quarta-feira, 9 de maio de 2018

Mercado, Estado e os economistas


Antônio Carlos Alves dos Santos, professor titular de Economia da PUC-SP e conselheiro do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Qual modelo de economia de mercado? Essa é uma questão fundamental entre aqueles que reconhecem que há diferenças substanciais entre os modelos de economia de mercado realmente existentes e o espantalho criado tanto pelos que o criticam e quanto pelos que o consideram a oitava maravilha.
 O modelo anglo-americano é bem diferente daquele adotado na maioria dos países europeus, e mesmo entre esses há diferenças importantes. Para não mencionarmos o caso sui generis que é o modelo chinês. Nos países em desenvolvimento, poucos resistem à tentação de copiar um desses modelos, com a preferência recaindo, no plano da retórica, ao anglo-americano, mas o capitalismo realmente existente, não raro, é melhor descrito como uma variante do modelo social spenceriano (a lei do mais forte).
Para quem considera o capitalismo como a fonte de todos os males, impossível de ser reformado para adquirir uma face humana, essa discussão é irrelevante. É uma posição, intelectualmente respeitável, mas, também, a melhor expressão do niilismo de cátedra.
O que diferencia os diferentes modelos de economia de mercado é sua visão sobre o papel do Estado na economia. Para alguns o Estado deveria intervir diretamente na economia através de empresas estatais, que não deveriam ficar limitadas apenas às empresas prestadoras de serviços de utilidade pública. Um segundo grupo defende uma intervenção indireta do Estado na economia por meio de um ordenamento jurídico criado para garantir (através de regulamentações) o bom funcionamento da economia de mercado e o respeito à pessoa humana.
Esses modelos, principalmente o segundo, estão em conformidade os documentos sociais da Igreja. Com efeito, “a tarefa fundamental do Estado em âmbito econômico é o de definir um quadro jurídico apto a regular as relações econômicas” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, CDSI 532), sendo que “é necessário que mercado e Estado ajam de concerto um com outro e se tornem complementares” (CDSI 533). A tensão existente entre o mercado e o Estado, não se resolve em uma dialética na qual a síntese seria a negação de um dos polos, mas na contribuição de ambos ao bem comum: a tensão existe, mas é benéfica por corrigir as imperfeições do Estado e do mercado. Como fazê-lo, depende do estudo de cada situação.
Há, ainda, um terceiro grupo, minoritário entre os economistas, mas que apresenta um crescente sucesso entre os jovens, que defende um modelo de economia de mercado totalmente desregulamentado. Nele o mercado reina soberano e não apresenta nenhuma imperfeição que justificasse a regulamentação estatal. A compatibilidade dessa visão com a Doutrina Social da Igreja é problemática, pois pode levar a uma concepção de liberdade humana “que a desvincula da obediência à verdade e, por conseguinte, também, ao dever de respeitar os direitos dos outros [...] que conduz a afirmação ilimitada do interesse próprio, sem se deixar conter por qualquer obrigação de justiça” (Centesimus Annus, 17).
A maioria da comunidade de economistas, o chamado mainstream da profissão, reconhece que a intervenção do Estado na economia, na forma de regulamentação de alguns de seus setores, é de fato necessária. O que se debate é quais setores deveriam ser regulamentados, assim como qual seria o tipo e extensão dessa regulamentação.
A intervenção direta do Estado, na forma de estatização de empresas, não é muito popular, exceto entre os economistas heterodoxos, no Brasil conhecidos como desenvolvimentistas ou neo-desenvolvimentistas. Mas isto é tema para outro artigo.
Jornal "O São Paulo", edição 3193, 4 a 11 de abril de 2018.

A mãe como um ser de cuidados paliativos


Ana Lúcia de V. Liberato, doutora em Bioética pela Universidade Católica Portuguesa – Porto – Portugal – Enfermeira Obstetra.

Cuidados Paliativos é o exercício do cuidar, onde o valor central é a dignidade humana.
Resgata o ser humano como ser bio-psico-sócio-espiritual e também a família é amparada durante o tratamento e após a morte do paciente, no período de luto.
Quando acontece a gestação de uma criança com curta perspectiva de vida, também aí está um paciente que pode ser considerado em seu estágio terminal. Para falarmos de Cuidados Paliativos em feto malformado, devemos pensar a Pessoa Humana em toda sua Essência. A Pessoa Humana é sempre um ser único e irrepetível, não reduzido à medida circunstancial do próprio homem, colocada no centro dos valores morais.
Dignidade é qualidade ligada à essência do Homem, mesma para todos, não dependente de seu maior ou menor desenvolvimento, de sua saúde física ou psíquica; não é sinônimo de autonomia pois se assim fosse, os indivíduos sem completa autonomia não teriam dignidade alguma.
A genética comprova que no momento da fecundação se forma uma novidade biológica e o embrião torna-se determinado e individualizado em processo de formação contínuo; é um indivíduo humano, merecendo o mesmo direito que se deve a todo homem. Diante desta realidade o embrião/feto ou recém-nascido malformado devem ser considerados em seu valor humano único, irrepetível e não relativizado conforme opiniões subjetivas.
Os Cuidados Paliativos consideram o enfermo em toda sua dignidade humana e a morte como um processo natural inevitável; o mesmo conceito é adequado e necessário também junto ao feto em gestação ou junto ao recém-nascido condenado a pouco tempo de vida.
A mãe pode ser o ambiente físico de oferta destes Cuidados Paliativos durante a gestação ou pós parto. O suporte, tecnicamente competente, dará à Mãe, o apoio psicológico e emocional que necessita neste momento existencial tão difícil.
Quando um sofrimento inevitável se apresenta como limite da perfeição física ou do tempo previsto de vida, a cultura atual propõe eliminar o sofrimento, eliminando sua causa, mesmo que isto signifique abreviar a vida ou anular a existência daquele a quem somos chamados a amar. A mentalidade do “direito ao filho perfeito” e a cultura da qualidade da vida, conquistou na sociedade, espaço para o aborto provocado como resolução desta situação no mundo ocidental, aparentemente como uma conquista de direitos da mulher. 
A experiência vivida por tantos afirma ser possível um caminho de descoberta de que “a própria vida tem sentido até o seu último suspiro” em qualquer circunstância existencial, como afirma Frankl, porque sempre podem ser realizados valores; para isso é fundamental convocar os serviços de profissionais de saúde que exerçam sua função para além do tecnológico, colocando-se a serviço da Pessoa em sua unidade existencial.
O convite à mãe para constituir-se como um Ser de Cuidados Paliativos, propor a ela, a oportunidade de ser uma Unidade Amorosa dos Cuidados Paliativos, inicialmente em si mesma enquanto gestante e depois, na atenção que se fizer necessária após o parto, respeitando o binômio afetivo-espiritual entre a mãe e seu filho traz a oportunidade de viver com seu filho enquanto ele aí está, de elaborar gradativamente o luto e de evitar os riscos e consequências de um aborto provocado para a mãe. E, sobretudo, edifica-se uma sociedade menos utilitarista e mais verdadeiramente humana.

A força do diálogo entre leigos, presbíteros e epíscopos

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte

Ana Lydia Sawaya é professora titular de Fisiologia da UNIFESP - campus São Paulo e é conselheira do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

O Papa Francisco tem ressaltado constantemente a importância do diálogo para se chegar à verdade. É famosa sua frase “A verdade é uma relação”. E na esteira do Concílio Vaticano II chama a atenção para um olhar mais sinodal dentro da Igreja que muito bem se pode aplicar à relação entre leigos, presbíteros e epíscopos.
Os últimos acontecimentos que relatam várias críticas de leigos ao encontro das CEBs e à própria CNBB, veiculados nas redes sociais, indicam a todos os que amam a Igreja e sinceramente desejam construí-la, a urgência do diálogo.
A primeira coisa que se pode dizer é que os leigos que gastam tempo (e dinheiro) e vem a público chamar a atenção sobre alguma atividade da Igreja, se interessam verdadeiramente por ela. A segunda coisa que se pode dizer é que para todos a caridade deve impelir a ação. Em primeiro lugar aos mais velhos e mestres cabe buscar o diálogo, a acolhida ao desejo de intervir, exortar, e até se pode dizer, de alguma forma, equivocada ou não, corrigir. Por isso, é razoável que parta dos mestres e pastores um primeiro movimento de acolhida e abertura.
Quando há fortes críticas, há algo a ser mudado, aprofundado, ou mesmo, explicitado. Seria uma grande perda para a Igreja e seus pastores a atitude defensiva ou superficialmente condenatória. A caridade ao contrário, pede o encontro, a interação, a busca de diálogo. Só é possível o verdadeiro diálogo para quem tem certeza que o único bom é o Senhor que através do Seu Espírito nos guia a todos e conduz sempre a sua Igreja para o caminho da verdade. Por isso, não há nada a temer!
A Igreja na sua longa tradição não ama as visões hegemônicas, totalitárias, ou que não valorizam antes de tudo a pessoa, reconhecendo o seu ser livre como imagem e semelhança de Deus. Por isso, a Doutrina Social da Igreja dá precedência à pessoa em relação ao Estado. A encíclica Lumem Gentium lembra que “o Espirito habita na Igreja e nos corações dos fiéis, como num templo: neles ora e dá testemunho de que são filhos adotivos. Leva a Igreja ao conhecimento da verdade total, unifica-a na comunhão e no ministério, dota-a e dirige-a com diversos dons hierárquicos e carismáticos, e embeleza-a com seus frutos” (cap. I, 4).
E ainda, ressalta a importância de se reconhecer o sacerdócio comum existente entre os presbíteros e os leigos: “Assim, todos os discípulos de Cristo, perseverando na oração e no louvor de Deus, ofereçam-se também a si mesmos como hóstia viva, santa, agradável a Deus; deem testemunho de Cristo em toda a parte; e, àqueles que por isso se interessarem, falem da esperança que possuem, na vida eterna. O sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico, apesar de diferirem entre si essencialmente e não apenas em grau, ordenam-se um para o outro mutuamente; de fato, ambos participam, cada qual a seu modo, do sacerdócio único de Cristo” (cap.II, 10).
Por fim, urge dizer que as redes sociais, embora sejam instrumentos que facilitaram enormemente a difusão de informação e ideias, não substituem o encontro pessoal e a dinâmica deste e, por isso, não são instrumentos privilegiados para o exercício da comunhão e do diálogo dinâmico; nem tampouco facilitam uma amizade operativa para construção de um caminho comum.
Que as redes sociais não sejam uma armadilha que crie divisão e suspeita mútua, mas uma pro-vocação a um caminho na caridade e, por isso, verdadeiramente, eclesial! É o que exortamos a todos.
Jornal "O São Paulo", edição 3192, 27 de março a 3 de abril de 2018.

O saldo da CF2018 em nossa vida


Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

A proposta das Campanhas da Fraternidade é gerar uma reflexão e uma ação que aconteçam também depois da Páscoa. Contudo, é inegável que a Quaresma é o momento mais forte da Campanha. Assim, o período pascal também é um bom momento para nos perguntarmos sobre o saldo em nossa vida dessa Campanha.
A vida cristã é (ou deveria ser) um alegre caminho de contínua “correção de rota” (conversão), para ficar cada vez mais perto Daquele que pode nos preencher integralmente com seu amor. Alegre porque a correção não se resume à contrição do coração pecador, mas se alarga como experiência da vida abraçada pela Misericórdia, liberta de qualquer medo e capaz de saborear todo e encanto e fascínio da existência que nos foi dada pelo Pai.
Essa percepção da vida cristã, tão característica da Quaresma e da Páscoa, tem muito a ver com a Campanha da Fraternidade desse ano, cujo tema é “Fraternidade e superação da violência”. A pobreza material, o descuido e as injustiças da sociedade podem explicar muitos delitos e contravenções que ocorrem em nossa sociedade. Mas a violência cresce particularmente lá onde esses problemas levam ao medo e ao desamor.
A pessoa com medo se retrai assustada ou ataca com violência procurando se defender. Aquele que não recebe amor não encontra nem recursos nem motivos para construir a paz. Por isso, o destemor cristão, que nasce da confiança e da esperança dos que se descobriram amados com um Amor tão grande que supera a todas as adversidades, é o melhor caminho para se iniciar a construção da paz em uma sociedade violenta.
Infelizmente, nesse período em que a Igreja nos chamava à superação da violência, o povo brasileiro parece ter visto um aumento dessa violência – ou, pelo menos, ela se tornou ainda mais evidente e chocante a nossos olhos. Não podemos minimizar as causas estruturais e conjunturais desse processo. A indignação com os escândalos políticos, a falta de recursos e de assistência aos mais pobres, a perda de perspectivas de futuro devido à crise econômica, a impunidade dos que cometem grandes crimes e o infortúnio dos que cometem pequenos delitos, o confronto político mais acirrado devido à proximidade das eleições. Tudo isso colabora para o aumento da violência.
Mas, justamente quando as esperanças humanas parecem mais ilusórias é que a verdadeira esperança, aquela que vem com a descoberta do amor de Deus, se torna mais importante e mais decisiva para mudar os caminhos do mundo.
Qual é o saldo dessa Campanha da Fraternidade em nossa vida? Movidos não pela militância ideológica ou pela ilusão ingênua, mas pela alegria e liberdade dos que se reconhecem amados por Deus, nos tornamos mais capazes de construir a paz, de levar o diálogo, de confortar os que sofrem e interpelar os poderosos?
Esse é um tempo exigente para nosso testemunho cristão, um tempo de graça para descobrirmos a força do amor de Deus em nossa vida e na transformação do mundo.
Jornal "O São Paulo", edição 3192, 27 de março a 3 de abril de 2018.

O debate democrático versus notícias falsas

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte

Marcos da Costa é presidente da Seção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil.

O processo eleitoral de 2018 será extremamente desafiador para os brasileiros, não apenas por conta do intrincado cenário político, mas pela exigência de redobrada atenção de todos na hora de pôr o voto na urna diante da disseminação de notícias falsas. Vivemos hoje o fenômeno das chamadas fake news sobre os eleitores, o que promete adicionar especial dificuldade ao debate democrático. A propagação de inverdades na seara do ambiente eleitoral não é novidade histórica, sempre surge na tentativa de favorecer candidatos, mas a rapidez e o alcance da difusão desse tipo de conteúdo fazem diferença incentivados pelo avanço da tecnologia.  
O emaranhado de informações veiculadas em especial nas redes sociais e tidas como falsas acerca de políticos americanos e franceses, atingiram campanhas e confundiram a população recentemente nesses países. Na França, o partido de Emmanuel Macron – à época candidato – chegou a solicitar que o Ministério Público do país investigasse perfis criados on-line na reta final do pleito eleitoral. O político foi acusado por adversários de ser titular de empresa offshore nas Bahamas. Já a campanha do americano Donald Trump está sob suspeita de ter contado com a ajuda de produção de fake news por parte do governo russo.
O Brasil não está à margem do grave processo que se vê no mundo. É urgente enfrentarmos o tema sobretudo agora, quando passamos por momento político com novas regras para as campanhas e com os eleitores, cansados da corrupção, tornando-se presas fáceis desse tipo de armadilha. Em ambientes hostis proliferam os riscos que as notícias falsas representam para a lisura dos debates e para a democracia e não podem ser subestimados.
Tornou-se essencial amplificarmos o assunto e os mecanismos que podem ser utilizados nesse combate. Administradores das redes sociais anunciam medidas no sentido de minimizar o mal-estar que o tema vem causando. O Facebook fez, pelo menos, duas alterações desde o ano passado com o objetivo de reduzir o alcance de notícias falsas.
A advocacia, guardiã constitucional do Estado Democrático de Direito, tem um papel relevante neste momento. Em nosso meio, o tema ganha corpo e há correntes que divergem em relação à necessidade de o país elaborar, ou não, uma legislação específica. O próprio conceito é, ainda, impreciso. Notícia falsa tem sido compreendida como conteúdo disseminado com o propósito de confundir ou manipular e, a partir desse entendimento, o Congresso Nacional reúne ao menos três projetos de lei para tratar do tema. Um deles busca criminalizar quem compartilha ou divulga uma notícia falsa. Mas, por exemplo, o ato de compartilhar informações erradas porque se crê de fato nelas poderia ser classificado como criminoso? Como provar a intenção dolosa? A Justiça brasileira conseguiria checar a chuva de denúncias que certamente ocorrerá em tempo hábil, em meio a uma eleição? Os tipos penais existentes em nosso ordenamento jurídico – como crimes de calúnia, injúria e difamação, por exemplo – seriam suficientes? A lista de questões é infindável.
Não à toa, o universo das fake news ganhou especial atenção do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e, fora o mundo jurídico e as redes sociais, o assunto tem sido agenda frequente entre os profissionais de comunicação. Todas as questões elencadas, e muitas outras, terão de ser respondidas. A OAB de São Paulo abraça esse tema como uma de suas bandeiras em 2018. Queremos incentivar a troca de ideias, ao unir profissionais de diversos campos, visando reduzir os prejuízos à qualidade do debate democrático.
Jornal "O São Paulo", edição 3191, 21 a 27 de março de 2018.

A violência e o perdão


Ana Lydia Sawaya, professora titular de Fisiologia da UNIFESP - campus São Paulo e é conselheira do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

O Brasil está na lista dos países mais violentos do mundo. No ano passado foram assassinados 60 mil brasileiros. Por que? Atribui-se à instabilidade econômica, ao desemprego, e à desigualdade de oportunidades. Um grande estudioso sobre violência relata que esta não explode por causa da pobreza, mas devido à percepção de injustiça. Ou seja, a violência explode onde as pessoas percebem, com clareza, que estão sendo excluídas daquilo que a sociedade considera um valor e um bem para si. Por isso, é a percepção de exclusão e injustiça que faz explodir a violência.
O Brasil não é particularmente pobre - é uma economia emergente. Sua riqueza, porém, é extremamente mal distribuída. Sabe-se também que um dos fatores que mais influência a má distribuição de riqueza é a qualidade da educação. E é exatamente neste quesito que o Brasil mostra péssimas estatísticas. Não tem havido melhora na qualidade da educação no país e, em proporção a outros países, tem havido piora.
Outro dado impressionante e que também está associado a este quadro geral é a grande mudança que vem ocorrendo do ponto de vista religioso. Há algumas décadas atrás os brasileiros diziam-se católicos em 90% dos casos. Este número caiu para 50% segundo as últimas estatísticas, enquanto a proporção dos que se tornaram evangélicos aumentou 61% nos últimos 10 anos. É evidente, portanto, a grande instabilidade e insatisfação que está ocorrendo na experiência religiosa dos brasileiros. Mas há um dado novo ainda mais exemplificativo desta sociedade em profunda mudança e crise. O número de evangélicos tem decrescido nas regiões onde primeiro se expandiram como a região Sudeste e o número de evangélicos que hoje se declaram não praticantes chegou a 4 milhões de pessoas nas últimas estatísticas.
É inegável, portanto, as dificuldades que tantos brasileiros tem encontrado para achar uma casa que os acolha na profundidade de sua vida e de seu ser, e na resposta aos anseios mais profundos do seu coração. A experiência religiosa parece uma zona movediça e insegura que faz milhões de pessoas buscarem e correrem para lá e para cá, indo de igreja em igreja, do pastor A para o B ou C, de uma paróquia para outra, em busca de algo profundamente sólido, seguro, e que os ajude a viver. Algo, sobretudo que lhes dê o sentido para viver.
Ainda podemos descrever um nível mais íntimo da vida das pessoas e que também está profundamente em crise e pertence a essa areia movediça que engole a tantos: a perda da segurança familiar, e consequentemente social e econômica. Quantos jovens não vão para o tráfico porque seu “novo grupo” substitui sua família, gerando laços fortes e promessas reais de inclusão na sociedade de consumo pelo dinheiro fácil, que não precisa de uma boa escola, nem entrar no mercado de trabalho.
O que fazer diante deste quadro cada vez mais claro e estabelecido que faz alguns estudiosos relatarem que o Brasil pode estar sofrendo um processo descivilizatório (ou seja, está indo para trás em termos de civilização)?
O que podemos fazer nós que somos católicos? Repercorrer o caminho dos primeiros cristãos. Reconstruir comunidades de leigos onde o amor e o perdão sejam experiências reais, possíveis de serem encontradas e experimentadas. Comunidades onde se compartilhe a vida real, as alegrias, as tristezas, as dificuldades econômicas, se ajude os casais a viver seu casamento e a educar seus filhos. E onde a mensagem de Cristo e seu anúncio de perdão e amor possam ser vividos comunitariamente no dia a dia.
Jornal "O São Paulo", edição 3191, 21 a 27 de março de 2018.

O número de mortes maternas justifica a liberação do aborto no Brasil?


Elizabeth Kipman Cerqueira, médica ginecologista-obstétrica, especialista em Logoterapia, coordenadora do Departamento de Bioética do Hospital São Francisco, em Jacareí/SP.

Constantemente, ouve-se de autoridades públicas que o aborto deve ser liberado no Brasil por ser uma questão de Saúde Pública.
O Ministério da Saúde apresenta, para vinte anos (de 1996 a 2016), um total de 21.057.085 mortes na população brasileira, incluindo homens e mulheres de todas as idades. O número de mortes só do sexo feminino, foi de 8.925.579. Todas as mortes referentes à gravidez, parto ou aborto até 45 dias após o término da gestação são agrupadas na categoria denominada MORTE MATERNA, com o total de 34.348 casos (0,38% das mortes do sexo feminino). Destas, a maioria está ligada ao atendimento deficiente no pré-natal e no parto. O total de mortes por aborto foi 2.767 (0,03% das mortes do sexo feminino) aí incluídos motivos diversos não ligados ao aborto provocado e clandestino como gestação ectópica, mola hidatiforme e outros. Se forem computadas apenas as mortes por falha na tentativa de aborto (aborto clandestino) e mesmo adicionadas às causas não especificadas neste item, chega-se ao número de 1.251 mortes (3,64% das MORTES MATERNAS).
Não deveria ocorrer nenhuma morte possível de ser evitada, porém essas cifras indicam a manipulação de informação quando se quer indicar a liberação indiscriminada do aborto por ser uma questão de Saúde Pública, sobretudo considerando que essas mortes poderiam ser evitadas com prevenção, orientação, acolhimento e atendimento integral à mulher surpreendida por uma gestação indesejada. Além disso, no total, as mortes maternas exigem atenção especial ao pré-natal, parto e puerpério.
A indicação de proteção da mulher abrange todas as idades, sobretudo onde existe maior vulnerabilidade. O próprio site DataSUS - Sistema de Informações sobre Mortalidade - apresenta 534.609 MORTES DE MENINAS ATÉ OS 5 ANOS no mesmo período de 20 anos no Brasil. Dessas, existe a cláusula ÓBITOS POR CAUSAS EVITÁVEIS EM MENINAS ATÉ 5 ANOS: 358 341. Como causas possivelmente evitáveis, mais 125 707. Números que somam quase 500.000 mortes de meninas que poderiam ter sido evitadas! Observe-se que aí NÃO estão incluídas: desnutrição, atenção inadequada ao parto, sífilis congênita, verminose, tuberculose, tétano – doenças que exigem ações de Saúde Pública. São todas mulheres cujas mortes deveriam ter sido evitadas!!!
Outro argumento usado tem sido o custo das internações no SUS decorridos de abortos clandestinos. Mesmo ignorando os números que servem de base para esses cálculos, sabe-se que os países como EUA, Canadá ou Reino Unido que liberaram o aborto assumiram gasto impossível de ser financiado pelos cofres públicos, sem considerar os problemas (imediatos, médio e longo prazo) de saúde decorrentes do próprio aborto provocado para a mulher, mesmo quando realizado em hospital. 
O número de mortes maternas não justifica a liberação do aborto no Brasil sob a alegação de problema de Saúde Pública. É preciso que se contemple a verdade para descobrir o erro!