terça-feira, 29 de maio de 2018

A nossa roupa de domingo

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte

Isabella Fiorentino, modelo e apresentadora do Programa Esquadrão da Moda.

Sempre me comoveu participar de Missas e celebrações em paróquias de pequenas cidades e vilarejos. É muito bonito ver como as pessoas têm especial cuidado com sua arrumação pessoal e com seu modo de vestir para a Missa.  O decoro e a elegância com que se apresentam, aquela “roupa de domingo“, que não é luxuosa, mas que se vê que foi cuidadosamente escolhida, refletem a piedade e sensibilidade da sua alma. Essa atitude me faz pensar que a aparência exterior é uma maneira de expressar o amor que temos dentro do coração.
A preparação para a Santa Missa é, antes de tudo, uma atitude interior: a disposição de oferecer a Deus tudo o que somos e temos e também de perdoar nossos irmãos antes de apresentarmos nossa oferenda. No entanto, também a nossa atitude exterior é importante para um digno culto a Deus, e se manifesta, entre outros aspectos, por meio da nossa postura e do nosso modo de vestir.
A vestimenta é uma forma de nos comunicar. Quando vamos visitar uma pessoa muito importante ou por quem temos um grande apreço, gastamos tempo para nos preparar, pois estar bem arrumados é uma forma de prestigiá-la. A ninguém ocorre pensar em ir para um casamento ou para uma festa com trajes esportivos. Na Missa, nosso anfitrião é o próprio Deus, o que faz dela o acontecimento mais importante da nossa semana.
Por isso, muito me entristece ver as pessoas chegando para a Missa direto do parque, do churrasco ou da praia, vestidas como se a celebração eucarística fosse apenas uma parte a mais de sua rotina de domingo, um compromisso pouco importante. A Missa torna presente o mesmo Sacrifício da Cruz e cada um de nós está ali como a Virgem Maria, o Apóstolo João ou as Santas Mulheres, acompanhando a Jesus no Calvário.
No Evangelho de São Marcos (Mc 14,3-9), lemos que Jesus não censurou a mulher por derramar sobre seus pés um perfume de grande preço. Pelo contrário, demonstrou gratidão pelo gesto de amor que teve para com Ele. Imagino como alegra o coração de Deus quando damos generosamente a Ele o que temos de melhor, não o que nos sobra. Por isso, fazer da Missa o centro do nosso Domingo, preparando a nossa alma e o nosso corpo adequadamente para esse momento tão sublime, é a melhor forma de demonstrar nosso amor a Deus.
Mesmo sendo profissional da área, não pretendo dar exemplos concretos, pois não se trata de um editorial de Moda. Cada um, a seu modo e sem perder seu estilo pessoal, pode pensar como se apresentar de maneira mais especial para a Missa. Como cristã, gostaria apenas de propor uma reflexão: como podemos demonstrar externamente mais reverência a Jesus Eucarístico, retribuindo o Amor com que Ele se entrega a cada um de nós todos os domingos na Santa Missa?
Jornal "O São Paulo", edição 3200, 23 a 30 de maio de 2018.

Subsidiariedade: proposta de um novo paradigma social


Rafael Mahfoud Marcoccia é professor do Centro Universitário FEI.

Em artigo anterior (Antropologia positiva: berço da sociabilidade, O São Paulo, 17/01/2018) encerrei afirmando que a subsidiariedade parte de uma antropologia positiva e permite correções virtuosas ao liberalismo e ao estatismo. Esse princípio encontra sua formulação mais adequada na Doutrina Social da Igreja. Sua primeira formulação data da encíclica Quadragesimo anno (QA) de Pio XI: “Assim como é totalmente errado tirar dos indivíduos aquilo que eles podem realizar por sua própria iniciativa e trabalho e dar à comunidade, também é uma injustiça designar a uma associação maior e mais alta o que organizações menores e subordinadas podem fazer”, porque “toda atividade social deve, por sua própria natureza, fornecer ajuda aos membros do grupo social, e nunca destruí-los e absorvê-los” (QA 79).
Desde o início, o princípio é, portanto, caracterizado pelo apelo a uma obrigação dupla por parte do governo: a obrigação negativa de se abster de intervir quando os indivíduos e associações menores podem executar de forma mais adequada certa função; e a obrigação positiva de ajudar e apoiar a livre iniciativa dos indivíduos e de realidades sociais quando necessário.
A obrigação do governo de se limitar e de ajudar implica na afirmação decisiva de que a liberdade humana é a dimensão primária e construtiva no contexto social e institucional. A subsidiariedade sugere que é preciso ver, ouvir, para aumentar o valor do que originalmente existe e desenvolver livremente, de baixo para cima, em resposta às necessidades dos indivíduos e da coletividade.
O princípio da subsidiariedade, portanto, se baseia na hipótese de que a pessoa, individualmente ou em associação com outras pessoas, é potencialmente capaz de confrontar as necessidades coletivas e satisfazê-las. Essa perspectiva não é dominada pela suspeita em relação à presumível busca do desejo particular e individual ou às consequências (negativas) que isso talvez tenha para o bem comum. Pelo contrário, há confiança em que a tensão construtiva dentro da condição humana tenha um resultado positivo.
Sempre que o projeto de um sistema de bem-estar social reconhece a busca pelo bem e a capacidade de se relacionar como constituintes de cada indivíduo, uma função subsidiária para o Estado emerge naturalmente, baseada no respeito pela dignidade de cada pessoa e agindo para aumentar – em vez de restringir ou diminuir – a capacidade de autonomia do cidadão, seja enquanto indivíduo ou em associações livres. Por essa razão, ele deve agir em grande parte de maneira subsidiária, sempre que as iniciativas dos órgãos sociais não responderem adequadamente às diferentes necessidades individuais. Em casos assim, a intervenção do Estado atua como um incentivo para apoiar as iniciativas e o trabalho de indivíduos ou de formações sociais, sem necessariamente substituí-los.
Assim, as necessidades estruturais do ser humano – como os desejos de bem, justiça e verdade - são o ponto de partida para uma reestruturação da sociedade que supere tanto a suposta racionalidade do homo oeconomicus, e uma concepção de cidadania limitada ao desfrute passivo dos direitos (e impostos) garantidos pelo Estado-Providência.
Em suma, a subsidiariedade propõe um novo paradigma social e um “novo governo” baseado na colaboração, na interdependência, na negociação, na parceria e no reconhecimento da necessidade de interação entre as realidades públicas e privadas e, em especial, com as realidades não lucrativas do terceiro setor.
Jornal "O São Paulo", edição 3200, 23 a 30 de maio de 2018.

A Organização Mundial da Saúde aos 70 anos!


Leo Pessini

Neste ano, estamos celebrando o 70º aniversário da Organização Mundial da Saúde, OMS.  Fundada em 1946, a OMS sucedeu a Organização de Saúde da Liga das Nações no imediato pós-guerra. Sua constituição entre em vigor no dia 7 de abril de 1948, comemora-se e desde então, nesta data comemora-se mundialmente o Dia Mundial da Saúde. Neste ano de 2018 o tema que foi proposto é “Cobertura de Saúde Universal: para toda a gente em todos os lugares”.
Nestas últimas 7 décadas, a esperança média de vida em todo o mundo aumentou 23 anos, a varíola desapareceu, e a pólio vai acabar em breve, afirmam os especialistas em saúde.” A OMS é hoje a mais importante agencia da ONU em termos de vigilância sanitária global.  A OMS, desde o início de suas atividades há 70 anos, tem liderado esforços para livrar o mundo de doenças fatais, como a varíola, e para combater hábitos que podem levar à morte, como o consumo de tabaco.  Apesar destes avanços, pessoas em todo o mundo ainda morrem precocemente e não tem acesso aos cuidados indispensáveis e vitais de saúde. Todos os anos, cerca de 100 milhões de pessoas são empurradas para uma situação de pobreza extrema onde faltam todos os cuidados, não só os de saúde.
Neste ano, o Dia Mundial da Saúde deste ano é dedicado a um dos princípios éticos estruturais da OMS: “O gozo do mais alto padrão de saúde possível é um dos direitos fundamentais de qualquer ser humano, sem distinção de raça, religião, crença política, condição econômica ou social”. O Slogan deste dia, vai nesta direção ao propor "Saúde universal: para todos, em todos os lugares".
“Uma boa saúde é a coisa mais preciosa que a pessoa pode ter”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS. “Quando estão saudáveis, as pessoas podem aprender, trabalhar e sustentar a si mesmas e suas famílias. Quando estão doentes, nada mais importa. Famílias e comunidades ficam para trás. É por isso que a OMS está comprometida em garantir uma boa saúde para todas e todos.” Com 194 Estados Membros em seis regiões no Planeta, a OMS está unida em um esforço compartilhado para melhorar a saúde de todas as pessoas, em todos os lugares – e alcançar o Objetivo (n. 3), da Agenda do Desenvolvimento Sustentável (ODS) 2030 da ONU de garantir “vidas saudáveis e promover o bem-estar para pessoas de todas as idades”. 
Alguns dos maiores ganhos em saúde são observados entre crianças menores de cinco anos: em 2016, seis milhões de crianças a menos morreram antes de completarem cinco anos de idade em relação a 1990. A varíola foi derrotada e a pólio está à beira da erradicação. Muitos países eliminaram com sucesso o sarampo, a malária e as doenças tropicais debilitantes, como dracunculíase (verme-da-guiné), bem como a transmissão do HIV e da sífilis de mãe para filho. 
As novas e ousadas recomendações da OMS para um tratamento precoce e mais simples, combinadas com esforços para facilitar o acesso a medicamentos genéricos mais baratos, ajudaram 21 milhões de pessoas a receberem tratamento para o HIV. A situação de mais de 300 milhões de pessoas que sofrem de infecções crônicas por hepatite B e C está finalmente ganhando atenção global. E parcerias inovadoras produziram vacinas eficazes contra meningite e ebola, bem como a primeira vacina contra a malária do mundo. 
                Nas últimas décadas, vimos o aumento de doenças crônicas não transmissíveis, como câncer, diabetes e doenças cardiovasculares. Essas enfermidades atualmente representam 70% de todas as morte no mundo. Assim, a OMS mudou o foco, com a colaboração dos ministérios de saúde dos países membros, para promover uma alimentação saudável, exercícios físicos e exames de saúde regulares. A Organização realizou campanhas de saúde em todo mundo para a prevenção de diabetes, hipertensão e depressão. A OMS está atualmente respondendo a surtos e crises humanitárias (países em guerra) em mais de 40 países.   
Desde o início, a OMS reuniu especialistas em saúde do mundo todo para produzir recomendações e materiais científicos para todo o globo. Resultado desta ação temos hoje o CID - classificação Internacional de Doenças, utilizada hoje em 100 países como um padrão comum para relatar doenças e identificar tendências de saúde e a Lista de Medicamentos Essenciais da OMS – e um guia para países sobre os principais medicamentos que um sistema nacional de saúde precisa. Em breve teremos a primeira Lista de Diagnósticos Essenciais do mundo.
A partir de agora uma nova e exigente agenda da OMS focará em obter saúde universal para mais de um bilhão de pessoas; proteger mais um bilhão de pessoas das emergências de saúde e permitir que um bilhão de pessoas desfrutem de melhor saúde e bem-estar na trilha da Agenda 2030, do Desenvolvimento Sustentável da ONU.
Que isto não seja um mero sonho, ilusão ou utopia, mas que a humanidade acorde, se uma em torno deste objetivo maior de cuidar da saúde humana e superando interesses particulares, se encontre neste horizonte maior de investir em cuidados de saúde, cuidando da vida prioritariamente a partir dos mais deserdados da terra.

Gaudete et Exultate - Capítulo 4: A santidade no mundo atual


Introdução
Depois de indicar o Espírito das bem-aventuranças, em especial da misericórdia para com próximo, que deve ser acolhido como dom de Deus, animando a experiência cristã, Francisco, neste capítulo, propõe algumas caraterísticas indispensáveis, que são graças preciosas que devemos pedir a Deus, para viver a santidade nos dias de hoje e dar testemunho do Evangelho (cf. GE, 110).
São, na verdade, cinco grandes manifestações do amor a Deus e ao próximo particularmente importantes, dados os riscos e os limites da cultura em que viuvemos, marcada pela ansiedade e pela violência, que nos dispersa e enfraquece, pelo negativismo e pela tristeza, pelo comodismo consumista egoísta, pelo individualismo e pelas inúmeras formas de falsa espiritualidade sem Deus, que reinam no mercado religioso atual (§ 111).
Francisco Catão

A primeira destas grandes graças é permanecer centrado, firme em Deus que ama e sustenta. A partir desta firmeza interior, aguentar e suportar as contrariedades, as vicissitudes da vida e também as agressões, as suas infidelidades e defeitos dos outros. Nisto está a fonte da paz (§112).
Pode acontecer que cristãos cheguem a fazer parte de redes de violência verbal através da internet e vários fóruns ou espaços de intercâmbio digital. Mesmo nas midias católicas, a ultrapassar os limites, tolerando a difamação e a calúnia. A língua descontrolada «é um mundo de iniquidade» (§115). A firmeza interior, obra da graça, impede de nos deixarmos arrastar pela violência que invade a vida social, porque a graça aplaca a vaidade e torna possível a mansidão do coração (§116).
Não podemos assumir o papel de juízes e pretender continuamente dar lições (§117). A humildade só se pode enraizar no coração através das humilhações. A santidade que Deus dá à sua Igreja vem através da humilhação do seu Filho: este é o caminho (§118). Refiro-me às humilhações diárias daqueles que evitam falar bem de si mesmos e preferem louvar os outros em vez de se gloriar (§119). Pressupõe um coração pacificado por Cristo, para não cair na tentação de procurar a segurança interior no sucesso, nos prazeres vazios, na riqueza, no domínio sobre os outros ou na imagem social (§121).
A segunda característica é a alegria e sentido de humor. O santo é capaz de viver com alegria e sentido de humor. Sem perder o realismo, ilumina os outros com um espírito positivo e rico de esperança. (§122).
Não falo da alegria individualista presente no consumismo de hoje que só atravanca o coração. Ainda que proporcione prazeres ocasionais e passageiros, não e fonte da alegria que se vive em comunhão, que se partilha e comunica, pois «a felicidade está mais em dar do que em receber» (§128).
A terceira característica é a ousadia e o ardor do impulso evangelizador que deixa uma marca neste mundo. Ousadia, entusiasmo, liberdade interior e no falar, ardor apostólico: tudo isto está contido no termo grego parresia, palavra com que a Bíblia expressa a liberdade duma existência aberta, disponível para Deus e para os irmãos (§129).
Olhemos para Jesus! Sua entranhada compaixão O impelia a sair de Si mesmo a fim de anunciar, mandar em missão, curar e libertar. Somos frágeis, mas portadores dum tesouro que nos faz grandes, torna melhores e mais felizes aqueles que o recebem. (§131). Precisamos do impulso do Espírito para não ser paralisados pelo medo e pelo calculismo. Quando os apóstolos sentiram a tentação de se deixar paralisar pelos medos e perigos, juntaram-se a rezar pedindo parresia (§133)
A quarta característica é buscar viver em comunidade: a santificação é um caminho comunitário (§141). A comunidade, ao nos aproximar uns dos outros, cria aquele «espaço teologal em quer se experimenta a presença mística do Senhor ressuscitado» (§142). A vida comunitária, na família ou em qualquer outra comunidade, compõe-se de pequenos detalhes diários (§143.), em que se vive a atenção e o amor ao próximo.  Lembremo-nos como Jesus convidava os seus discípulos a prestar atenção a esses detalhes (§144. Na comunidade que valoriza os pequenos detalhes do amor sucede, às vezes, que o Senhor, por um dom de seu amor, nos presenteie com consoladoras experiências de Deus (§145).  Contra a tendência para o individualismo consumista, o nosso caminho de santificação nos identifica com o de Jesus. (§146)
A quinta característica é viver em oração constante. Parece óbvio, mas é sempre preciso lembrar que a santidade, em última análise é feita de abertura habitual à transcendência, que se expressa na oração e na adoração e envolve toda a vida. O santo é uma pessoa com espírito orante, que tem necessidade de estar em comunicação com Deus (§147).
A contemplação da face de Jesus morto e ressuscitado recompõe a nossa humanidade, fragmentada pelas canseiras da vida ou marcada pelo pecado. (§151). Que não se entenda, porém, o silêncio orante como uma evasão que nega os outros nem o mundo que nos rodeia (§152).
A oração, precisamente porque se alimenta do dom de Deus na nossa vida, deveria ser sempre rica das obras de Deus, cuja memória está na base da experiência da aliança entre Deus e o seu povo. Memória agradecida (§153), expressão do coração daquele que confia em Deus, pois sabe que sozinho nada consegue. A oração será mais agradável a Deus e mais santificadora, se nela incluirmos o compromisso fraterno com os outros, nela incorporando sua vida, suas angústias e seus melhores sonhos (§154).
Se verdadeiramente acreditarmos que Deus existe, não podemos deixar de viver p§§ara Ele (§155).
A leitura orante da Palavra de Deus permite-nos ficar à escuta do Mestre, fazendo da sua palavra o farol para os nossos passos e a luz para o nosso caminho (§156). O encontro com Jesus nas Escrituras conduz-nos à Eucaristia, onde essa mesma Palavra atinge a sua máxima eficácia, porque é presença real d’Aquele que é a Palavra viva (§157).
Jornal "O São Paulo", edição 3199, 16 a 22 de maio de 2018.

Quando o bem comum desaba

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte

Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Na madrugada de 1º de maio, não desabou apenas um edifício no Largo Paiçandu, em São Paulo, tombado e ocupado irregularmente por famílias. Desabou – uma vez mais – a ilusão de uma sociedade orientada para o bem comum.
O drama da falta de moradias para famílias de baixa renda se arrasta há décadas tanto na cidade quanto no País. Não seria justo negar os avanços nos programas sociais de moradia para populações de baixa renda, mas não deixa de ser impressionante que, na cidade mais rica do Brasil, se estime que seriam necessários 120 anos para zerar o déficit habitacional do município, mantendo-se os investimentos atuais.
É justíssimo cobrar a responsabilidade do Estado diante de tais dramas – de todos que não têm moradia digna e das vítimas do desabamento, em particular. Porém, a ação do Estado não é mais que a somatória dos vários governos que se sucedem. Nos últimos 25 anos, a prefeitura de São Paulo foi ocupada por cinco partidos diferentes, dos mais diversos coloridos ideológicos. Nenhum deles consolidou um caminho de solução para o problema (ou conseguiu ficar tempo suficiente no poder para consolidar uma solução).
O problema não é só dos políticos, nem de um Estado abstrato que paira acima de todas as contradições sociais. É de todos nós: para ser solucionado, depende do quanto pensamos a solidariedade e o bem comum como critério objetivo nas eleições e na organização da nossa vida.
Individualmente, e mesmo como grupo social, nenhum de nós é culpado por essa situação. Porém, nada mudará para melhor sem uma vontade política solidária, que dê apoio, força e estabilidade para programas sociais que resolvam os problemas da cidade – fugindo das armadilhas ideológicas que podem ser encontradas nos dois lados do espectro ideológico.
Uma sociedade que não é solidária, na qual os cidadãos não deixam, pelo menos em alguns momentos, seus interesses particulares de lado em função da realização do bem comum, não consegue resolver seus problemas de forma adequada e todos acabam perdendo com isso.
Sem solidariedade e busca pelo bem comum, todos perdem – ainda que os pobres sejam os que mais sofrem. Essa era a mensagem do Papa Bento XVI, na Caritas in veritate, para não falar nos vários textos do Papa Francisco.
A degradação do centro de São Paulo é o reflexo de uma falta de solidariedade – ou pelo menos de uma solidariedade que não consegue ganhar consistência e estabilidade política. Prédios abandonados e/ou desocupados, moradores de rua espalhados pelo centro, cracolândias, retratam o desmoronamento do bem comum.
Entre nós, dois mitos se antepõem à construção do bem comum:
1) A crença de que o Estado é o responsável único pelo bem comum. Pagamos nossos impostos para que ele se ocupe dos problemas sociais por nós. Não percebemos que o Estado social só tem dado certo em países onde a sociedade civil está muito organizada e os cidadãos assumem seu papel cívico, tanto nas eleições quanto no dia a dia.
2) A ilusão de que basta acabar com a corrupção para que sobre dinheiro para resolver os problemas sociais do Brasil. Nossa renda per capita é baixa, a desigualdade material muito alta, o corporativismo e o fisiologismo dos políticos muito grande. A corrupção não acabará rapidamente e mesmo que acabasse o Estado ainda teria dificuldade para financiar todos os investimentos sociais necessários para o País.
Temos que cobrar ações efetivas do Estado, temos que combater a corrupção – mas também temos que dar nossa contribuição pessoal para que uma vontade política solidária determine os rumos da gestão da cidade de São Paulo.
 Jornal "O São Paulo", edição 3199, 16 a 22 de maio de 2018.

A Psicologia e os Cuidados Paliativos

Stela Reginato Orozco Lopez. Psicóloga.

“O sofrimento somente é intolerável quando ninguém cuida”.
(Cicely Saunders)."

Ao longo da história, o conceito da morte foi se alterando. Há séculos ela ocorria no âmbito público, familiar e religioso e a expectativa de vida era baixa[1]. Os avanços tecnológicos e científicos tornaram a vida mais longeva, e os profissionais de saúde passaram a manipular recursos sofisticados para evitar padecimentos. A morte, por sua vez, tornou-se hospitalar. E não é raro senti-la como um fracasso, seja da equipe de profissionais envolvidos, seja pela ausência de investimentos suficientes. Há casos em que esse sentimento é exato, mas muitas vezes isso se deve à nossa resistência em aceitar a realidade da morte. Talvez essa resistência seja reforçada pela crença generalizada de que essa passagem é sempre acompanhada de dores e sofrimentos insuportáveis. Entretanto, a literatura e pesquisas apontam que o mais doloroso ao paciente é a experiência da solidão, tantas vezes inerentes ao ambiente hospitalar de terapias intensivas.
E aí entram em jogo os cada vez mais valorizados “cuidados paliativos”, nos quais o psicólogo assume um relevante papel. Se nem sempre é possível curar, sempre é possível cuidar dos pacientes em sua fase terminal.
Desde 2002 a Organização Mundial de Saúde (OMS)[2] define Cuidados Paliativos como uma possibilidade de cuidado integral e amplo das diferentes dimensões humanas[3], fornecido ao paciente e à sua família. Atuam com prevenção e alívio do sofrimento por meios de identificação precoce, avaliação correta e tratamento da dor e de outros problemas de ordem física, psicossocial e espiritual. A falta de prognóstico ou de possibilidade de cura para pacientes não inibe que estes não recebam terapêuticas adequadas para seu bem-estar e qualidade de vida até o seu último instante. Esse procedimento é visto como um direito do paciente/família e um dever dos profissionais de saúde, podendo ser oferecidos desde a revelação diagnóstica, em diferenciados públicos.
A possibilidade dessa atuação requer um ambiente apropriado para dar suporte contínuo. E, embora envolva poucos recursos tecnológicos, requer relativamente mais recursos humanos, com equipes de saúde qualificadas. Essas equipes são multiprofissionais, compostas por médico, enfermeiro, assistente social, nutricionista, fisioterapeuta, psicólogo, terapeuta ocupacional, conselheiro espiritual ou capelão[4]. E todos interagem entre si, valorizando-se os diversos conhecimentos e enfoques, que se apoiam mutuamente, reconhecendo-se as competências e as incompetências correlatas, as possibilidades e os limites da própria disciplina e de seus agentes.
Em 2007, a OMS atribuiu ao psicólogo o trabalho de minimizar o sofrimento em relação ao paciente, à família e à equipe de saúde, todos considerados cuidadores. A mesma organização entende e recomenda reafirmar a vida e considerar a morte como um processo normal, sem apressar ou adiar a morte, oferecer alívio à dor e a outros sintomas que causem sofrimento, integrar aspectos psicológicos e espirituais dos cuidados aos pacientes, oferecer apoio para que se viva tão ativamente quanto possível até a morte, oferecer apoio à família no enfrentamento da doença e do luto. Deixando claro que os cuidados paliativos não significam “nada mais será feito” já que sempre há uma terapêutica a ser preconizada para um doente[5] com ações paliativas:

Qualquer medida terapêutica, sem intenção curativa, que visa a diminuir, em ambiente hospitalar ou domiciliar, as repercussões negativas da doença sobre o bem-estar do paciente. É parte integrante da prática do profissional de saúde, independente da doença ou de seu estágio de evolução. (MACIEL, 2008, p.23)[6]
São procedimentos que diminuem os sintomas de desconforto, capazes de evitar o sofrimento e a dor que podem envolver essa situação até o final da vida, indispensáveis ao paciente. É esperado que o psicólogo neste contexto tenha habilidades relacionadas às questões do final da vida, a fim de responder aos desafios encontrados nesse contexto laboral instável, de alto risco de mortalidade, presença de diferentes saberes e intensas demandas familiares. Este profissional atua com o paciente e com os cuidadores, seja a família ou a equipe de saúde, com escuta ativa; boa comunicação; conhecimento técnico dos quadros clínicos e criatividade para aprimorar estratégias de enfrentamentos, condizentes com essa realidade de adaptação, de perdas e de lidar com o luto. Cabe a ele lidar com as diferenças de crenças, valores e conhecimentos que o permeiam tanto pela família, quanto os membros da equipe; atuando assim como ponte entre os diferentes membros envolvidos.
Tão difícil se faz, em tempos modernos, cuidar da sobrevivência da esperança ou lidar com a frustração da impotência frente a morte, que passou do meio público e familiar para o ambiente hospitalar. Diante desse quadro surge a necessidade de retomar a função do cuidar. Em meados do século XX, volta-se a questionar o cuidar, para os profissionais de saúde, para além do curar. É nesse contexto que a função do psicólogo se tornou fundamental para o acolhimento, a humanização, troca de saberes e oferecendo suporte necessário para este momento.



[1]  Braga (2013), Kovács (2006) e Kovásc (2008).
[2] Braga (2013).
[3]  Franco (2008).
[4] Melo e outros (2013).
[5] Braga ( 2013).
[6]  Maciel (p.23, 2008).

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Conclusões de Medellín: a Igreja de Cristo Jesus presente na América.

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte

Pe. José Ulisses Leva, Doutor em História Eclesiástica pela Pontifícia Universidade Gregoriana e professor da Faculdade de Teologia da PUC-SP. 

Estamos motivados pelos 50 anos da Conferência Latino-americana ocorrida em Medellín, na Colômbia. A Igreja de Cristo Jesus presente neste Continente recorda com alegria e celebra com esperança o anúncio querigmático do Evangelho de nosso Salvador.
Percebendo as necessidades e preocupações do homem e mulher presentes na América Latina, a Igreja procurou responder como Mãe e Mestra. A II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, ocorrida em Medellín, em 1968, destacou: “A Igreja latino-americana, reunida na II Conferência Geral de seu Episcopado, situou no centro de sua atenção o homem deste continente, que vive um momento decisivo de seu processo histórico”. (Medellín, Introdução, p 5). Foi seguramente um marco eclesial e presencial às angústias e sofrimentos das pessoas que bradavam e aguardavam por esperança e confiança. O anúncio do Evangelho de Cristo Jesus e a atenção do episcopado selaram as bases para a Igreja presente no Continente da Esperança.
Nos anos 60 do século XX, a América Latina era sacudida por mortes nos campos e na cidade. As ditaduras se faziam presentes em várias nações. O desespero tomava conta das massas desorientadas pela violência e opressão. As vozes estudantis, os movimentos campesinos e a liberdade de consciência, até com levantes armados, imperavam nos variados ambientes da sociedade.
Num Continente maciçamente jovem e majoritariamente empobrecido, a Igreja de Cristo Jesus, representada por suas Conferências Episcopais Nacionais, procurou escutar e entender o clamor da população e promover as mudanças que a sociedade almejava.
Um fortíssimo aliado no Continente foi a mobilização do Episcopado Católico. Os Bispos apresentaram às orientações do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) e seguiram a antiquíssima tradição eclesial e reuniram-se em Assembleia. As Conferências Episcopais Nacionais uniram forças e juntos traçaram não só um Documento, mas metas prioritárias para a evangelização. “Toda revisão e renovação das estruturas eclesiais no que tem de reformável, deve evidentemente ser feita para atender as exigências de situações históricas concretas, mas não perdendo de vista a própria natureza da Igreja. A revisão que hoje se deve levar a cabo em nossa situação continental há de ser inspirada e orientada pelas ideias diretivas muito sublinhadas no Concílio: a da COMUNHÃO e a da CATOLICIDADE (LG 13)” (Medellín, pp 152-153).
Diante do contexto continental, os jovens e os pobres foram assegurados como prioridades, sem deixar de lado a universalidade dos problemas.  Assim as Resoluções do Concílio Ecumênico Vaticano II e as Conclusões de Medellín passaram a ser para a Igreja presente na América Latina o seu referencial. A Igreja lançava seu olhar sobre as dores secularmente impostas aos homens e mulheres desse Continente. Projetava a todos esperança e um devir assegurados à luz do Evangelho de Jesus Cristo e no testemunho e presença do episcopado.
Jornal "O São Paulo", edição 3198, 9 a 15 de maio de 2018.