sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

A identidade de gênero e a destruição da família

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Gilberto Haddad Jabur é professor em Direito Civil na PUC-SP, membro da União dos Juristas Católicos de São Paulo (UJUCASP) e presidente da Cátedra da Família, associada à Faculdade de Direito da PUC-SP.

A teoria ou ideologia de gênero, segundo a qual a identidade feminina ou masculina se constrói ao sabor da pessoa, pouco importando a existência das características essenciais que conformam os sexos masculino e feminino, foi hábil e enganadoramente embutida na agenda mundial, sob o (falso e) sempre bem-visto signo da igualdade entre os sexos.
Mundo afora, notam-se, há muito, os resultados dessa destruidora tendência que pretende substituir os pais na primordial tarefa de definir os rumos pessoais e morais de seus filhos. Na Suécia, criou-se um pronome pessoal neutro (Hen) pelo qual as crianças devem ser chamadas nas escolas. Na Alemanha, pais foram presos por se recusarem a enviar seus filhos às escolas em que se ensina o gênero.
Em 2010, um programa televisivo norueguês chamado Hjernevask (Lavagem cerebral) expôs o que se passou a chamar “a farsa do gênero na Noruega”: apesar dos intensos esforços empreendidos naquele país para implementação da “igualdade de gênero” a partir da última década de 70, constatou-se que mulheres continuavam a preferir as profissões tipicamente femininas, assim como os homens, as carreiras masculinas. Os estudos dos ideólogos nórdicos do gênero mereceram veemente rejeição da comunidade científica, que os considerou teóricos, sem nenhuma base cientificamente sustentável.
No Brasil, a introdução do gênero no ensino escolar (Plano Nacional de Educação) foi recusada pelo parlamento. Mas o Fórum Nacional de Educação, órgão instituído no âmbito do Ministério da Educação, publicou o Documento Final da Conferência Nacional de Educação de 2014, que, em desacordo com a decisão do Congresso Nacional e em franco desrespeito ao Plano Nacional de Educação, reacendeu e introduziu a ideologia de gênero como diretriz para a educação. Estados e municípios brasileiros também votam o tema no âmbito de sua jurisdição, e, entre os Estados, 13 já aprovaram seus planos de educação, 8 dos quais sem a referência a gênero. Entre os quase 6 mil municípios brasileiros, 98% rejeitaram a introdução do gênero na agenda escolar.
A imposição da ideologia de gênero no Brasil atenta contra os primordiais direitos constitucionalmente garantidos à família, cujo planejamento “é livre decisão do casal”, sendo “vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas” sobre o exercício desse direito (Constituição Federal, art. 226, § 7º), sem se perder de vista “a condição peculiar da criança e do adolescente como pessoas em desenvolvimento” (Lei n. 8.069/90 – Estatuto da Criança e do Adolescente, art. 6º). A estrutura psicossomática dos infantes, que ainda não são dotados de autocrítica nem possuem suficiente experiência de si, não permite que temas complexos, como o da sexualidade, sejam tratados como quereriam alguns ideólogos, ainda que o educador reúna os mais desejáveis predicados pessoais e profissionais.
A educação escolar deve ter compromisso com a verdade e não com ideologias. Reclama, por isso, genuína imparcialidade ideológica. Ensinar a uma criança que ela pode se insurgir contra seu sexo, incentivando experiências sexuais precoces, destrói sua inerente identidade, aquela com a qual aprendeu a conviver desde que se apercebeu de suas características corporais e pessoais, assim como degenera, no seio da família, a figura natural do pai e da mãe. Nega-se, além de tudo, a biologia e a psicologia. Esse colapso de identidade desfaz a harmonia entre corpo e alma e abala irreparavelmente os alicerces da família, primeira e principal instituição social de cuja adequada preservação dependem todas as demais estruturas sociais.
Jornal "O São Paulo", edição 3087, 3 a 10 de fevereiro de 2016.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O Brasil entre o confronto e o diálogo

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Francisco Borba Ribeiro Neto, 
coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

A grande piada nesta virada do ano foi que 2016 não era um novo ano, mas o retorno de 2015 estropiado. As notícias do governo, da Lava Jato e agora da Zelotes, dos congressistas em recesso parlamentar, parecem confirmar a piada. Já os atuais protestos de rua fazem pensar também no retorno de um 2013 desnorteado.
Debates, ações policiais capturando corruptos e protestos nas ruas não são obstáculos à democracia. Pelo contrário, são sinais de vitalidade democrática, de uma nação que procura se livrar dos erros do passado e caminhar para o futuro.
Obstáculo para o futuro é a falta de perspectiva política, que faz com que os principais atores políticos se engalfinhem (até literalmente) para nada, pois nenhum dos lados têm propostas relevantes para superar a crise. Obstáculo é a eterna rusga entre PT e PSDB, mais preocupados em denegrir um ao outro do que em propor soluções (e agora, ao invés de tucanos em cima do muro, parece que temos urubus de outros partidos esperando a carniça). Obstáculos são políticos e militantes preocupados em condenar adversários e absolver partidários e não em ver feita a justiça (que deveria ser dura para os culpados e doce para os inocentes de ambos os lados).
Obstáculos não estão em jovens manifestando-se e protestando. A médio e longo prazo seria pior uma geração alienada e apática, esperando não se sabe o quê. Obstáculos surgem quando as polícias não sabem ou não conseguem manter a ordem pública nestes protestos, quando umas centenas de manifestantes se imaginam no direito de depredar o patrimônio dos outros e mesmo o público, ou de atrapalhar a vida de milhões (incluindo aí os pobres que querem defender, pois os ricos são sempre os menos afetados por qualquer problema urbano).
Parece que as lideranças brasileiras – sejam quais forem – não ouviram as palavras que o Papa Francisco dirigiu a elas, durante a JMJ (em 27/07/2013). Ele insistiu na necessidade do diálogo para a superação dos problemas sociais. Mas o que mais se vê no Brasil de hoje são confrontos estéreis que não conduzem a nada. Os caminhos propostos pelas partes são insatisfatórios e precisam ser revistos para contemplar também as necessidades apresentadas pelos demais grupos.
A primeira exigência para o diálogo é a justiça. Em países com longo histórico de conflitos internos, como a Colômbia, os que lutam pela paz sabem que as partes precisam fazer concessões e perdoar, mas a realização da justiça é o primeiro passo para a conciliação. O Brasil encontra-se num momento de inflexão na luta contra a corrupção. As coisas não podem acabar em pizza, mas para isso nem a impunidade, nem o revanchismo ou a raiva podem dar a última palavra.
O diálogo exige sempre, porém mais ainda neste momento, responsabilidade social e um olhar realista diante dos problemas. Não se pode querer que um Estado em crise financeira “fabrique dinheiro do nada” ou que uma nova ordem política e social aconteça simplesmente porque as coisas vão mal. As duas hipóteses já foram tentadas em nossa história – e só pioraram a situação. Por outro lado, não se pode ignorar a ultrajante sensação de dignidade ferida que o povo vive ao saber que terá de apertar o cinto por conta de erros políticos, técnicos e até morais de uns poucos.
Justiça, realismo e responsabilidade social são as condições para a credibilidade e o diálogo. Credibilidade e diálogo são as condições para sairmos da crise. É o momento das organizações sociais, como associações, sindicatos, universidades, igrejas, colocarem sua credibilidade a serviço do diálogo em todos os níveis.
Jornal "O São Paulo", edição 3086, 28 de janeiro a 2 de fevereiro de 2016.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Deus habita esta cidade

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Ney de Souza é padre da arquidiocese de São Paulo, professor de História da Igreja da Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção da PUC-SP.

São Paulo completa 462 anos. É tempo de repensar os desafios da Igreja na cidade. A sua origem cristã e católica não pode ser esquecida. Recordamos o nascimento da antiga vila no Pátio do Colégio, onde os padres jesuítas, em especial Anchieta, iniciaram, sob o patrocínio do apóstolo Paulo, a que seria a metrópole atual.
São Paulo cidade da riqueza e pobreza extremas. O pastoreio da Igreja católica acompanhou o seu crescimento econômico gigantesco, mas também vivenciou a complexidade que nos defrontamos pela quantidade imensa de cortiços, favelas, periferias sem água e esgoto e inúmeras situações violadoras da dignidade humana. O sábio da antiguidade, São João Crisóstomo, alertava que “não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida”. Outro sábio, da atualidade, o Papa Francisco na Evangelii Gaudium (EG) alerta que “o ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Devemos dizer não a uma economia da exclusão e da desigualdade social”.
A Igreja em São Paulo sofreu ao lado da população e passou pelos anos da tortura e da violação dos direitos humanos durante a ditadura militar (inclusive censura ao jornal O São Paulo, rádio 9 de julho, invasão da PUC). Viu aumentar a miséria da população de rua e dos excluídos.
Diante de tantos desafios, a Igreja intensificou o seu trabalho de evangelização e anúncio misericordioso de Deus, e seu compromisso com a transformação social, a defesa dos direitos de todos e o diálogo ecumênico e inter-religioso. A Igreja, escrevia João Paulo II, “vive uma vida autêntica quando professa e proclama a misericórdia” (Dives in misericordia). E “sem misericórdia, poucas possibilidades temos hoje de inserir-nos em um mundo de feridos, que têm necessidade de compreensão, de perdão, de amor” (Francisco, Discurso ao Episcopado Brasileiro na Jornada Mundial da Juventude, 2013).
Neste quadro desafiador está mergulhada a evangelização que se empreendeu especialmente a partir dos anos 70. O primeiro deles foi à linha de organização popular para que a população se tornasse de fato sujeito que decide o ser presente e futuro da organização da cidade. As prioridades dos Planos de Pastoral em favor das periferias, no mundo do trabalho, dos direitos humanos, das comunidades populares, foram fatores de encarnação do catolicismo dentro do movimento popular emergente. Esta inserção da Igreja na vida da população fizeram com que se tornasse lugar de expressão e busca da maior liberdade, símbolo de esperança e lugar de encontro, de unidade de várias forças dispersas e antes desconhecidas.
A tonalidade da evangelização em favor dos empobrecidos e em favor de um projeto humano, orientado pela realidade da justiça de Deus, se fez, se faz e se fará através de uma obra evangelizadora, por um ponto de humanidade e de convergência que se adquiriu da própria experiência. O catolicismo quer contar ainda mais com todos aqueles que vivem nesta megalópole (independente de credo, de etnia, de língua, de orientação sexual) e que desejam construir aqui os sinais concretos da vida através da justiça, do direito, da solidariedade, da fraternidade e da paz. Nesta festa da cidade de São Paulo no ano jubilar da misericórdia se faz urgente abrir a Porta da misericórdia do nosso coração para acolher e dar nova perspectiva de vida digna a imensidão dos excluídos desta cidade. “Não deixemos que nos roubem a esperança” (Francisco, EG), pois de esperança em esperança se constrói os sinais do Reino de Deus.
Jornal "O São Paulo", edição 3085, 20 a 27 de janeiro de 2016.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

A sequência inconsútil da vida


Ilustração: Sergio Ricciuto Conte

Eduardo Rodrigues da Cruz é professor titular do Departamento de Ciências da Religião da PUC-SP. Tendo graus avançados em Física e Teologia, publicou extensamente sobre o relacionamento entre ciências naturais e fé Cristã.

Há pouco tempo a atriz Fernanda Torres publicou uma coluna de jornal sobre o aborto (Folha de S. Paulo, 27/11/2015). Mas ao contrário do que se poderia esperar, não adota a posição típica daqueles que defendem a liberação do aborto, e reconhece a dramaticidade da situação da mulher, de seu cônjuge, e do pequeno ser que luta pela vida.
Entretanto, ela ainda coloca a questão em termos de “um embate sem solução entre ciência e religião”. Surge então a pergunta que motiva a presente reflexão: será que há efetivamente um embate? A Igreja defende que, desde o momento da concepção, a nova vida que se inicia é a de um ser humano, diferente da dos pais que a acolheram. Será que isso recebe o respaldo da ciência?
Bem, um novo desenvolvimento científico chamado "Evo-Devo” sugere que sim. Trata-se da tradicional embriologia, agora vista sob uma perspectiva evolutiva. Menciono agora um dos principais cientistas da área, Sean B. Carroll, que tem um livro com versão em português chamado Infinitas formas de Grande Beleza (Jorge Zahar Editor: 2006). Nele se mostra como alguns planos básicos e blocos de construção (genes específicos) dão margem à fantástica diversidade da vida, e como esses planos encontram-se já nos embriões. Para o autor, “a embriogênese é um fenômeno magnífico. Em sapos, a jornada desde o zigoto até o girino leva apenas alguns dias, e os principais eventos ocorrem numa escala de tempo de algumas horas” (p.83).
E no caso do ser humano? O ritmo é muito lento, “são necessárias três semanas para formar a região diferenciada da cabeça” (p. 85). Nada parece acontecer nos primeiros momentos, o que fez alguns defensores da liberação do aborto falarem que o embrião seria “um bando de células”. Mas o que não é visível ao microscópio ótico fervilha em uma escala bem menor. Assim que o espermatozoide se funde com o óvulo, um fantástico movimento começa a ocorrer e que, se não houver acidentes de percurso, leva a um bebê bem chorão. Portanto, qualquer divisão que se estabeleça, como zigoto, gástrula, feto, criança, etc., ocorre apenas para fins de estudo—na natureza, o processo é contínuo.
Isso pode ser confirmado a partir de outras considerações evolutivas. Devido ao sucesso de nossa espécie, que leva ao bipedalismo e a bebês de cabeça grande, o parto difícil indica que todo bebê nasce prematuro, comparativamente a outras espécies. Com isso, temos a extrema dependência que ele tem dos cuidados maternos, e a mobilidade começa apenas depois de muitos meses de vida. O famoso “nove meses” tem um quê de arbitrário, um expediente da natureza para que a mãe não morra durante o parto. Isso acentua a continuidade do movimento a que aludimos anteriormente. A divisão que se estabelece no direito, entre a criança já nascida, com uma série de direitos e um feto tratado mais como objeto, reflete uma visão obsoleta de ciência. Do ponto de vista daquilo que hoje se conhece, há que se atribuir os direitos desde a criança já formada para trás, até o indefeso embrião.

Isso não quer dizer que a ciência “prove” o que a religião já dizia há muito tempo. Elas apenas indicam que há evidências que favorecem a afirmação de que desde a concepção até a criança nascida não há saltos qualitativos, e que os vários momentos até os quais o aborto poderia ser permitido são convenções humanas que estão ao sabor de opções ideológicas. Portanto, dona Fernanda, não há aqui, de fato, nenhum embate entre ciência e religião.
Jornal "O São Paulo", edição 3084, 13 a 19 de janeiro de 2016.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Subsidiariedade: das palavras aos fatos....

Thais Novaes Cavalcanti é advogada, doutora em Direito do Estado pela PUC-SP. professora do programa de mestrado da UNIFIEO, autora do livro Direitos Fundamentais e o Princípio da Subsidiariedade (São Paulo: EDIFIEO, 2015).

Subsidiariedade é uma palavra pouco conhecida e aplicada no Brasil. Na maioria dos dicionários da língua portuguesa há apenas menções aos verbetes “subsidiário, subsídio, subsidiar, subsidiado”. Todas essas fazem referencia ao conceito de “ajuda, auxílio, reforço, socorro, algo que se realiza por meio de auxílio ou subscrição”. Mas essa ideia de ‘ajuda’ não basta para compreender o conteúdo da subsidiariedade e do princípio social que dela decorre. Trata-se de um princípio fundamental para a doutrina social da Igreja e que tem sido aplicado com várias consequências positivas em muitos países.
Não se trata apenas de ajudar, mas se trata de dar autonomia, de respeitar a liberdade, de valorizar as capacidades das pessoas. Esta ideia de subsidiariedade, portanto, necessita ser utilizada juntamente com alguns pontos básicos: a) a pessoa livre e ativa; b) a reciprocidade nas relações; c) a sociedade civil valorizada e estimulada; d) a educação da liberdade.
Assim, a subsidiariedade transforma-se no tempo, de uma análise filosófica sobre a pessoa e o Estado (Aristóteles, Tomás de Aquino, Genovesi, Vico, Tocqueville) para um princípio jurídico e social (Papa Pio XI, Adenauer, De Gasperi, Schumann) formado em 1931 para confrontar os regimes totalitários que surgiam na Europa. O princípio da subsidiariedade consiste na ideia de que as sociedades maiores, especialmente o Estado, devem ajudar e complementar as atividades dos indivíduos e dos grupos sociais nos diversos setores da vida (econômico, social, individual, familiar).
É importante que se diga que hoje este princípio é a base da formação da União Européia, bem como está positivado nas Constituições de diversos países como: Alemanha, Itália, Espanha, Portugal, Áustria, Suécia, França.
A proposta da subsidiariedade para a relação entre Estado e sociedade é muito importante, pois a função do Estado deve ser auxiliar entes menores e até mesmo a pessoa a realizarem suas atividades com suas próprias mãos. Por isso, o princípio da subsidiariedade implica em uma postura do Estado, em uma série de políticas públicas estabelecidas com a finalidade de estimular o pequeno, os grupos, a sociedade, as famílias, a pessoa a terem iniciativas e contribuírem para o desenvolvimento delas mesmas e do próprio Estado.
Seria o Estado subsidiário uma proposta para a reorganização que o Brasil necessita?
A Constituição brasileira de 1988 não estabelece o princípio da subsidiariedade, no entanto, estamos pautados na dignidade humana, no princípio da solidariedade e no direito ao desenvolvimento, tanto econômico como da pessoa. O Estado brasileiro pode e deve ser mais subsidiário.
Várias propostas podem ser feitas e estudadas: participação da família e adolescentes na gestão do ensino, estímulo econômico à formação de associações, organizações sociais e cooperativas, políticas de fortalecimento de pequenos e médios empresários, incentivos fiscais para que o privado colabore solidariamente com o público, regras de colaboração entre o público e o privado que respeitem a autonomia etc.
Importante é restabelecer a vida criativa que há na sociedade, de forma que não seja o Estado a propor, a financiar, a planejar, a trabalhar em tudo. Em resumo, a subsidiariedade propõe mais sociedade e menos Estado.
Jornal "O São Paulo", edição 3083,  6 a 12 de janeiro de 2016.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Natal do Deus conosco

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Padre Reginaldo Manzotti é coordenador da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR). Apresenta diariamente programas de rádio e TV.

Mais uma vez nos preparamos para comemorar o Natal. A cada ano a sensação que se tem, através das propagandas vinculadas na mídia, é que está se perdendo mais e mais o verdadeiro sentido do Natal.
Papai Noel tornou-se o símbolo do Natal, e a festa do Deus Menino, que nasceu numa simples manjedoura, pobre entre os pobres, na gruta de Belém, tornou-se um pretexto para um consumismo desenfreado.
Até mesmo entre nós católicos, muitos sabem que celebram o nascimento de Jesus, mas não se atém à grandiosidade que envolve este fato. A festa do Natal é de fundamental importância para o cristianismo, pois se celebra a encarnação de Deus feito homem (Jo 1, 14).  Jesus, o Emanuel, Deus Conosco que entra na história sendo frágil criança, é Deus que se esvaziando de si mesmo, vem a nós, assumindo nossa condição humana em tudo, menos no pecado. Vem para trazer a luz, a paz, a salvação. Juntamente com a Páscoa, o Natal é uma das maiores festas da religião católica.
Nesse tempo é comum passarmos nas ruas e vermos os moradores pintando, arrumando, decorando suas casas para o Natal, isso é válido, mas não podemos nos esquecer que é em nosso coração que Jesus quer nascer e renascer a cada ano.  Por isso a Igreja, Mãe e Mestra oferece um tempo propício para nos prepararmos para viver o Natal em toda sua plenitude. Este tempo chama-se Advento – chegada.
Esse tempo que vivemos e nos torna mais humanos é uma graça especial de Deus. Ele a cada ano nos concede este momento de humanização. Enquanto a ressurreição é o momento da eternização do humano, o Natal é a humanização do eterno. E ao celebramos o eterno no humano nos tornamos melhores. Parece óbvio, mas o mundo se torna mais solidário porque os homens recebem neste tempo uma graça de Deus.
A noite santa e o dia de Natal têm esse encanto de nos fazer olhar para aquilo que há de mais digno em cada ser humano: o divino corporizado, transformado, materializado. Somos chamados a olhar o lado bom e a melhor parte que cada um de nós tem. Por isso o Natal é tão especial e maravilhoso.
O encanto vem do Natal porque nele o lado de Deus presente em nós fica mais latente, o pedaço de Deus derramado em cada ser humano pulsa mais forte e no mesmo ritmo que nossos corações. Mesmo os cristalizados, endurecidos, mesmo aqueles que ficaram amargos, aqueles que ficaram profundamente marcados pela mundaniedade, explodem diante do eterno, diante da manifestação frente a Deus, que do alto dos céus abre as nuvens, passa e se faz um de nós. A noite de Natal permite bombear em todas as nossas veias, a eternidade que existe dentro de nós.
Há coisas ruins, há mágoas? Supere-as. Um anjo apareceu aos pastores e anunciando o nascimento do Menino Jesus os encheu de luz, mas o que disse em primeiro lugar não foi glória ou paz, foi: “Não tenhais medo” (Lc 2, 10a), não temais, não tenhais pavor, não desiludais.
O mal que pode estar em nós é infinitamente menor do que o bem, porque Deus o eterno, materializou-se e nós somos um pedaço de Deus.
Natal é Natal porque Jesus nos dá esse presente. O Verbo se fez carne, o Verbo se fez um de nós. A palavra se fez carne e se fez luz. Vale a pena insistir, vale a pena deixar a luz nos guiar. Essa luz, esse Cristo que veio nos trazer um jeito diferente de olhar o mundo, tem que ser um referencial não só no Natal, mas sempre.
Jornal "O São Paulo", edição 3082, 17 de dezembro de 2015 a 5 de janeiro de 2016.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A esperança do Natal em meio à crise

Editorial do jornal O São Paulo, ed. 3082, de 17 de dezembro de 2015 a 5 de janeiro de 2016.


Num momento de crise econômica, política e social, como este atual, nossa mentalidade consumista e cética tende a pensar este Natal como aquele “de poucos presentes”. Ou reduzi-lo a um momento de esquecimento, de alegria e celebração, onde não lembramos dos problemas que voltarão quando a festa acabar.
Mas o Natal, inclusive o da crise, é uma festa de esperança, onde celebramos o fato de que Cristo nos “primereia”, no neologismo do Papa Francisco.  Ele vem primeiro, vem em nosso auxílio sem que tivéssemos feito algo para merecê-lo.
J.R.R. Tolkien escreveu que as coisas de Deus são sempre surpreendentes e imprevistas, ainda que tenhamos passado toda a nossa vida ansiando por elas. Cristo nos “primereia”, toma a iniciativa, vem ao nosso encontro, e nós, mesmo que sempre tenhamos desejado isto, nos surpreendemos cativados.
A celebração do Natal não é só do menino-Deus que nasceu na manjedoura há séculos. É a celebração daquele primeiro encontro feito por cada cristão em sua caminhada na fé, que cada um de nós recorda com gratidão e ternura.
Todos nós, num dia, numa ocasião específica, encontramos Cristo em nossa vida. Geralmente foram ocasiões que pareciam banais. Outros pensariam em autossugestão, “coincidências” ou frutos do nosso trabalho e inteligência. Mas nós sabemos que não foi nada disso, que sugestões e coincidências não explicam aquela ocasião, que nossas capacidades não poderiam criar aqueles resultados.
Foi Ele que quis se manifestar em nossa vida, que “primereiou”, tomou a iniciativa e veio até nós. A cada Natal somos convidados a lembrar não só o nascimento de Belém, mas também este que aconteceu e continua acontecendo em nossa vida.
A esperança cristã não vem de nossas forças. Pelo contrário, é ela que nos dá forças. Uma esperança que nasce porque Deus vem até nós, realmente nos ajuda quando precisamos.
A celebração natalina será um gesto nostálgico ou escapista, uma simpática ilusão, se não nos lançarmos na realidade a partir desta esperança. Por isso, a crise não é um obstáculo para a festa, mas uma oportunidade de nos reencontrarmos com a razão de nossa esperança.
É um caminho de solidariedade, partilha e dedicação ao outro.  O encontro com Cristo não é um tesouro que pode ser acumulado. Guardado, se corrompe e perde seu valor. Distribuído, empenhado na construção do bem, se multiplica e mostra todo o seu valor.

O Natal da crise não é aquele de poucos presentes. É o Natal onde o verdadeiro Presente pode se tornar ainda mais presente. Basta nos entregarmos com confiança à esperança que nasce do encontro com Cristo, vivendo-a na solidariedade com os que estão nas “periferias da existência”.

Leia Também:

Laudato si'A conversão ecológica proposta pelo Papa Francisco
Francisco Borba Ribeiro Neto

Ano da MisericórdiaPapa convoca Ano da Misericórdia
Ivanaldo Santos
Padre Evaristo Debiasi
Rubens Ricupero
Ideologia de gêneroBem mais complexa
Klaus Bruschke
Padre Denilson Geraldo
EspiritualidadeA Paixão de Jesus
Francisco Catão
Cecília Canalle Fornazieri
Eduardo Rodrigues da Cruz

Para receber nossa Newsletter, inscreva-se em fecultura@pucsp.br