empresas e a sociedade em geral que utilizam as águas de uma bacia hidrográfica devem, por meio do diálogo, encontrar soluções que atendam ao bem comum da população.
O grande descumprimento da criação e a implantação de Planos Municipais de Saneamento se dá não somente por ausência de vontade política ou “conversões morais” dos envolvidos, mas é notório a dificuldade dos municípios possuírem profissionais capacitados para tal questão, retardando o desenvolvimento do saneamento básico em muitas situações.
Problemas de qualificação técnica, educação, capacidade administrativa e vontade política permeiam todo o processo de organização e uso adequado dos recursos presentes na casa comum. A responsabilidade é de todos, não caiamos no risco de reduzir a esse ou aquele grupo humano a culpa dos problemas ambientais, sociais e culturais, ou mesmo dos direitos básicos como o saneamento. O todo é superior a parte nos tem exortado Papa Francisco. Para isso precisamos de rumos, “qualquer solução técnica que as ciências pretendam oferecer será impotente para resolver os graves problemas do mundo, se a humanidade perde o seu rumo, se esquece as grandes motivações que tornam possível a convivência social, o sacrifício, a bondade” (LS 200).
Que as nossas lutas e a nossa preocupação por esta casa comum não nos tirem a alegria da esperança (cf. LS 244).
Jornal " O São Paulo", edição 3088, 11 a 16 de fevereiro de 2016.