quarta-feira, 9 de maio de 2018

O que é o “Eu Humano”?


Caio de Souza Cazarotto – Advogado. Mestre em Filosofia do Direito.

A defesa da vida humana, pressuposto necessário da bioética, parte do princípio de que essa vida é dotada de dignidade. Mas de onde provém essa dignidade? Seria ela meramente formalística, engendrada pela vontade ou pelo raciocínio humano, ou teria algum substrato ontológico, real? Para isso, é necessário investigar o que é propriamente o ser humano.
Nessa investigação, a proposta inicial é proceder à análise dos sentidos que normalmente se atribuem à palavra “eu”, em vista de encontrar seu substrato permanente e contínuo por baixo deles. Por fim, a observação das experiências de morte clínica irá fornecer uma das principais chaves científicas para a confirmação dessa forma substancial da identidade humana.
Há diversos modos de se utilizar o termo “eu”, tais como o “eu” presencial (o indivíduo aqui e agora); ou o “eu social” (o indivíduo em suas diversas relações). Neste artigo iremos considerar o “eu” em sentido biográfico ou autobiográfico”. Esse sentido transparece nas situações em que a pessoa conta sua história para si mesma ou para os outros. Baseia-se, portanto, na recordação ou memória de fatos e se constitui de formas narrativas construídas a partir do material de que o indivíduo dispõe. Esse significado do termo “eu” revela algo bem mais estável e contínuo; porém, o elemento de esquecimento e o fator de seleção que a mente faz em relação a dados que, naquele momento de sua vida, parecem mais relevantes, faz com que haja descontinuidades também no “eu biográfico”. Por exemplo: o fato de que as pessoas não se recordem do período em que estavam no ventre materno e dos seus primeiros anos de vida ou de fatos a que não atribuem importância não significa que elas não passaram por esses estágios ou acontecimentos.
Percebe-se, desse modo, que tudo aquilo a que se atribui a palavra “eu” tem referência a algo descontínuo, escandido, fragmentário e passível de modificação no decurso do tempo. Porém, todos sabem algo que é completamente evidente e que pode ser expresso nos seguintes termos: “Eu sempre fui eu mesmo e nunca deixei de ser por um único momento. ” A cada dia que acordamos, sabemos que somos nós mesmos e que essa identidade permanece por baixo de todas as mudanças do “eu presencial”, “social” ou “biográfico”.
A pergunta que cabe a partir dessa constatação é a seguinte: De onde surge esse senso de continuidade no que se refere à identidade do “eu”?
David Hume, filósofo empirista, afirmava que as únicas coisas que podemos conhecer com certeza são dadas pelas experiências fragmentárias. Notamos sentimentos, pensamentos, percepções, mas nunca um “eu” que esteja por baixo dessas experiências; logo, o que chamamos “eu” seria mero feixe de percepções transitórias, não uma substância real. Porém, as indagações que surgem naturalmente são: Quem pode dizer que tem essas percepções, sentimentos e pensamentos? Como um “feixe” pode adquirir um senso de continuidade de sua própria identidade? Não há resposta satisfatória para elas seguindo essa linha de raciocínio.
Há os que afirmam que ele nasce de uma imposição ou influência social ou cultural. Porém, uma imposição desse tipo pressuporia que os que compõem a sociedade e causam essa influência tivessem um “eu” real, enquanto os que a sofrem não o tivessem. Além disso, essa imposição teria que ser contínua, não podendo se interromper em momento algum, pois se isso ocorresse, a identidade se perderia automaticamente.
Em parcela da tradição psicanalítica, o “eu” é interpretado como uma construção realizada sobre o inconsciente. No entanto, a existência ontológica de um “eu” é a condição necessária para que qualquer pessoa construa algo. Essa construção, portanto, será sempre uma imagem do “eu”.
Pode-se perguntar se o corpo seria esse fator de continuidade e permanência unificada do “eu”. Sob determinado aspecto, a resposta é negativa, pois em um período de menos de dez anos, todas as células do corpo de um indivíduo se modificam – as antigas morrem para que nasçam novas.
A estrutura da corporalidade, no entanto, permanece a mesma. As mutações, dessa forma, ocorreriam a partir de um mesmo corpo material, o qual não se modifica em si mesmo.
Essa matéria da qual o indivíduo se constitui, no entanto, é dotado de uma forma, a forma que o torna humano, com os fatores distintivos dos outros entes, dentre os quais, a capacidade de se reconhecer enquanto individualidade permanente e contínua, mesmo no decurso de intensas mutações.
A visão materialista se assenta na hipótese de que a matéria da qual o homem é constituído encontra fundamento em si mesma e que é a evolução do cérebro humano que permite essa especificidade da identificação consigo mesmo.
O prisma metafísico, no entanto, não reconhece a matéria como fundamento de si, tendo em vista que nada do que existe de puramente material é causa sui e de que a forma dessa matéria, presente em cada individualidade, denota a presença de um Intelecto – ou Logos – que confere existência real ao ser constituído de matéria e forma. Esse Logos, por ser o fundamento dos seres existentes, contém, abrange e transcende a matéria, sendo portanto supramaterial – é o sentido de “metafísico”.
O filósofo Duns Scott, em aperfeiçoamento à filosofia aristotélico-tomista – que, nesse ponto, atribui à espécie humana a forma de “animal racional” – traz o termo latino Hecceidade (“qualidade de ser isso”) para expressar a forma substancial específica do indivíduo, que, aliada à matéria, confere existência atualizada àquela individualidade humana a qual, antes de sua geração, existia como mera possibilidade.
O acesso a essa Hecceidade ocorre por meio da experiência do senso de identidade do eu consigo mesmo, que só o ser humano é capaz de ter justamente em razão de sua participação no Intelecto, no Logos, que é o fundamento de sua existência. Isso é o que permite traduzir a forma substancial irredutível a partir da qual o indivíduo se constitui como ser existente. O ser humano, segundo essa perspectiva, ao mesmo tempo em que permanece sendo material também participa do fundamento que transcende a matéria e que permite ao homem reconhecer o “ser” das coisas e a sua própria existência como individualidade unitária e permanente. Isso é o que poderíamos chamar de “eu substancial”.
A cultura moderna, entretanto, formada em grande medida com base numa desconsideração prévia pela Metafísica e permeada pela ideia de que só é possível conhecer realmente aquilo que se possa provar pelo método experimental da ciência moderna, não pode aceitar a princípio essa concepção de “eu”, a menos que alguma evidência cientificamente concreta se imponha e conduza a esse entendimento. É o que ocorre por meio da investigação das chamadas experiências de morte clínica. Essas experiências são largamente relatadas na literatura científica por autores, dentre os quais renomados neurocientistas, que se interessam pelo assunto, tais como o professor Bruce Greyson.[1]
O caso Pam Reynolds, relatado no livro Ciência da Vida após a Morte, é um dos mais emblemáticos e esclarecedores a esse respeito. Ao aceitar uma operação cirúrgica de altíssimo risco para a retirada de um tumor no cérebro, Pam passou por um estágio de paralização das atividades cerebrais e de parada cardíaca durante a cirurgia, ou seja, nesse intervalo de tempo ela estava literalmente morta para todos os efeitos da ciência. O mais impressionante é que nesse período, conforme relatado pela própria paciente após a ressuscitação, Pam percebeu-se fora do seu corpo físico, observou o formato exato das ferramentas que foram usadas na cirurgia – algo que não poderia ter percebido antes, pois quando adentrou a sala de operações, já estava anestesiada – e ouviu o que as pessoas que compunham a equipe médica diziam durante a operação, o que depois verificou-se que correspondiam à realidade. Foi relatado que durante esse período, o horizonte de consciência fica mais alargado e o retorno ao corpo físico é experienciada como uma compressão ou limitação.
Outros casos semelhantes foram relatados na literatura médica, como o de Sarah Polgan, uma cega de nascença que, tendo passado por uma experiência de morte clínica, afirmou ter enxergado acontecimentos, como os rabiscos que um médico realizou num pequeno quadro negro e até mesmo o corte de cabelo que a enfermeira estava usando, os quais depois verificou-se que eram reais.
Em todas essas experiências, a individualidade, ou seja, a identificação do “eu” consigo mesmo, permanece e chega a ser até mesmo intensificada.
A visão materialista seguirá na direção de explicar tais fenômenos ainda pelo funcionamento do cérebro, alegando que não houve cessação completa da atividade encefálica e que as imagens foram produzidas por meio do funcionamento cerebral. No entanto, diante dessas evidências em que a pessoa enxerga acontecimentos reais mesmo sendo cega de nascença, além de casos relatados de acontecimentos presenciados fora da sala de cirurgia e descritos com detalhes, torna-se extremamente remota a hipótese da suficiência do cérebro como fonte explicativa. Além disso, há que se reconhecer que a ciência até hoje não provou o locus do sistema encefálico em que a consciência seria “produzida”.
Verifica-se a partir desses dados empíricos – que merecem uma atenção científica e acadêmica mais apurada – que a consciência do indivíduo e sua identidade se mantêm contínuas inclusive nas situações em que é reconhecida clinicamente sua morte. Não é possível dizer que essa seja uma prova científica cabal da hipótese metafísica da continuidade do ser humano para além da morte física, mas deve-se reconhecer que é uma excelente pista nesse sentido.
A hipótese que podemos extrair da fusão entre a análise filosófica empreendida e os relatos das experiências de morte clínica é que o “eu” humano não é algo transitório, fugaz e perecível como nos últimos séculos a filosofia ocidental se acostumou a nos fazer pensar, mas trata-se de uma individualidade constituída de modo perene, ou seja, de agora para sempre, e essa perenidade é ontológica. A verdadeira dignidade da vida humana reside nesse fato, ou seja, nossa existência real, aquilo que somos realmente, é algo que transcende a esfera do que podemos conceber por meio de nossa mente.
Cada pessoa sabe que não pode ter dado a si mesma essa existência, cuja perenidade é sua própria forma substancial em razão da participação em seu verdadeiro fundamento, o Logos que transcende a matéria, que lhe é desconhecido por experiência direta.
A consciência simultânea tanto dessa grandeza da qual somos constituídos quanto da ausência de fundamento em nós mesmos é o único substrato que pode embasar o efetivo reconhecimento da dignidade da vida humana.


[1] Vide artigo: GREYSON, Bruce. Near-death experiences: clinical implications: São Paulo, Revista Psiquiátrica Clínica, vol. 34, suppl. 1, 2007.

Brasil: 52% dos jovens sem futuro

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte

Ana Lydia Sawaya

Analistas tem dito que o Brasil pode estar passando por um processo descivilizatório (regredindo em termos de civilização), o que já é bastante grave; e mais recentemente o relatório do Banco Mundial “Competência e Emprego: Uma Agenda para a Juventude” revelou que 52% dos jovens, ou seja, mais da metade dos jovens entre 19 e 25 anos não tem futuro profissional adequado e caminham em direção à pobreza.
Quem são eles? 11 milhões são “nem – nem”, ou seja, não trabalham nem estudam, e os outros estão nas seguintes condições: frequentam a escola, mas estão muito atrasados na formação, ou trabalham na informalidade fazendo bicos. O Relatório afirma ainda que a baixa competitividade das empresas brasileiras gera uma não demanda por profissionais bem qualificados e estáveis, pois muitas empresas não têm similar que as obriga a melhorar a qualidade dos seus produtos, e por isso vendem produtos de má qualidade e não precisam de funcionários muito especializados ou com boa competência. Assim muitas empresas contratam com salários baixos e de forma temporária ou informal. Isto gera um círculo vicioso, com jovens sem formação adequada e sem oferta de empregos que exijam uma boa formação para eles.
Esta situação coloca não só em risco a vida dos jovens, o seu futuro, a possibilidade de ser independente financeiramente, ou de sustentar e cuidar adequadamente de uma família; mas também, o futuro do país que dependerá deles para se sustentar economicamente e crescer.
O Relatório afirma ainda que o principal fator negativo é a baixa qualidade da educação básica. E é aqui que reside a grande oportunidade para a Igreja: incrementar e ajudar a criação de mais pré-escolas e escolas católicas de boa qualidade.
Tradicionalmente, as escolas surgem no Brasil a partir das ordens religiosas como os jesuítas e os beneditinos, e mais recentemente, por inciativa de muitas congregações religiosas que chegaram ao Brasil a partir do século 19. O número destas escolas, porém, vem caindo nas últimas décadas, por falta de alunos pagantes e também por falta de uma experiência religiosa viva e contagiante para os jovens e seus pais. Esta crise das escolas católicas não é só brasileira e acompanha a crise das congregações religiosas, sobretudo femininas de vida ativa, no mundo.
Há, porém, um outro fenômeno que graças ao Espírito Santo tornou-se, como disse o Papa São João Paulo II a “primavera da Igreja” e que pode juntar-se às escolas e pré-escolas católicas que já existem e auxiliar na educação dos jovens brasileiros; assim como na criação de empresas que realmente visem o bem comum e produzam produtos competitivos e de boa qualidade, não tendo o lucro máximo em curto período de tempo, como único fator para o seu trabalho.
Esta nova realidade da Igreja está sendo formada por um número crescente de comunidades de leigos e novas comunidades, ligadas ou não a paróquias e que precisam do auxílio cada vez mais paternal e carinhoso de seus pastores; quer na formação da fé como no consequente incentivo para viverem conforme os costumes cristãos e a orientação da Doutrina Social da Igreja.
Há muitas experiências em outros países que podem servir de exemplo para a criação de pré-escolas e escolas geridas por grupos de leigos católicos. Há, por exemplo, cooperativas de famílias que compartilhando de um mesmo ideal e preocupadas com a boa formação de seus filhos se reúnem e formam escolas-cooperativas de boa qualidade. Ainda, existem países onde a legislação permite uma combinação de duas fontes para a sustentabilidade da escola: mensalidades pagas pelos pais com subsídio do governo, estadual e municipal. Isso é bom para o governo que gasta muito menos do que com a gestão direta da escola e bom para as famílias que podem gerenciar melhor a qualidade da educação dos filhos. A pressão política para a criação de mecanismos legais, nesse último caso, seria extremamente importante, e ao mesmo tempo, viável!
Jornal "O São Paulo", edição 3196, 25 de abril a 2 de maio de 2018.

Os inimigos da santidade


Francisco Catão

Na recente Exortação Apostólica, sobre o chamado à santidade o papa Francisco, depois de discorrer, no primeiro capítulo, sobre a experiência cristã na nossa vida ordinária cidadãos, indica, no segundo, dois inimigos sutis que ameaçam destorcer a qualidade espiritual de nossa vida.
Para designá-los, recorre a velhas heresias dos primeiros séculos do cristianismo, o gnosticismo e o pelagianismo. Os gnósticos concebiam o cristianismo como um ideal reservado a um pequeno grupo de eleitos, que vivia numa ilha de sabedoria, em meio ao mundo pagão, entregue à ignorância e ao pecado. Os pelagianos, por sua vez, pensavam que a salvação cristã era fruto de nossos próprios esforços.
Ao mencionar os traços sutis de gnosticismo e de pelagianismo, no cristianismo de hoje, Francisco aponta para alguns desvios latentes na pastoral da Igreja:  por um lado, pensar que a salvação está em aprofundar verdades abstratas, espiritualidades, métodos ou carismas idealizados, e por outro, confiar principalmente na eficácia evangelizadora dos planos pastorais, nas celebrações litúrgicas, nos meios de comunicação e nos eventos de massa.
Num texto de impressionante lucidez e coragem, depois de lembrar que a Igreja sempre ensinou que não somos justificados pelas nossas ideias, pelas nossas obras, nem pelos nossos esforços (cf. GE, 52), Francisco denuncia que as duas tendências, desde a antiguidade, consideradas heréticas, hoje parecem predominar.
Essas tendências  se manifestam na “auto complacência egocêntrica e elitista, desprovida do verdadeiro amor, presente em muitas atitudes aparentemente diferentes entre si: a obsessão pela lei, o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas, a ostentação da doutrina e do prestígio da Igreja, a vanglória ligada à gestão de assuntos práticos, a atração pelas dinâmicas de autoajuda e, finalmente, a realização auto referencial” (GE, 57).
“Nisto alguns cristãos, inclusive ministros da Igreja, gastam suas energias e seu tempo, em vez de se deixarem guiar pelo Espírito, no caminho do amor, apaixonarem-se por comunicar a beleza e a alegria do Evangelho e procurar os afastados, nas imensas multidões sedentas de Cristo” (ib).
 “Sem nos darmos conta, pelo fato de pensar que tudo depende do esforço humano, canalizado através de normas e estruturas eclesiais, complicamos o Evangelho e nos tornamos escravos de um esquema que deixa poucas aberturas para que a graça atue” (GE, 59).
“Que o Senhor liberte a Igreja das novas formas de gnosticismo e pelagianismo que a complicam e a detêm no seu caminho para a santidade!” (GE, 62).
A Exortação prossegue apontando as fontes do Espírito, as bem-aventuranças, e em especial, a suprema regra da misericórdia (Cap. 3), para terminar descrevendo as cinco marcas do cristão em nossos dias (Cap. 4) e o papel soberano do discernimento na determinação de como devemos agir nas circunstâncias concretas de nossa vida, para respondermos ao chamado à santidade (Cap. 5).
Jornal "O São Paulo", edição 3196, 25 de abril a 2 de maio de 2018.

Gaudete et Exsultate - Capítulo II: dois inimigos sutis da santidade


Tendo em vista a experiência cristã que somos chamados a viver nos dias de hoje, descrita, mais adiante, no 4º capítulo da mesma Exortação, o papa Francisco nos alerta para duas sutis ameaças à sua autenticidade evangélica: o fechamento sobre si mesmo e sobre suas próprias ideias e o empenho em realizar seus próprios projetos segundo planos, estratégias ou organizações por nós elaborados.
Designa essas duas tentações como agnosticismo e pelagianismo, que têm em comum a confiança em nós mesmos. O papa Francisco sublinha que em ambas apegamo-nos a nossos ideais e aos caminhos que escolhemos para realizar nossos projetos sociais e pastorais, esquecendo-nos de que a vida e a ação cristãs não têm outro caminho senão acolher e cultivar, em nossa vida, o Espírito de Jesus, que é graça e dom de Deus.  

Francisco Catão

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Percorrendo o texto:

Desejo chamar a atenção para duas falsificações da santidade que nos poderiam extraviar: o gnosticismo e o pelagianismo. São duas heresias que surgiram nos primeiros séculos do cristianismo, mas que continuam a ser de alarmante atualidade. Nelas aparece um imanentismo antropocêntrico, disfarçado de verdade católica. Em primeiro lugar conta verdadeiramente o eu, nem Jesus Cristo nem os outros interessam. [Nº 35]

O gnosticismo atual
O gnosticismo supõe «uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos» [Nº 36]
Ao longo da história da Igreja, ficou claro que o que mede a perfeição das pessoas é o seu grau de caridade, e não os conhecimentos que possam acumular. Os «gnósticos» concebem uma mente sem encarnação, incapaz de se interessar pelos outros. Preferem «um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo». [Nº 37]
Isto pode acontecer dentro da Igreja, tanto entre os leigos das paróquias como entre aqueles que ensinam filosofia ou teologia nos centros de formação. É típico dos gnósticos crer que, com as suas explicações, podem tornar perfeitamente compreensível toda a fé e todo o Evangelho. [Nº 39]
O gnosticismo é uma das piores ideologias, pois [...] considera que sua própria visão da realidade suplanta tanto o mistério de Deus e da sua graça, como o mistério da vida dos outros [...] Mesmo quando a vida de alguém tiver sido um desastre, mesmo que o vejamos destruído pelos vícios ou dependências, Deus está nele presente. [Nº 40-42]
Mal chegamos a compreender a verdade, e ainda com maior dificuldade, expressá-la. Por isso, não podemos pretender que osso modo de entender nos autorize a exercer um controle rigoroso sobre a vida dos outros. [Nº 43]
Na Igreja, convivem legitimamente diferentes maneiras de interpretar muitos aspetos da doutrina e da vida cristã, que, na sua variedade, ajudam a explicitar melhor o tesouro riquíssimo da Palavra [...] São Francisco de Assis [...] reconheceu a tentação de transformar a experiência cristã num conjunto de especulações mentais, que acabam por nos afastar do frescor do Evangelho. [Nº 43-46]

O pelagianismo atual
O gnosticismo deu lugar a outra heresia antiga, que está presente também hoje [...] O poder que os gnósticos atribuíam à inteligência, alguns começaram a atribuir à vontade humana, ao esforço pessoal. Surgiram, assim, os pelagianos. Já não era a inteligência que ocupava o lugar do mistério e da graça, mas a vontade. [Nº 47-48]
Quem se conforma a esta mentalidade embora fale da graça de Deus com discursos edulcorados, «no fundo, só confia nas suas próprias forças e sente-se superior aos outros por ser irredutivelmente fiel a um determinado estilo de ser católico» [...] Costumam transmitir a ideia de que tudo se pode com a vontade humana [...] a que se acrescenta a graça. [Nº 49]
A falta dum reconhecimento sincero, pesaroso e orante dos nossos limites é que impede a graça de atuar melhor em nós [...] se não reconhecemos a nossa realidade concreta e limitada, não poderemos ver os passos reais e possíveis que o Senhor nos pede em cada momento. A graça atua historicamente e vai nos transformando de forma progressiva. Se recusarmos esta modalidade histórica e progressiva, podemos chegar a negá-la e bloqueá-la, embora a exaltemos com as nossas palavras. [Nº 50]
A Igreja ensinou repetidamente que não somos justificados pelas nossas obras ou pelos nossos esforços, mas pela graça do Senhor que toma a iniciativa [...] Só a partir do dom de Deus, livremente acolhido e humildemente recebido, é que podemos cooperar com os nossos esforços para nos deixarmos transformar cada vez mais [...] Só a caridade torna possível o crescimento na vida da graça, porque, «se não tiver amor, nada sou». [Nº 52-56]
Ainda há cristãos que insistem em seguir outro caminho: o da justificação pelas suas próprias forças [...] com muitas atitudes aparentemente diferentes entre si: a obsessão pela lei, o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas, a ostentação no cuidado com o prestígio da Igreja, a vanglória ligada à gestão de assuntos práticos, a atração pelas dinâmicas de autoajuda e realização autor referencial. [Nº 57]
Sem nos darmos conta, pelo fato de pensar que tudo depende do esforço humano canalizado através de normas e estruturas eclesiais, complicamos o Evangelho e nos tornamos escravos dum esquema que deixa poucas aberturas para que a graça atue. [Nº 59]
Para evita isso, é bom recordar a primazia das virtudes teologais, que têm Deus como objeto e motivo, em cujo centro, está a caridade [...] Em meio à selva de preceitos e prescrições da Lei, Jesus abriu uma brecha, que permite vislumbrar dois rostos: o do Pai e o do irmão. Não nos dá mais dois preceitos, entrega-nos dois rostos, ou melhor, um só: o de Deus que se reflete em cada irmão, especialmente nos mais pequenos, frágeis, inermes e necessitados. [Nº 60-61]
Que o Senhor liberte a Igreja das novas formas de gnosticismo e pelagianismo que a complicam e detêm nosso caminho para a santidade! Exorto cada um a se questionar e a discernir diante de Deus a maneira como possam manifestar o amor em sua vida. [Nº 62]
Jornal "O São Paulo", edição 3195, 18 a 24 de abril de 2018.

Houve uma revolução sexual, mas não foi nos anos 1960

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte

Marcelo Musa Cavallari

Estamos andando para trás. O progresso que se louva na destruição da moral sexual que até algumas décadas atrás servia de fundamento para o Ocidente Cristão não é uma novidade. Estamos de volta ao mundo de Petrônio, o autor romano que descreveu, em seu Satyricon, um mundo de festas ininterruptas em que comer em quantidade comidas altamente sofisticadas, beber até perder o controle e fazer sexo sem peias era a única norma.
A semelhança dessa descrição com a premissa básica de um sem número de reality-shows que pululam hoje na TV não é uma coincidência. O sucesso desses programas se deve, em grande medida, à possibilidade de assistir ao que é tido como o ideal inacessível da vida humana hoje: a diversão infinita que o excesso de recursos criado pelo capitalismo e a possibilidade tecno-científico-industrial de separar atos de suas consequências tornou possível, ainda que não para a grande maioria dos mortais.
A verdadeira revolução sexual, porém, ocorreu muito antes da pílula. A verdadeira revolução sexual foi a integração do sexo no cerne da pessoa humana promovida pelo seguimento de Jesus Cristo. A partir daí, para os cristãos, o sexo deixou de ser apenas uma poderosa pulsão que os humanos têm em comum com boa parte dos animais para ser elemento essencial do destino final de homens e mulheres. O casamento, instrumento necessário para organizar o aparecimento das novas gerações e a participação delas na vida da comunidade, deixou de ser uma instituição humana. O homem e a mulher casados na Igreja não estão comprometidos por um contrato. Tiveram, isso sim, sua natureza alterada diante de Deus e por graça d’Ele. Tornaram-se “uma só carne”, como diz o livro do Gênesis. Isto é: um só destino.
Essa visão virou de cabeça para baixo o mundo dominado pelos hábitos sexuais dos poderosos romanos, os senhores da Terra então, grandemente influenciados pelos gregos e sua homossexualidade masculina obrigatória. E fez isso com a humildade do Crucificado. Jesus nasceu sob duas esferas de poder: uma nacional, os judeus, e outra estatal, o Império Romano. Foi condenado à morte pelas duas. Os cristãos, clandestinos no Império Romano, propagaram o seguimento de Jesus, e a revolução sexual que esse seguimento implicava. Impressionavam pela mansidão, e a sua recusa em fazer parte da desbragada festa em curso no Império Romano era tão chocante e imperdoável quanto sua resistência a sacrificar aos ídolos.
O sexo livre de significado espiritual e moral, mas carregado do jogo de poder que se praticava no Império Romano está de volta. O exercício sem peias do prazer sexual serve para obtenção e exercício do poder sob a forma de sedução, assédio ou resistência a ambos; para ganhar dinheiro; para conceder ou exigir favores; ou para simples diversão, como se nesta vida fugaz houvesse tempo para ser matado.  
Os neo-romanos estão obviamente no poder e os seguidores de Jesus precisam continuar corajosamente fieis ao que lhes foi transmitido. A mansidão que revirou de cabeça para baixo o Império Romano tinha sua mais alta expressão no martírio. Como acentuou o papa Francisco, há mais mártires hoje do que em todas as épocas da história da Igreja. É no exemplo deles que derramam seu sangue em países muçulmanos e comunistas recusando qualquer compromisso, que os cristãos devem resistir à depravada festa que se impõe ao mundo hoje. Foi, afinal, o sangue dos mártires que regou a verdadeira revolução sexual. 
Jornal "O São Paulo", edição 3195, 18 a 24 de abril de 2018.

Contracorrente! A cidadania cristã na Gaudete et Exsultate


Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP

A Carta a Diogneto, uma descrição da vida dos primeiros cristãos, provavelmente do início da Era Cristã, foi escrita em grande parte com base no paradoxo de que os cristãos estavam no mundo, vivendo como todos os homens e mulheres de seu tempo, mas não eram do mundo, pois tinham uma “cidadania no céu”; obedeciam às leis, mas com sua vida as ultrapassavam; mesmo perseguidos e condenados à morte, amavam os que lhes odiavam.
Seu autor se perguntava: como poderia uma proposta tão paradoxal sobreviver e se difundir, tendo cada vez mais segudiores? Ele mesmo respondia: porque aqueles que vivem desse modo encontram a alegria e a felicidade ao descobrirem-se amados por Deus e se tornarem participantes de Seu amor no mundo.
Tantos séculos depois, a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, lançada pelo Papa Francisco, em 19 de março último, retoma essa mesma cidadania, que confunde o mundo, mas enche de alegria a vida daqueles que a abraçam, e que denominamos santidade.
Infelizmente, mesmo entre os católicos o ideal de santidade tem se perdido porque parece depender de um heroísmo inalcançável, da privação de todos os prazeres e alegrias, de uma bondade ingênua que descamba até para a tolice. Francisco escreve sua Exortação desmentindo todos esses pontos.
Sem dúvida sua imagem de santidade é heroica, mas de um heroísmo cotidiano, possível a todos. Aquele heroísmo essencial para podermos chegar ao final do dia ou ao momento da própria morte com a consciência de que a vida vale a pena de ser vivida.
Uma santidade que não nos priva das alegrias da vida, mas, pelo contrário, nos faz viver com maior alegria e satisfação. Num mundo em que todos perseguem, sem alcançar, a alegria e a felicidade, Francisco mostra que a rota para ser alegre e feliz está em sentido oposto à que a mentalidade hegemônica quer que trilhemos. Não se é verdadeiramente alegre e feliz num caminho individualista e egocêntrico, mas sim, pelo contrário, aprendendo cada vez mais a amar o outro.
A bondade do santo não corresponde a uma ingenuidade tola, mas à verdadeira sabedoria, capaz de discernir o sentido das coisas e encontrar o caminho para a realização de cada ser humano e de toda a humanidade.
Na Exortação, o Papa vai “contracorrente”, como diz ao falar das bem-aventuranças. Ser santo implica em se posicionar de um modo radicalmente diferente do esperado em nossa sociedade. Mas esse outro modo de ser traz a real felicidade para a pessoa, constrói a justiça e o bem comum, se opondo ao poder e à dominação.
Numa sociedade que idolatra a riqueza material, o sucesso individual e o poder, Francisco escreve um texto orientado pela misericórdia, pela humildade, pelo compromisso com os pobres e com os que mais sofrem. Assim propõem um estar no mundo que muda tanto as pequenas relações interpessoais cotidianas quanto as opções e as condutas políticas que definem nossa participação cidadã.
Gaudete et Exsultate mostra que a santidade é a grande articulação da espiritualidade centrada na misericórdia e na alegria do encontro com Cristo, mostradas na Evangelii Gaudium e na Misericordiae Vultus, com a opção pelos pobres, a defesa do meio ambiente e a acolhida incondicional a todos que caracterizam os escritos mais sociais de Francisco.
Por tudo isso, vale a pena falar dela também numa coluna dedicada à relação entre fé e cidadania. O mundo dificilmente entenderá integralmente sua proposta, mas é um texto fundamental para quem quer ser cristão nos tempos atuais.
Jornal "O São Paulo", edição 3195, 18 a 24 de abril de 2018.

Gaudete et Exsultate - Capítulo 1: O chamado à santidade


Introdução
No centro da Constituição sobre a natureza da Igreja, a famosa Lumen gentium, o Concílio Vaticano II, há meio século, colocou um importante capítulo sobre “a vocação universal à santidade”: todos os homens e mulheres, criados a imagem e semelhança de Deus, três vezes Santo, somos chamados a participar de sua santidade.
Empenhado em atualizar a Igreja de acordo com o Concílio, o papa Francisco, em sua mais recente Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, aborda o tema do chamado universal a sermos santos, como homens do nosso tempo, fundamento de toda autêntica atualização da Igreja.
Confessamos, como cristãos católicos que Jesus é o salvador de todos os homens e mulheres, qualquer que seja o tempo, a cultura ou a religião em que vivam. No mais profundo de nosso coração há um anseio de paz, de felicidade de amor que dá sentido à nossa vida. A leitura e meditação desse texto pessoal e direto do papa Francisco, mostra-nos o caminho de Jesus, que nos leva todos à plena realização de nós mesmos, atendendo ao chamado Espírito de Jesus, a ser ouvido no mais íntimo de nós mesmos.

Francisco Catão

ALEGRAI-VOS E EXULTAI (Mt 5,12), O Senhor nos quer santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa [Nº 1]
O meu objetivo é humilde: fazer ressoar o chamado à santidade, encarnada no contexto atual, pois o Senhor escolheu cada um de nós «para ser santo e irrepreensível na sua presença, no amor» (cf. Ef 1,4) [Nº 2]
O Espírito Santo derrama a santidade, por toda a parte [...] Os santos, que já chegaram à presença de Deus, mantêm conosco laços de amor e comunhão [...], pois «aprouve a Deus salvar-nos e santificar-nos, não individualmente, mas constituindo-os em povo» [Nº 4-6]
No caminhar do dia a dia, vejo a santidade da Igreja nesta terra, santidade «ao pé da porta», nossa e dos que vivem junto de nós reflexo da presença de Deus, espécie de «classe média da santidade» [Nº 7],
Mesmo fora da Igreja Católica e em áreas muito diferentes, o Espírito suscita «sinais da sua presença» [Nº 9]
«Cada um por seu caminho», diz o Concílio. [Nº 11]
Isto deveria nos entusiasmar e animar cada um de nós a dar o melhor de si mesmo para crescer rumo àquele projeto, único e irrepetível, que Deus nos quis, desde toda a eternidade. [Nº 13]
Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. Deixa que tudo esteja aberto a Deus e, para isso, escolhe Deus sem cessar. Não desanimes, pois tens a força do Espírito Santo. [Nº 15]
Esta santidade, a que o Senhor te chama, irá crescendo com pequenos gestos [...] à medida que vamos encontrando uma forma mais perfeita de viver o que já fazemos [...]  Sob o impulso da graça divina, com muitos gestos aparentemente insignificantes vamos construindo a figura de santidade que Deus quis para nós. [Nº 16-18]
Para um cristão, não é possível imaginar a própria missão na terra, sem a conceber como um caminho de santidade. Cada santo é uma missão, um projeto do Pai que visa refletir e encarnar, num momento determinado da história, um aspeto do Evangelho [...] No fundo, a santidade é viver em união com Cristo os mistérios da sua vida [...] O desígnio do Pai é Cristo, e nós n’Ele. Em última análise, é Cristo que ama em nós, porque a santidade «nada mais é do que a caridade plenamente vivida». Cada santo é uma mensagem que o Espírito Santo extrai da riqueza de Jesus Cristo e dá ao seu povo. [Nº 19-21]
Isto é um vigoroso apelo para todos nós. Tu precisas conceber a totalidade da tua vida como uma missão. Pede ao Espírito Santo que realize em ti o que Jesus espera de ti, em cada momento da tua vida e permite-Lhe plasmar em ti aquele mistério pessoal que possa refletir Jesus Cristo no mundo de hoje [...] Deixa-te transformar pelo Espírito para que isso seja possível, e assim a tua preciosa missão não fracassará. [Nº 23-24]
Dado que não se pode conceber Cristo sem o Reino que Ele veio trazer, tua identificação com Cristo e os seus desígnios requer o compromisso de construíres com Ele, este Reino de amor, justiça e paz para todos. [Nº 25]
Não é saudável amar o silêncio e esquivar o encontro com o outro, desejar o repouso e rejeitar a atividade, buscar a oração e menosprezar o serviço [...] Poderá porventura o Espírito Santo enviar-nos para cumprir uma missão e, ao mesmo tempo, pedir-nos que fujamos dela ou que evitemos doar-nos totalmente para preservarmos a paz interior? Obviamente não. Mas, às vezes, somos tentados a relegar para posição secundária a dedicação pastoral e o compromisso no mundo, como se fossem «distrações» no caminho da santificação e da paz interior. [Nº 26-27]
O desafio é viver de tal forma a própria doação e os esforços por ela exigidos tenham um sentido evangélico e nos identifiquem cada vez mais com Jesus Cristo. Por isso, é usual falar, por exemplo, duma espiritualidade do catequista, do clero diocesano, do trabalho, da missão, duma espiritualidade ecológica e da vida familiar. [Nº 28]
Precisamos dum espírito de santidade que impregne tanto a solidão como o serviço, tanto a intimidade como a tarefa evangelizadora, para que cada instante seja, sob o olhar do Senhor, expressão de amor doado. [Nº 31]
Não tenhas medo da santidade. Não te tirará forças, nem vida nem alegria. Muito pelo contrário, porque chegarás a ser o que o Pai pensou quando te criou e assim serás fiel ao teu próprio ser [...] Não tenhas medo de apontar para mais alto, de te deixares amar e libertar por Deus. Não tenhas medo de te deixares guiar pelo Espírito Santo. [Nº 32-34]
A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro da tua fragilidade com a força da graça. [Nº 34]

Jornal "O São Paulo", edição 3195, 18 a 24 de abril de 2018.