quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A dor do nascituro e os métodos abortivos


Ives Gandra aa Silva Martins é Professor Emérito da Universidade Mackenzie, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército - ECEME, Superior de Guerra - ESG e da Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região; Presidente do Conselho Superior de Direito da FECOMERCIO/SP; Fundador e Presidente Honorário do Centro de Extensão Universitária – CEU.

Certa vez, assisti a um programa de televisão em que a obstetra, Dra. Marli Virgínia Lins e Nóbrega, ao falar do sofrimento do feto ou do bebê já formado, durante o abortamento, lembrou que, em alguns países, já se estuda a possibilidade de anestesiá-los, antes da prática do ato, para que não sofram tanto, quando lhes for tirada a vida.
No referido programa da Tribuna Independente, da Rede Vida, os pais de uma criança anencéfala - que não optaram pela antecipação da morte de seu filho, e sim por deixá-lo nascer e viver algumas horas - depuseram relatando que acompanharam, por ultrassom, o desenvolvimento da criança no ventre materno, e que seus gestos demonstravam, nos primeiros meses de vida, ao passar as mãozinhas pela cabeça, que sentia a perda gradativa ou a má formação de seu cérebro.
Bernard Nathanson, em seu livro “The hand of God”, arrola as técnicas utilizadas para tirar a vida de seres humanos no ventre materno. Como médico, ele próprio dirigiu pessoalmente por volta de 75.000 abortos, nos Estados Unidos. Chegou a provocar o aborto de um filho seu, concebido em relação que mantivera com aluna do 5º ano da Faculdade de Medicina. Começou a repensar o assunto em 1974, quando percebeu que era um homicida de crianças, arrependeu-se e passou a ser, então, um defensor da vida.
No oitavo capítulo de seu livro, refere-se, entre os métodos abortivos, ao sistema de aspiração, introduzido por Bykov, em 1927, e difundido no mundo inteiro, como forma de extermínio em massa de nascituros.
Conta, inclusive, um episódio que acompanhou, por ultrassom, de aplicação do método da aspiração (sugar o feto), por uma equipe médica americana. No momento em que o aspirador foi introduzido no útero materno, o feto procurou desviar-se e seus batimentos cardíacos quase dobraram, quando o aparelho o encontrou. Assim que seus membros foram arrancados, sua boca abriu-se, o que deu origem ao título de um outro estudo seu: “O grito silencioso”.
No método de corte, utilizado nas décadas de sessenta e setenta para interromper a gravidez no início da gestação, um raspador é introduzido para separar o feto e cortá-lo em pedaços, provocando grande hemorragia na mãe. O médico tem que ter o cuidado de verificar se nenhuma parte do nascituro fica no ventre materno, para não provocar uma infecção.
No método da injeção com substância salina, injeta-se o veneno no feto  quase sempre com mais de 18 semanas, e este leva mais de uma hora para morrer, expelindo a mãe um filho morto por envenenamento, em torno de 24 horas depois.
Nos abortos em que a criança já tem cerca de 1 Kg, o método aconselhado é a cesariana, e depois – como ocorre nos abortários americanos—  deixa-se a criança morrer, numa lata de lixo, apesar de ter nascido viva.
Já menos usado é o processo de queimar o nascituro, como se fosse atingido por uma bomba de “napalm”.
Nenhum método elimina a dor do feto ou do bebê, razão pela qual, como relatou a Dra. Marli, nos países que permitem o aborto, já se fala em anestesiar os nascituros antes de dar execução à morte programada. Em muitos deles há um forte movimento para eliminar a lei permissiva.
Falar, portanto, em aborto de forma “neutra”, sem examinar a dor infligida ao nascituro, é querer, como a avestruz, ignorar a realidade, ou seja, que o aborto é uma forma de pena de morte, com a utilização de métodos sangrentos e desumanos. Tais métodos são até mais violentos que os empregados para a execução de seres humanos já nascidos, como, por exemplo, o fuzilamento, em que o condenado morre de imediato, ao passo que o sofrimento do nascituro, até morrer, é muito maior.
No caso dos anencéfalos, em que a autorização para a realização do aborto – segundo decisão do meu caríssimo amigo e brilhante jurista, Ministro Marco Aurélio de Mello - pode ser dada até o último dia da gravidez, está-se perante a seguinte absurda situação: matar a criança no ventre materno, em momento anterior ao parto, é permitido, não sendo tal ato de eliminação da vida considerado crime. Já matar o anencéfalo um minuto depois do nascimento, é proibido e o ato é considerado criminoso...
Nos casos de aborto legal – para mim a lei penal não foi recepcionada pela Constituição de 1988, que garantiu o direito à vida sem exceções -, a interrupção da gravidez, teoricamente, pode ser realizada a qualquer momento, durante os nove meses de gestação, dependendo, exclusivamente, da decisão da mãe. O que vale dizer, a mãe está, inclusive, autorizada a realizar uma cesariana e a jogar o indesejado bebê no lixo, para ali morrer abandonado, tal como ocorre nos abortários americanos.
Um último aspecto é de se realçar. A anencefalia pode ser parcial ou total, de tal maneira que, mesmo com os mais modernos equipamentos não é possível garantir 100% de precisão diagnóstica o que, de resto, acontece em todos os exames que dependem da habilidade do profissional que os realiza e elabora o laudo médico. Segundo o depoimento de uma aluna minha, em seu caso, foi diagnosticada a anencefalia, e esse diagnóstico, felizmente, estava errado.
Trago o assunto, novamente, à discussão, para que a sociedade reflita se, entre as grandes conquistas da civilização moderna, está a permissão para transformar o ser humano em lixo hospitalar.

Irmãos: vamos operar na prática contra a violência!

Eduardo Dias de Souza e Wagner Balera.

No texto que baseia a Campanha da Fraternidade de 2018, está dito: “Quem luta pela justiça e pela paz acaba por incomodar quem tira proveito da injustiça através da violência”. Podemos começar a nos perguntar como as famílias, os grupos intermediários e as associações, sempre tendo como suporte o princípio da subsidiariedade, podem cooperar com a formulação das políticas públicas de superação da violência injusta que se acha tão em voga na hora que passa.
Em primeiro lugar incumbe à comunidade estabelecer que a segurança pública é e deve se projetada para estar a serviço da comunidade humana, isto é, da cidadania.
Portanto, a segurança existe para garantir o ir e vir das pessoas sem constrangimentos e ameaças, e que esse ir e vir construa a convivência indispensável a um Estado que se quer de Direito.
Essa segurança há de compreender não só medidas de prevenção que, naturalmente, exigem justiça social e igualdade de oportunidades na conquista e manutenção dos bens deste mundo como, sobretudo, o controle das atividades de pessoas e grupos que atuam e se posicionam deliberadamente de modo violento.
Pode ser que o caminho da superação da violência, com inclusão social, deva partir do registro preliminar dos lugares de vulnerabilidade nos quais (será coincidência?) está alocada a camada mais desamparada da população. São os pobres as principais vitimas da violência e sobre eles, igualmente, recai com todo o potencial a violência do aparelho do Estado.
A desigualdade no Brasil historicamente marcado pela longa escravidão e uma sociedade partida, como se um lado não se preocupasse cotidianamente com a sorte do outro lado. Esse germe da indiferença permite que passivamente grupos tolerem roubar, apenas pessoas de outros grupos. Assim como ano a ano as cenas medievais nos cárceres se repitam sem que nada de concreto seja alterado. Temos a terceira maior população carcerária do mundo (aproximadamente 726 mil).
É necessário, e mesmo imprescindível, que a comunidade seja chamada a discutir, conjuntamente com o Estado e segundo as dimensões da subsidiariedade, sobre as políticas de segurança pública. Aliás, o Plano Nacional de Direitos Humanos recomenda, expressamente, a criação dos conselhos comunitários de segurança pública.
Essa primeira perspectiva se situa na etapa do ver, segundo o clássico esquema de São João XXIII. Vamos ver o que é violento e como se pode conter ou mesmo eliminar a violência mediante adequadas medidas de prevenção.
A segunda perspectiva é a do combate à violência, e nessa medida já se sabe que as estruturas clássicas do Direito falharam. A simples ameaça de cadeia, tão reclamada por certa mídia, não tira ninguém dos caminhos da criminalidade. E as cadeias se transformaram em locais de brutais violações de direitos humanos sobre serem, como igualmente se sabe, verdadeiras escolas avançadas de criminalidade.
As Pastorais Sociais que têm como objetivo a presença de serviço na sociedade são importantes nesse processo de revelar e alterar esses muros sociais. E no Estado de São Paulo já existem os Conselhos de Segurança (CONSEGs), um para cada distrito policial e respectiva Companhia da Polícia Militar, além da ouvidoria das polícias cujo titular é escolhido pelo Conselho Estadual de Diretos Humanos (CONDEPE). Assim, importante é ocupar esses espaços! Enfim, em qual CONSEG atuará minha comunidade. Interessa saber dias de reuniões e temas debatidos. O que as pastorais sociais desejam das polícias públicas, em especial de segurança, é de ser debatido nesses espaços..
É necessário, pois, que sem a apressada reformulação do aparelho repressor (cadeia) o mesmo seja transformado por dentro, garantindo-se que esses espaços permitam a criação e o fomento de uma cultura de paz e de não violência porque, como também afirma o Texto-base: “ a violência nunca constitui uma resposta justa”. E a única resposta que a sociedade atual apresenta contra a violência é o encarceramento, sem correspondente política penal e penitenciária que carregue consigo as missões elementares e transformadoras que o Estado e a sociedade, informados por uma cultura de paz e de justiça deve lançar em todas as direções. Agir, no caso, é agir para incrementar o bem, não apenas a punição. Reabilitar aqueles que caíram, mas que podem voltar ao convívio social se lhes for dada a oportunidade.
Em suma: ver quem são os mais atingidos pela violência; julgar os violentos com justiça e caridade, agir com a resposta justa, capaz de buscar e obter a conversão do violento em agente da paz.
Jornal "O São Paulo", edição 3186, 14 a 20 de fevereiro de 2018.

Memento moris

Arte: Sergio Ricciuto Conte

Magna Celi Mendes da Rocha é Doutora e Mestre em Educação: Psicologia da Educação pela PUC-SP; Assessora da Pastoral Universitária (PUC-SP), Coordenadora Pedagógica do Curso de Extensão em Ensino Religioso (PUC-SP) e Consagrada da Comunidade Católica Shalom.

A felicidade e a liberdade interior com as quais desejamos viver podem estar muito mais relacionadas com a forma como lidamos com a morte do que imaginamos. Perder um ente querido, vivenciar uma enfermidade grave ou acompanhar alguém em seus momentos finais, colocam-nos em contato com uma realidade com a qual comumente vivemos alheios, quase sempre intencionalmente: a finitude humana.
A sabedoria monástica ensina que a grande sacada para viver bem a vida é manter a morte diante dos olhos. Anselm Grün (1998), em seu mais conhecido livro, “O céu começa em você”, diz que São Bento, em sua regra, aconselha os monges a manterem a morte diariamente diante dos olhos pois, para ele, o pensar na morte liberta-os de todo medo “porque paramos de depender do mundo, de nossa saúde, de nossa vida. O pensar na morte também nos possibilita viver e experimentar, conscientemente, cada momento como dádiva e saboreá-la dia a dia” (p. 109). Por ter sempre a morte diante dos olhos, o monge torna-se livre das preocupações mundanas, do julgamento e das expectativas dos homens. A grande expectativa para a qual deve voltar-se é para a vinda do Senhor, ou sua parusia: “A serenidade jovial, a liberdade, a confiança e a sinceridade para o momento presente forjam o monge que anseia pelo Senhor” (p.110).
Grün prossegue dizendo que em muitas sentenças monásticas recomenda-se que é necessário primeiro morrer para o mundo, a fim de estar à altura das tarefas que o mundo apresenta, pois quando nos identificamos muito com uma tarefa ou fazemos que nossa autoestima dependa de ser ou não capaz de realizá-la, não podermos realizá-la livremente, pois a fixação em uma tarefa, bloqueia nossa capacidade de execução. “Morrer significa abandonar a identificação com a tarefa. Somente então, eu me torno livre para realizá-la bem. Pois já não depende tudo do fato de como eu a executo”. (p.111)
A identificação e a lembrança da própria morte querem lembrar também que o ser humano torna-se tanto mais livre quanto mais deixar de depender da aprovação dos outros, uma vez que se constantemente depender do elogio dos outros continuará sempre insatisfeito, pois nesse aspecto, o ser humano é insaciável. “O que devemos experimentar é que em nós há uma dignidade divina, cuja existência independe de as pessoas nos elogiarem ou nos repreenderem. Somente a experiência dessa dignidade divina em nós nos torna livres diante do elogio e da repreensão” (p. 113).
Daí, concluímos que não é suficiente apenas se lembrar da própria morte, mas estabelecer uma relação filial e confiante com o Autor da Vida. Nessa vivência íntima e concreta, abrem-se as portas para tocar o infinito e acolher a verdadeira dignidade humana, que consiste em ser filho de Deus.
 A simples constatação da própria finitude facilmente pode lançar-nos numa experiência de desespero ou fuga, pois morrer, quer no sentido literal ou existencial, significa desprender-se, e só aceitamos desprender-nos de algo por um sentido maior. Em uma relação com o Ser Infinito, esse movimento de desprendimento vai se aprimorando cada vez mais, em um processo de amadurecimento humano e espiritual. Tal desprendimento vai pouco a pouco tornando-se uma vivência consciente e intencional: de pessoas, de coisas, das visões de mundo e até mesmo da própria vida, pois: “Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á; mas quem odeia a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna” (Jo, 12, 24-25).
Na aparente dureza dessas palavras reside o segredo da felicidade e da verdadeira liberdade: perder para ganhar. Estar livre dos medos, das posses, das expectativas humanas. Esse, no fundo, é um desejo autenticamente humano. Ajuda-nos a superar a própria estreiteza e a lançar o olhar para o infinito, pois como afirmava São Paulo: “se é só para esta vida que temos colocado a nossa esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de lástima” (1 Cor 15,19).
Dessa forma, iniciar o novo ano mantendo a morte diante dos olhos pode ser um bom caminho para quem deseja vivê-lo autenticamente.
Jornal "O São Paulo", edição 3186, 14 a 20 de fevereiro de 2018.

A ação do leigo – por um leigo

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Luís Henrique Piovezan estudante de Teologia pelo Claretiano e engenheiro civil, ministro extraordinário da Sagrada Comunhão na Paróquia de Santa Joana d'Arc.

Desde o Concílio Vaticano II, o leigo cresce em destaque na Igreja. Como diz o Decreto Apostolicam Actuositatem, de Paulo VI (1965): “os nossos tempos, porém, não exigem um menor zelo dos leigos; mais ainda, as condições atuais exigem deles absolutamente um apostolado cada vez mais intenso e mais universal” (AA,1).
Por outro lado, ainda há alguma confusão no termo leigo, que os torna passivos. Até meados do século XVIII, o povo era constituído de pessoas sem conhecimento formal. Poucos sabiam ler. Por isso, com o tempo, associou-se o termo leigo às pessoas sem conhecimento. Tanto foi associado, que este significado do termo saiu da esfera eclesial e se expandiu para todas as áreas profissionais. Quem não entende ou não tem educação formal em um assunto é, atualmente, chamado de leigo.
Em grego, o sentido original da palavra leigo é a pessoa do povo. Assim, o leigo não é aquele que não sabe ou deve ser tutorado, mas aquele que é parte do povo, que dele vive e participa. O Ano do Laicato é o ano da ampliação da participação do povo na Igreja. É o ano de se pensar em uma participação maior do leigo não só na Igreja como no mundo.
Esta participação, porém, não pode ser apenas uma imitação dos clérigos. Tendência natural é achar que a participação do leigo seja apenas a atuação dentro de uma paróquia ou a consagração da vida a Deus, abandonando a vida material e mundana. Pelo contrário, Paulo já alertava para um espiritualismo excessivo (cf. 2Ts 3,10). A vida espiritual deve ser paralela a uma vida material. Não uma vida de materialismo, mas uma vida material que se paute pela mensagem, pela espiritualidade e pelo exemplo.
Jesus não envia apenas Doze Apóstolos para pregar, mas dá a missão a setenta e dois discípulos (cf. Lc 10,1-20). São “outros discípulos”. São seis pessoas para cada tribo, para cada Apóstolo. Com cada Apóstolo, formam uma equipe de sete pessoas, o número da perfeição. É sinal que a pregação e a ação para o bem não são responsabilidade apenas dos Apóstolos, mas de todos os que creem.
Assim, o leigo deve ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-16). O leigo é para o mundo, principalmente como exemplo (1Pe 2,12). Ele é luz! Desta forma, o leigo não deve se preocupar em buscar um cargo na paróquia, na pastoral ou seguir um grupo de consagrados. Deixa de ser leigo para começar a ser clérigo, imitando sua vida. Ele pode até agir numa pastoral, mas seu papel se traduz na vida cotidiana, em seu trabalho, em sua cidade e em sua família. Enfim, luz para o mundo.
Nesta visão mais ampla do leigo, ele não pode se isolar dentro de uma paróquia ou de um grupo religioso. Não deve deixar o mundo para focar-se apenas na contemplação de Deus. Como o bom samaritano (cf. Lc 10,25-37), deve procurar ajudar os que estão feridos na estrada. Deve deixar as preocupações com pureza sacramental para socorrer o necessitado que surge em seu caminho.
É claro que as paróquias precisam de pessoas que ajudem e a Igreja também necessita de pessoas consagradas. Mas também precisa de leigos com conhecimento para que possam realizar sua missão no mundo (DAp 210). Isto cria um desafio para o clero e para os leigos: a formação dos leigos (DAp 211). Esta formação não pode ser apenas a apresentação da doutrina, numa mão única do clero para o leigo, como se o clero devesse ser o detentor do conhecimento doutrinal. A formação do leigo começa pelo diálogo.
Jornal "O São Paulo", edição 3185, 7 a 13 de fevereiro de 2018.

Modelos econômicos e a concepção negativa do ser humano


Rafael Mahfoud Marcoccia é professor do Centro Universitário FEI.

No passado, mas também no presente, muitos países atribuíram um papel importante ao Estado, tanto no campo social como no econômico, seguindo um paradigma de conflito, no qual as atividades particulares são opostas aos interesses públicos, marginalizando as iniciativas da sociedade civil com base na desconfiança e suspeita.
Esses sentimentos são, por sua vez, consequência de uma concepção negativa do ser humano. Afinal, um papel importante demais atribuído ao Estado tende a amortecer a capacidade humana e a frear as contribuições positivas que indivíduos isolados podem dar para o progresso, para a justiça e para o bem comum. De acordo com Thomas Hobbes, essa concepção negativa torna necessário delinear um contrato social a fim de contra-atacar os relacionamentos belicistas entre um homem e outro no “estado da natureza”; essa antropologia negativa é também a base de certas ideias do Estado de bem-estar social. Porém, a globalização erodiu gradativamente a viabilidade de alcançar uma sociedade por meio do Leviatã. O nível de complexidade social é alto demais, e não pode ser reduzido eficazmente pela coerção de seus membros em qualquer situação que seja.
As tentativas obstinadas de seguir um modelo ultrapassado de bem-estar social colocam em risco conquistas mais significativas e mais preciosas, principalmente aquelas que se referem justamente ao conceito de bem-estar: a universalidade, o respeito pelo indivíduo e a igualdade de tratamento em termos de padrões mínimos garantidos, qualidade e quantidade de serviço. Em um sistema que não recompensa o livre arbítrio e a responsabilidade dos usuários, as pessoas com baixa renda e nível educacional inferior são menos capazes de aproveitar os serviços de maneira adequada, enquanto as pessoas com alta renda e um nível educacional superior encontram menos dificuldades para descobrir maneiras de superar o rigor e a uniformidade do sistema.
Ainda que aparentemente contrário à lógica hobbesiana, o liberalismo neoclássico vê as funções da sociedade civil à luz da mesma antropologia negativa. Essa perspectiva se baseia no pressuposto de um indivíduo puramente egoísta que responde exclusivamente às motivações econômicas, seja ao desempenhar uma tarefa designada por um superior ou ao conduzir um projeto particular. Essa abordagem não considera a possibilidade de uma aspiração ou de um critério baseado em ideais nem a oportunidade de se estabelecer associações capazes de contribuir de maneira positiva para o bem comum, além dos interesses particulares de um grupo específico de pessoas.
O bem-estar social e o liberalismo neoclássico diferem em relação ao mecanismo mais indicado para corrigir o mal causado pelo comportamento humano. O Estado de bem-estar associa esse mecanismo à ação do poder central. O liberalismo, por sua vez, o identifica no mercado, onde os esforços individuais com interesses particulares são coordenados pela “mão invisível” em direção a um resultado eficiente, mas não necessariamente igualitário - uma das dimensões típicas dessa visão de mundo é o conceito darwiniano de sociedade, caracterizado pela sobrevivência do mais apto.
Tanto a concepção estadista como a liberal sobre o Estado e o mercado só podem ser desafiadas eficazmente começando-se a entender os seres humanos. A Doutrina Social da Igreja nos indica um caminho, ao qual dediquei o artigo “Antropologia positiva: berço da sociabilidade
 Jornal "O São Paulo", edição 3185, 7 a 13 de fevereiro de 2018.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Tempo favorável

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Klaus Brüschke é membro do Movimento dos Focolares, ex-publisher da Editora Cidade Nova e articulista da revista Cidade Nova.

O Ano do Laicato, proclamado pela CNBB, pode vir a ser para os cristãos leigos um tempo favorável nos tempos que vivemos.
Chamados a ser sal da terra e luz justamente nesse mundo mergulhado na “noite” da mudança de época, aquele da pós-modernidade, da pós-humanidade, do pós-capitalismo, do pós-cristianismo, da pós-verdade…, eles podem oferecer a concepção do ser humano como pessoa em relação – consigo mesma, com seu semelhante, com Deus, com a natureza e com as coisas -, em muito diferente do hiperindivíduo, do homo œconomicus ou do homo consumans. Podem igualmente oferecer uma concepção das relações humanas como dádiva, possibilitando a superação das relações como dominação e exclusão.
Tais concepções, enraizadas no Evangelho e desdobradas no riquíssimo patrimônio do Magistério da Igreja, requerem uma mediação, uma atualização e uma aplicação no pensamento e na prática política, econômica, social, educacional, artística, cultural, comunicacional… Enfim, nos inúmeros “areópagos modernos”, como apontam nossos Pastores no documento nº 105 sobre o laicato, de imprescindível leitura.
Essa operação não está dada de uma vez por todas. Requer, antes de tudo, mística e sabedoria, e depois, estudo, elaboração, crítica, ação. Uma das maneiras de isso ser dar é mediante o diálogo. Numa “direção” “interna” e noutra “externa” (verso e reverso de uma mesma atitude).
“Internamente”, entre os cristãos – em sua diversidade de carismas, espiritualidades, sensibilidades, linhas de pensamento - no exercício do discernimento dos “sinais dos tempos” e de como aplicar os princípios cristãos na realidade atual, caracterizada pela complexidade. Tal atitude dialógica possui um enorme potencial de testemunho daquele amor mútuo que caracteriza os discípulos de Jesus (cf. Jo 13,35) e de ser “espaço” para Deus realizar aquela unidade “a fim que o mundo creia” (cf. Jo 17,21).
“Externamente”, com a sociedade contemporânea, em sua profusão de referenciais teóricos e narrativas. Expressão da Igreja em saída, tal diálogo requer a consciência de não sermos os possuidores da verdade (pois é a Verdade que nos possui) e, assim, colocarmo-nos com os outros na descoberta dela, verdade que não é relativa, mas relacional, ou seja, compreendida na relação, inclusive com quem não partilha de nossos princípios.
O diálogo postula algumas posturas norteadas pelo amor. Antes de tudo, o reconhecimento da dignidade e do valor do outro, dando um voto de confiança em sua boa-fé, ainda que seu pensamento e suas atitudes nos deixem perplexos, com a certeza de que todos têm algo a doar, possuem, de alguma forma, “sementes do Verbo” a serem comunicadas.
Uma segunda atitude é escutar o outro sem filtros de esquemas pré-concebidos (muito menos demonizando-o a priori), buscando compreender seu ponto de vista com abertura, profundidade e sinceridade.
Uma terceira atitude é, então, apresentar a própria razão, de maneira embasada e competente, mas com humildade, como quem oferece um presente, sem querer persuadir. Trata-se do “respeitoso anúncio” (João Paulo II).
Uma quarta atitude é ter um pensamento incompleto (Francisco), que se traduz no encanto de aprender do outro e com o outro algo de novo, de se deixar surpreender com as novas verdades compreendidas.
Se a noite de nosso tempo nos faz temer e talvez nos fechar nas barricadas de nossas certezas, quem sabe a saída para o diálogo não contribua para antecipar a madrugada daquele tempo novo anunciado por Jesus…
Jornal "O São Paulo", edição 3184, 31 de janeiro a 6 de fevereiro de 2018.

O anúncio do Evangelho e o Sínodo Arquidiocesano

Francisco Catão

A Exortação Apostólica Alegria do Evangelho (24.11.2013), que promulga o Sínodo sobre a Nova Evangelização (2012), tem grande importância porque traça as linhas diretoras do pontificado do papa Francisco, que então se iniciava, numa perspectiva de reforma da Igreja esboçada pelo Vaticano II e que se tem efetivado na Igreja, nesses últimos cinco anos.
Primeiro grande documento do papa Francisco, a Alegria do Evangelho comporta cinco capítulos que certamente serão levados em consideração pelo Sínodo Arquidiocesano, em processo em São Paulo.
Começa estabelecendo o objetivo: a transformação missionária da Igreja, no caso do Sínodo, a igreja em São Paulo. Examina seguida a crise que atravessamos nos dias de hoje, do ponto de vista da fé e aponta o caminho de superação, que é o anúncio do Evangelho, fundado na fé e se estendendo a toda sociedade, mesmo secularizada. Conclui finalmente, que a transformação missionária da Igreja no mundo, como em São Paulo, é obra do Espírito e requer evangelizadores com Espírito.
Para perceber todo alcance do ensinamento oficial, o caminho mais fácil é assimilar em profundidade os fundamentos do capítulo sobre o anúncio do Evangelho:
Todo o povo de Deus anuncia o Evangelho. A salvação, que Deus nos oferece é obra da sua misericórdia. Esta salvação é para todos, pois Jesus não diz aos Apóstolos para formarem um grupo de elite, mas: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos» (Mt 28, 19)
Ao longo destes dois milénios de cristianismo, uma quantidade inumerável de povos recebeu a graça da fé, e fê-la florir na sua vida diária, transmitindo-a segundo as próprias modalidades culturais. Bem entendida, a diversidade cultural não ameaça a unidade da Igreja: o Espírito Santo, enviado pelo Pai e o Filho, transforma os nossos corações e nos torna capazes de entrar na comunhão perfeita da Santíssima Trindade, onde tudo encontra a sua unidade.
Todos somos discípulos missionários. Cada cristão é missionário na medida em que se encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus. Seu coração sabe que a vida não é a mesma coisa sem Ele, pois crer, que descobriu como cristão, é o que o ajuda a viver e lhe dá esperança, e é isso que deve comunicar aos outros (Alegria do Evang., 111-121)
Na base, pois, de uma Igreja “em saída”, missionária, voltada, como Jesus para a salvação de todo o povo, está a experiência pessoal de Deus de todo cristão, no conjunto da Igreja.
A ação evangelizadora é fruto da experiência de Deus no Espírito de Jesus, alma do exercício de todos os dons hierárquicos e carismáticos, conferidos pelo Espírito à Igreja, que, por sua vez, inculturada, é princípio instrumental de graça, com absoluto primado sobre todas as capacidades humanas ou funções exercidas por ministros, ordenados ou não, no seio da comunidade cristã.
Essa visão atualizada do Mistério representa sem dúvida, uma profunda “mudança de forma da Igreja”, uma “reforma”, como se observa nas várias medidas que vêm sendo adotadas pelo papa Francisco.
Os caminhos para a realização dessa “reforma” no conjunto das instituições eclesiais de S. Paulo, estão sendo estudados pelo Sínodo Arquidiocesano.
Chama-nos atenção sua novidade, apontada pelo Espírito no documento pontifício de 2014, que o Sínodo certamente levará em consideração, para que nos tornemos uma Igreja “em saída”, missionária, voltada, como Jesus para a salvação de todo o povo.
Jornal "O São Paulo", edição 3184, 31 de janeiro a 6 de fevereiro de 2018.