segunda-feira, 13 de março de 2017

Doutrina Social da Igreja e teoria econômica: já na Idade Média

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Antonio Carlos Alves dos Santos é professor titular de Economia na Faculdade da PUC-SP e conselheiro do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Os estudos sobre o período medieval avançaram bastante no século passado e aos poucos emerge um cenário intelectual bem diferente daquele cantado em verso e prosa desde o Renascimento, de Idade das Trevas e de obscurantismo. Esta visão equivocada, infelizmente ainda é forte no imaginário popular (até mesmo entre as chamadas pessoas informadas) e por isso sempre se causa surpresa quando se fala das contribuições, no século XIII, dos frades franciscanos aos rudimentos da teoria econômica.
O ponto de partida era, naturalmente, a questão da usura, que ganhou grande importância com a retomada da atividade comercial e com o crescimento da vida urbana, principalmente na região da Toscana, na Itália. Não se tratava de mera questão teórica, mas de demanda colocada pelo homem de negócios que procurava compatibilizar as suas atividades econômicas com a teologia moral católica: juros, câmbio, preço justo, crédito, lucro eram os tópicos mais importantes.
A grande figura do período foi o frade franciscano Pedro João Olivi (1248-1298), que respondeu às demandas dos homens de negócios da época a partir da centralidade do conceito de bem-comum, o bem que expressa as relações entre as pessoas; e da ênfase no objetivo do agir do agente econômico como critério a ser usado para avaliar a moralidade do ato por ele praticado.
Ancorado nestes conceitos, ele apresenta uma leitura genial do conceito de capital, separando o ente dinheiro (cuja função é simplesmente o seu acúmulo a partir da obtenção de renda e que, portanto, era capital usurário) do capital semente (que tem em si a semente do lucro, e que seria o capital produtivo moderno). O capital semente é moralmente justificado por propiciar uma oferta maior de bens à comunidade, o que aumenta o seu bem-estar. O elemento central é, como já mencionado, o objetivo do agir do agente: o lucro, assim como o crédito, não é um fim em si mesmo, mas um meio, para se alcançar o bem comum.
Outra contribuição importante do Olivi foi a sua explicação de como se determina valor de um bem: a complacitas, é o componente subjetivo, do lado da demanda, enquanto os componentes objetivos, lado da oferta, são a raritas, escassez, e a difficultas, o custo de produção. Em outras palavras, a velha e conhecida oferta e demanda que ganhará seu formato atual com a revolução marginalista/neoclássica de 1870. Não deixa de ser irônico, já que esta linha de pensamento econômico é fortemente criticada por ser, segundo seus críticos, a chamada economia burguesa.
Esta linha de pensamento terá prosseguimento com os trabalhos do franciscano São Bernardino de Siena (1380-1444) e do dominicano Santo Antonino de Florença (1389-1459) e atingirá seu apogeu com a chamada Escola de Salamanca, que apresenta importantes contribuições no campo da teoria monetária e será objeto de um outro artigo.
Os trabalhos desses autores sugerem que a tese, de raiz weberiana, que o catolicismo seria inimigo da economia de mercado é exagerada, sendo mais adequado argumentar que a visão católica é mais rica e variada do que se imagina e comporta uma visão de mercado que se aproxima do modelo moderno de economia social de mercado com alguns elementos da socialdemocracia, como podemos inferir do pensamento do Papa Emérito Bento XVI e do Papa Francisco.
Jornal "O São Paulo", edição 3141, 8 a 14 de março de 2017

sexta-feira, 10 de março de 2017

Campanha da Fraternidade 2017 - Solidariedade, responsabilidade e problemas socioambientais

A Doutrina Social da Igreja na defesa dos biomas brasileiros

III



Veja no final do texto as leituras sugeridas para aprofundamento

Para uma justa compreensão da mensagem da Igreja com relação aos problemas socioambientais, vale a pena nos determos um pouco na encíclica de Bento XVI, Caritas in veritate (CV).
“A caridade na verdade [...] é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira” (CV 1). E adiante: “A solidariedade consiste primariamente em que todos se sintam responsáveis por todos” (CV 38).
A “caridade na verdade” (isso é, o amor compreendido em toda a sua plenitude e não reduzido a um sentimento romântico) gera solidariedade, que implica na corresponsabilidade entre nós e com a criação (CV 43-52). Bento XVI ainda denuncia a falta de solidariedade e de responsabilidade como causas das crises econômicas e da dificuldade em superá-las:
“O grande desafio que temos diante de nós [...] é mostrar [...] que os princípios tradicionais da ética social, como a transparência, a honestidade e a responsabilidade, não podem ser transcurados ou atenuados, mas também que [...] o princípio de gratuidade e a lógica do dom como expressão da fraternidade podem e devem encontrar lugar dentro da atividade econômica normal. Isto é uma exigência [...] da própria razão econômica” (CV 36).
“Quando se procurarem soluções para a crise econômica atual, a ajuda ao desenvolvimento dos países pobres deve ser considerada como verdadeiro instrumento de criação de riqueza para todos” (CV 60).
Diante das ameaças que pesam sobre os biomas brasileiros e suas populações, particularmente dos mais pobres, a mensagem de Bento XVI é clara: não haverá um verdadeiro desenvolvimento econômico e social se os princípios da solidariedade e da responsabilidade não forem respeitados.
Não é apenas um juízo moral. Os especialistas consideram que nossos ecossistemas tropicais são “frágeis”, facilmente degradados pela atividade humana, perdendo a fertilidade e a riqueza que motivaram sua exploração econômica, empobrecendo ainda mais suas populações tradicionais.
O agronegócio, por exemplo, é responsável por parte da prosperidade e do desenvolvimento econômico do interior do Brasil. Esse papel deve ser reconhecido, mas – para o bem da população e da própria economia – tanto o agronegócio como as demais atividades agrícolas deve estar a serviço de um desenvolvimento responsável e solidário.


Leituras sugeridas do Magistério:
·         BENTO XVI. Carta Encíclica Caritas in veritate sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade. Roma, 29 de junho de 2009. Disponível aqui.
o  No. 34-42. Apresenta as bases conceituais da encíclica: sem a fraternidade, não é possível um verdadeiro desenvolvimento dos povos.
o  43-52. O capítulo sobre meio ambiente da encíclica já traz, de forma sucinta, os grandes temas da Laudato si’.
·         FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato si’ sobre o cuidado da casa comum, Roma, 24 de maio de 2015. Disponível aqui.
o  No. 101-136. Mostra como o uso irresponsável do poder econômico e tecnocientífico está na origem dos problemas socioambientais.
o  Nº 138-142. Relaciona ecologia e econômica, numa perspectiva integral.
o  Nº 156-162. Trabalha os conceitos de bem-comum e justiça intergeneracional.
·         PONTIFÍCIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ. Compêndio de Doutrina Social da Igreja. Roma, 2 de abril de 2004. Disponível aqui.
o  No. 171-184. Fala da destinação universal dos bens e da responsabilidade social que pesa sobre a propriedade privada. Particularmente importante num momento que se discute as responsabilidades ambientais do agronegócio e das indústrias.

Outras leituras sugeridas:
·         RIBEIRO NETO, F.B. Defesa da vida, meio ambiente e economia na perspectiva do pensamento de Bento XVI. [in] SANTOS, A.C.A. Economia e vida na perspectiva da Encíclica Caritas in Veritate. São Paulo: Companhia Ilimitada, 2010. Disponível aqui. O livro faz uma abordagem compreensiva da encíclica de Bento XVI, incluindo a questão econômica.
A relação entre manejo dos ecossistemas e perdas econômicas é comentada em vários sites na Internet, com graus de aprofundamento adequados para diferentes públicos, quando comentam temas como desmatamento, erosão e aridização, sobrepesca, etc. O texto-base da CF 2017 também oferece exemplos nesse sentido. A seguir apresentamos alguns textos, na maioria técnicos, mas de compreensão relativamente fácil, que desenvolvem essa questão:
·     ALTIERI, M.A. Agroecologia: princípios e estratégias para a agricultura sustentável na América Latina do século XXI. [in] MOURA, E.G. & AGUIAR, A. C. F. O desenvolvimento rural como forma de aplicação dos direitos no campo: Princípios e tecnologias. São Luís: UEMA, 2006. pág. 83 – 99. Tradução adaptada disponível aqui. Apresenta os desafios da agricultura nos trópicos e as vantagens da agroecologia para a população e a própria economia regional.
·       ECODEBATE. Pantanal vale US$ 112 bilhões. Valor anual da mata em pé é 270 vezes maior do que o lucro da pecuária que a derruba. Disponível aqui. Ilustra como os ecossistemas naturais, pedem conservados e manejados, podem trazer lucros ambientais muito maiores que a atividade econômica predatória.
·         LOPES, P.R. e colabs. Uma análise as consequências da cafeicultura convencional e as opções de modelos sustentáveis de produção – agricultura orgânica e agroflorestal.  REDD – Revista Espaço de Diálogo e Desconexão, 8 (2). Jan./jun. 2014. Disponível aqui. Mostra o impacto da cafeicultura sobre o Bioma da Mata Atlântica e suas consequências.
·         LOUREIRO, V.R. Amazônia: uma história de perdas e danos, um futuro a (re)construir. Estudos avançados, São Paulo, 16 (45): 107-121. Agosto 2002. Disponível aqui.  Apesar de já ter mais de 10 anos de publicação, o artigo ainda é válido para explicar os erros da ocupação da Amazônia.
·         RORIZ, P.A.C. & FEARNSIDE, P.M. A construção do Código Florestal Brasileiro e as diferentes perspectivas para a proteção das florestas. Novos Cadernos NAEA 18 (2): p. 51-68. Jun-set. 2015. Disponível aqui. Discute o Código Florestal brasileiro de 2012, que foi no sentido contrário ao manejo ecologicamente adequado da agricultura brasileira, considerando fundamentalmente interesses econômicos imediatistas.
Francisco Borba Ribeiro Neto
Jornal “O São Paulo”, edição 3141, 8 a 14 de março de 2017

segunda-feira, 6 de março de 2017

Família Cristã: aquela que o Estado precisa

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte

Claudio José Langroiva é professor do Curso de Direito da PUC-SP, conselheiro do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, membro da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo e membro do Movimento Equipes de Nossa Senhora.

No Direito, a família converteu-se na maior preocupação do Estado pós-moderno, mesmo considerando características e conceitos desvirtuados nas atuais relações familiares, sob influência do individualismo que cunha a sociedade ocidental atual.
Durante o século XX, houve uma busca da valorização dos direitos e garantias individuais, entre eles os das mulheres, com a valorização individual dos entes familiares, sustentados agora na base constitucional da igualdade e isonomia. A participação isonômica de cada integrante da família, com funções e tarefas diferentes, mas com espaço para o respeito mútuo e a igualdade, tornou-se razão de identificação de afeto e respeito nas relações familiares, sob um novo modelo de Estado Democrático de Direito.
A isso, seguiu-se uma desconsideração da estrutura familiar tradicional, de cunho patriarcal, hierarquizada, em favor de uma instituição democrática.
Assim, a família, base da sociedade, passa a ter a necessidade de ser novamente compreendida, levando-se em conta um novo tecido normativo, que inclui valores éticos que devem se harmonizar com a realidade familiar.
Valores fundamentais restaram obscurecidos pelos conceitos de uma pós-modernidade individualista e dualista, concentrada na preservação dos direitos individuais, esquecendo-se da solidariedade e do humanismo familiar autêntico.
A felicidade a qualquer custo, difundida pelo modelo globalizado de sociedade, dizima famílias frente a uma pregação onde o pacto moral cede espaço para a recusa das regras morais, orientadoras do exercício humano e cristão da sexualidade no matrimônio. Mas essa dualidade que prega o direito individual e o amor de si mesmo confunde nossos pensamentos sobre o amor e não deixa ver a vocação originária e fundamental do ser humano.
Nesse contexto, a identidade da família cristã, superando individualidades estruturais próprias e a dinâmica emocional de cada membro, assume padrões de comportamento, convenções sociais, valores morais, filosóficos e religiosos, que são transmitidos de geração em geração, segundo a base em que ela se sustenta.
“No matrimônio e na família constitui-se um complexo de relações interpessoais – vida conjugal, paternidade-maternidade, filiação, fraternidade – mediante as quais cada pessoa humana é introduzida na ‘família humana‘ e na ‘família de Deus‘, que é a Igreja” (Exortação Apostólica Familiaris Consortio, 15).
Esta realidade de amor é verdadeira fonte de sustento, porque o mundo é assolado pela dispersão dos valores sociais e conjugais, em favor do humanismo individualista, onde os direitos e garantias individuais afastam-se da solidariedade familiar e conjugal.
Contrariamente a tudo isto, o bem-estar social verdadeiro deve passar pela valorização comum dos direitos de cada um, em um conjunto, em uma estrutura familiar, onde a educação amorosa e fecunda, na moral e na ética, são os instrumentos vivos de uma sociedade rica de valores fundamentais para o Estado Democrático de Direito.
A família que o Estado precisa é a família como verdadeira Eclesia, em um conceito de "igreja doméstica", em um resgate das primeiras igrejas que se reuniam em casas de famílias, com pais e filhos recebendo uns dos outros a prática dos preceitos de amor fraterno, de solidariedade e de fraternidade, fundamentos da fé cristã.
Jornal "O São Paulo", edição 3140, 2 a 7 de março de 2017.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Campanha da Fraternidade 2017 - Contra o consumismo, preencher os corações vazios

A Doutrina Social da Igreja na defesa dos biomas brasileiros

II



Veja no final do texto as leituras sugeridas para aprofundamento

Entre as maiores ameaças aos biomas brasileiros estão a poluição e a irresponsabilidade no uso dos recursos naturais, denunciadas em vários documentos da doutrina social da Igreja (ver Compêndio da Doutrina Social da Igreja, CDSI 465-471; Laudato si’, LS 20ss).
Podemos entender esse problema a partir da lógica de um sistema econômico estruturado a partir do crescimento contínuo da produção e do consumo, que muitas vezes em detrimento das pessoas (cf. CDSI 319, 332). Mas também devemos considerar que vivemos numa cultura consumista e do descarte (LS 22, 34, 43, 50, 203, 210, 219). Por isso, é importante que cada um faça sua parte para reduzir o consumo dos recursos naturais. Com isso, passamos a tirar menos da natureza e, ao mesmo tempo, a poluir menos.
Existe uma correlação entre a riqueza material e produção de lixo – que é a medida mais evidente do consumo. Mas não é só isso! Comparemos, por exemplo, a produção de resíduos sólidos urbanos (lixo) dos Estados Unidos e da Suécia. Ambos se equivalem quanto ao PIB per capita e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), mas os Estados Unidos produzem diariamente 2,58 kg de lixo por habitante e a Suécia apenas 1,61 kg. Os suecos são menos consumistas que os norte-americanos, sem perder qualidade de vida.
A melhor regra para reduzirmos nosso consumo é a dos “3 R”: REDUZIR o consumo, REUTILIZAR o que pode ser reutilizado, RECICLAR o que não pode ser reduzido ou reutilizado.
Quem trabalha com jovens sabe que eles se envolvem facilmente em atividades de reciclagem e reutilização. O coração humano deseja cuidar das coisas, se sentir comprometido com o bem comum, ver a beleza. Mas a redução do consumo é mais difícil.
As sociedades indígenas são aquelas da “primitiva abundância”. Têm pouco, mas não precisam de mais. Nossa sociedade é a da “eterna carência”. Nunca temos o suficiente, vivemos uma insaciedade que nos impede de saborear a vida e as coisas que já temos, que não nos deixa amar e nos solidarizar com o próximo.
Por isso o Papa Francisco denuncia “os corações vazios”, que procuram ser preenchidos por um consumo desmedido, sem saber que só o Amor pode satisfazê-los definitivamente (LS 204). Dessa forma, nos remete à mais profunda resposta ao consumismo, que é o encontro com Cristo, que sacia o coração e nos desperta para a solidariedade e o compromisso com os mais pobres e a toda a criação.


Leituras sugeridas do Magistério:
·       FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato si’ sobre o cuidado da casa comum, Roma, 24 de maio de 2015. Disponível aqui.
o  No. 18-52. Critica a cultura do descarte e denuncia a poluição e o mal-uso dos recursos naturais.
o  No. 203-227. Propõe uma educação ambiental em diálogo com a espiritualidade ecológica, capaz de “preencher os corações vazios”. O tema continua, no restante do capítulo, comentando outros aspectos que serão vistos em outros artigos dessa série.
·         PONTIFÍCIA CONSELHO JUSTIÇA E PAZ. Compêndio de Doutrina Social da Igreja. Roma, 2 de abril de 2004. Disponível aqui.
o  No. 310-335. Relaciona moral e economia nas condições de trabalho e produção do mundo de hoje (a res novae).
o  No. 465-471. Fala sobre a responsabilidade humana perante a criação.

Outras leituras sugeridas:
·        ECO-UNIFESP. Princípio dos 3 R’s. Disponível aqui. Uma apresentação simples com listas de iniciativas para reduzir, reutilizar e reciclar.
·         HOORNWEG, D; PERINAZ, B. What a Waste. A Global Review of Solid Waste Management. World Bank, Urban Development Series. Washington, DC: Urban Development & Local Government Unit, 2012. Disponível aqui. Documento técnico sobre o problema dos resíduos sólidos no mundo. Para quem quiser se aprofundar nos aspectos técnicos do tema (em inglês).
·         KAIROS, Instituto. Portal do Consumo Responsável. Disponível aqui. Um Portal com leituras, notícias e propostas para a prática de um consumo responsável, que ajuda o meio ambiente e se contrapõem ao consumismo.
·        ROCHA, R. Educação ambiental e política dos 3 R’s. Futuro professor. Espaço de discussão sobre a educação e o magistério. Disponível aqui. Traz uma abordagem crítica sobre o método dos 3 R’s, discutindo a relação entre redução e reciclagem.
Francisco Borba Ribeiro Neto
Jornal “O São Paulo”, edição 3140, 3 a 7 de março de 2017

“Lançai vossas redes para a pesca” (Lc 5,4).

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
José Ulisses Leva é padre secular e professor de História da Igreja da PUC-SP.

Por ocasião dos 300 anos (1717-2017) do Encontro de Nossa Senhora da Conceição Aparecida com o povo brasileiro, em especial nós, cristãos católicos, nos sentimos profundamente felizes. A celebração nos remete há três séculos, ocorrida no Porto de Itaguaçu, nas proximidades de Guaratinguetá, interior paulista.  Este momento de profunda Fé nos leva a uma reflexão teológico pastoral, sob os aspectos Trinitário, Eclesial e Mariano.
Quando remetemos à Trindade Santa lemos nos relatos que foram três os pescadores, João Alves, Domingos Garcia e Felipe Barroso, que encontraram a imagem de Nossa Senhora. Desde sempre a Santíssima Trindade se fez presente na Criação do mundo, sobretudo no momento em que “Deus disse: ‘Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança’ [...] Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou. Homem e mulher Ele os criou” (Gn 1, 26-27). Em Aparecida não foi diferente à ação misericordiosa do Altíssimo Deus em relação aos pescadores. A presença de Deus Uno e Trino e o acolhimento dos pescadores, foram fundamentais para que ação divina tornasse a pesca frutuosa.
No milagre de Aparecida, os pescadores estavam numa barca nas águas do rio Paraíba do Sul, no Vale do Paraíba, São Paulo, quando encontraram a imagem. Simbolicamente, a imagem de barro de Nossa Senhora encontrada no rio nos faz lembrar que somos feitos do barro e precisamos do sopro divino para que haja vida; a barca representa a Igreja de Cristo Jesus; a água é o mundo onde a Igreja está inserida, como também, nos recorda os Sacramentos, tanto do Batismo quanto da Eucaristia. A barca se movimenta nas águas, às vezes, turvas e profundas.  
Os pescadores estavam mergulhados no trabalho de encontrar peixes para o Conde de Assumar, que passava pela Vila de Guaratinguetá. Estavam exaustos e sem perspectivas. Num determinado momento da pescaria encontram o corpo, sem a cabeça, de uma imagem, mas ainda sem sucesso quanto à pesca. Os peixes, de fato, começam a surgir quando encontram a cabeça, isto é, a totalidade da imagem, assim chamada na invocação de Nossa Senhora da Conceição, Padroeira de Portugal e das Colônias, e, finalmente, Aparecida.
Mesmo navegando em águas profundas e turvas, dentro da barca, estamos firmes e seguros: “O barco, entretanto, já longe da terra, era atormentado pelas ondas, pois o vento era contrário [...] Mas Jesus logo lhes falou: ‘Coragem! Sou eu. Não tenhais medo’” (Mt 14, 24.27). No Corpo Eclesial, cuja cabeça é Cristo Jesus, somos queridos. No Sacramento do Batismo, somos amados pela Trindade Santa; e, no Sacramento da Eucaristia, somos alimentados pelo Salvador e Redentor, Nosso Senhor Jesus Cristo. Sentados à Mesa da Palavra, nós ouvimos Deus Revelado e, rodeados à Mesa da Eucaristia nós nos servimos do Banquete do Reino de Deus, anunciado pelo Divino Mestre, cuja meta é o Céu, para todos os que o ama, serve e o anuncia na alegria.
De fato, em 1717, Deus realizou o milagre: a abundância dos peixes se deu sob a intercessão de Maria Santíssima. Os personagens e as épocas são diferentes, mas a ação Misericordiosa de Deus permanece a mesma. “Avança mais para o fundo, e ali lançai vossas redes para a pesca” (Lc 5,4).
Seja a celebração do III século do Encontro de Nossa Senhora com os brasileiros, sob o Patrocínio da Conceição Aparecida, um momento fortíssimo de reafirmarmos nossa Fé à Santíssima Trindade, sob o olhar carinhoso e maternal da Mãe de Deus e nossa, na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica de Jesus Cristo, Salvador e Redentor de todo gênero humano.  
Jornal "O São Paulo", edição 3139, 22 de fevereiro a 2 de março de 2017.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Campanha da Fraternidade 2017: Uma ética do maravilhamento e do cuidado

A Doutrina Social da Igreja na defesa dos biomas brasileiros

I



Veja no final do texto as leituras sugeridas para aprofundamento

A primeira Conferência da ONU sobre Meio Ambiente aconteceu em 1972. Mas antes, em 1971, na Octagesima Adveniens (OA), Paulo VI já advertia para os perigos da poluição e a necessidade de conservar o planeta para as gerações futuras (OA 21).
Na década de 1960, culpou-se a mentalidade judaico-cristã pelas agressões ao meio ambiente. Dizia-se que o mandamento bíblico para que o homem dominasse a terra (cf. Gn 1, 28) fora a justificação ideológica para o desrespeito ao meio ambiente. O Papa Francisco, na Laudato si’ (LS 67ss) mostrou que essa é uma leitura errada da Bíblia, pois ali também está escrito que o homem deve “guardar e cultivar a terra” (cf. Gn 2, 15). O homem deve “dominar” cuidando com amor. O pecado é a causa de nossa convivência predatória para com a natureza e com nossos irmãos (LS 2).
Sem usar palavras como ecologia e meio ambiente, o cristianismo – bem compreendido e autenticamente vivido – desde sempre teve uma postura de maravilhamento e respeito diante da criação. São Paulo reconhece a unidade profunda entre nós e tudo que existe ao dizer que a criação, junto conosco, “geme e sofre as dores do parto” esperando a redenção definitiva (Ro 8, 22).
Os Padres da Igreja, nos primeiros séculos do cristianismo, enfatizaram que toda a criação era boa, um sinal do amor de Deus, e deveria despertar o maravilhamento e a responsabilidade em nós. São João Crisóstomo (ca. 347-407), por exemplo, já dizia que os animais e plantas, mesmo os aparentemente inúteis para o homem, são intrinsicamente bons, pois são obra da bondade de Deus – e como tal devem ser tratados.
Ao longo dos séculos, muitos homens e mulheres de Deus se maravilharam e proclamaram a necessidade de respeitar a natureza. São Francisco (1182-1226) é o mais conhecido, mas temos muitos outros, como a índia norte-americana Santa Catarina Tekakwitha (1656-1680). No Brasil, a diocese de Crato, por exemplo, vem resgatando as práticas de conservação sugeridas pelo pe. Cícero (1844-1934).
Na Laudato si’, o maravilhamento diante da bondade de Deus gera uma ética do cuidado, onde responsabilidade e afeto se integram: “dizer ‘criação’ é mais do que dizer natureza, porque tem a ver com um projeto do amor de Deus [...] A natureza entende-se habitualmente como um sistema que se analisa, compreende e gere, mas a criação só se pode conceber como um dom que vem das mãos abertas do Pai de todos, como uma realidade iluminada pelo amor que nos chama a uma comunhão universal” (LS 76).


Leituras sugeridas do Magistério:
FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato si’ sobre o cuidado da casa comum, Roma, 24 de maio de 2015. Disponível aqui. A ética do cuidado perpassa toda a encíclica, a começar pelo título. Alguns trechos mais relevantes para o tema desse artigo:
oNo. 3-6. Pequeno histórico da questão ambiental nos documentos atuais da Igreja.
oNo. 62-100. Trata da questão ambiental nas Escrituras. Em particular, os Nº 67-68 falam da correta interpretação do Livro do Genesis e os Nº 76-83 falam do “mistério do universo”.
oNº 216-246. Trata da “espiritualidade ecológica”.
 PONTIFÍCIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ. Compêndio de Doutrina Social da Igreja. Nº 451-487. Roma, 2004. Disponível aqui. Faz um apanhado do Magistério sobre o tema ambiental até o Pontificado de João Paulo II.

Outras leituras sugeridas:
CATHOLIC ECOLOGY. Reflecting on blessed Kateri Tekakwitha. Disponível aqui. O site conta um pouco da história dessa jovem, primeira índia a ser declarada santa, que os países de língua inglesa estão colocando como padroeira da ecologia, ao lado de São Francisco de Assis. Em inglês.
DIOCESE DE CRATO. Preceitos ecológicos do Pe. Cícero. Disponível aqui. Uma leitura particularmente interessante dentro dessa Campanha da Fraternidade que fala sobre a conservação da natureza, considerando o processo de recuperação da memória do Pe. Cícero que está sendo realizado pela Igreja no Brasil.
KINDIY, O. Patrology, Ecology, and Eschatology: Looking Forward to the Future of the Planet by Looking Back to the Fathers of the Church. Logos: A Journal of Eastern Christian Studies, 55 (3–4): p. 303–327, 2014. Disponível aqui. Apresenta as bases da reflexão teológica cristã sobre a natureza nos Padres da Igreja e ainda discute a chamada ecoteologia na perspectiva das hermenêuticas da ruptura e da continuidade. Apesar de ser em inglês, é leitura obrigatória para quem quer se aprofundar no tema.
RIBEIRO NETO, F.B. O diálogo entre catolicismo e ambientalismo a partir da Laudato si’. Revista eclesiástica brasileira, Petrópolis, 76 (301): p. 8-23, Jan /Mar 2016. Disponível aqui. Traz um apanhado das agressões ao meio ambiente em diferentes culturas e períodos históricos, além de sintetizar o debate entre a encíclica do Papa Francisco e os movimentos ambientais.
Francisco Borba Ribeiro Neto
Jornal “O São Paulo”, edição 3139, 22 de fevereiro a 2 de março de 2017