segunda-feira, 10 de julho de 2017

Você tem fome de que? De tempo!

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte

Ana Lydia Sawaya é professora titular de Fisiologia da UNIFESP - campus São Paulo e é conselheira do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Outro dia na saída de um evento deparei-me com três potinhos onde os participantes tinham que escolher um deles e depositar sementes de feijão para responder à frase colada ao vidro: você tem fome de que? Num dos potinhos estava escrito: de cozinhar (era um evento sobre nutrição), mas estava quase vazio (salvo alguns aficionados...). O que estava cheio até à borda dizia: de tempo!
A grande fome de hoje é a fome de tempo! Mas o tempo é algo de que podemos dispor com a nossa liberdade. Está à nossa mão e ao nosso dispor. Santo Agostinho dizia que o tempo existe no espírito do homem, é uma extensão do nosso espírito. É em nosso espírito que reside a memória do passado, a intuição do presente (o presente do presente) e a espera do futuro. Então ele depende essencialmente da nossa liberdade!
Mas quem roubou o nosso tempo? Por que ele escapou de nossas mãos?
Um escritor do leste europeu, Václav Belohradsk, nos dá uma pista. Ele diz: “Poderíamos sintetizar assim a essência daquilo que nos ameaça: os Estados programam seus cidadãos, as indústrias, seus consumidores, as editoras, seus leitores etc. Toda a sociedade, aos poucos, torna-se algo que o Estado produz” (L’Altra Europa, 1986, apud L. Giussani O eu, o poder, as Obras, São Paulo: Cidade Nova, ,2001). Podíamos acrescentar: a televisão, seus telespectadores, o Facebook ou Istragram, os seus visualizadores.
Somos cada vez mais de-finidos por um poder externo à nossa vontade e que vem de fora. Que pretende determinar nossa fome e nossos desejos, oferecendo desejos que não são realmente satisfatórios ou conforme à medida do nosso coração. Estamos sempre fora de nós mesmos e assim perdemos o TEMPO que é essencialmente nosso. Somos cada vez menos criativos e cada vez mais passivos, vítimas de um tempo que não foi determinado por nós e, por isso, cada vez mais desnorteados e vazios. É comum ouvir de quem trabalha com crianças que sofrem com obesidade, frases do tipo: ‘eu preciso sentir a boca cheia’. Esses profissionais relatam que essa sensação parece preencher o vazio, a tristeza, o tédio e a carência afetiva que as crianças descrevem sentir.
A coisa mais importante a fazer é entender o problema, a armadilha que a sociedade moderna e o poder nos fizeram entrar. E retomar o nosso TEMPO em nossas mãos.  Escolher aquilo que preenche nossas almas e não nossas bocas ou nos iludem com sensações prazerosas momentâneas, mas que incrementam o vazio logo que passam. E o que preenche nossas almas?
A tradição da Igreja, em particular dos monges, nos ensina muitas coisas a esse respeito. Em um livro, extremamente didático O Céu Começa em Você (Petrópolis: Vozes, 1998) A. Grun explica que o primeiro passo é reservar diariamente um tempo (meia hora, por exemplo) para ficar quieto, e aprender a permanecer em si mesmo. Assim quando a turbulência interior que é como uma água em grande movimento (lembra da correria e falta de tempo que agita tudo?) se aquietar, vou começar a enxergar, a entrar no âmago dos meus pensamentos e discerni-los (a agua sem movimento reflete meu verdadeiro rosto). E aos poucos aparecerá quem sou eu, o que realmente desejo, o que me incomoda e o que devo fazer. Os pensamentos e sentimentos maus e os bons virão à tona e poderei trata-los com a oração e iniciar um processo de cura em direção à paz que é o que o nosso coração mais anseia.
Nessa nova condição de vida descobriremos que o tempo se amplia, e aumenta de forma surpreendente; e que temos tempo de fazer tudo o que nos alegra e nos é necessário. Veremos que quem fez o mundo o fez em ordem e não uma desordem. E descobriremos como ensina Santo Agostinho que o tempo, na verdade, é uma dimensão do nosso espírito.
Jornal "O São Paulo", edição 3158, 5 a 25 de julho de 2017.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

A unidade pode superar o conflito?


Um dos quatro postulados que o Papa Francisco aplica à doutrina social da Igreja na Evangelii Gaudium é “a unidade prevalece sobre o conflito” (EG  226-230). Num momento conflitivo e polarizado como o atual, poucas afirmações podem ser mais desafiadoras do que essa.
Não se trata de uma ingenuidade que fecha os olhos para a realidade: “O conflito não pode ser ignorado ou dissimulado; deve ser aceito. Mas, se ficamos encurralados nele, perdemos a perspectiva, os horizontes reduzem-se e a própria realidade fica fragmentada. Quando paramos na conjuntura conflitual, perdemos o sentido da unidade profunda da realidade” (EG 226).
Para superar as atuais dificuldades do País, temos que agir juntos, sermos capazes de superar os interesses privados e buscar o bem comum, dialogar para encontrar caminhos novos. Mas parece que estamos mais preocupados em destruir os argumentos e anular o trabalho dos que pensam diferente, do que em crescer com eles e criar espaços onde todos possam contribuir e ter sua dignidade reconhecida.
Se imperam ideologias e fundamentalismos, reina o sectarismo. Se nos abrimos para a realidade e para uma racionalidade integral, que não se limita ao instrumental, mas enfrenta também os desafios da ética e do sentido das coisas, reina o diálogo e se trilha o caminho para a unidade e a solidariedade.
Quando nos fechamos em nossas ideologias, queremos impor nossos argumentos e forçar a realidade a entrar em nossos esquemas. Quando queremos verdadeiramente conhecer a realidade e superar seus desafios, somos obrigados a reconhecer a existência e a contribuição dos demais.
Hoje a defesa intransigente de interesses particulares e o apego obstinado às próprias posições afastam os brasileiros desse caminho de unidade capaz de construir o bem comum.
Mas o que pode fazer alguém ir além dos próprios interesses ou reconhecer a verdade (ainda que parcial) das ideias do outro? É Bento XVI que responde indiretamente, em seu discurso inaugural da Conferência de Aparecida: “Onde Deus está ausente, o Deus do rosto humano de Jesus Cristo, estes valores [que constroem a unidade] não se mostram com toda a sua força, nem se produz um consenso sobre eles. Não quero dizer que os não-crentes não podem viver uma moralidade elevada e exemplar; digo somente que uma sociedade na qual Deus está ausente não encontra o consenso necessário sobre os valores morais e a força para viver segundo a pauta destes valores, também contra os próprios interesses” (13 de maio de 2007).
Ajudar, com seu testemunho, a construir essa unidade é uma tarefa primordial dos cristãos na atual conjuntura brasileira.
Francisco Borba Ribeiro Neto
Jornal "O São Paulo", edição 3157, 28 de junho a 4 de julho de 2017.

Uma justa compreensão da laicidade

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Daniela Jorge Milani é mestre e doutoranda em Filosofia do Direito na PUC-SP e advogada em São Paulo.

Estado laico não é estado antirreligioso ou ateu, não é hostil à religião ou censor de práticas religiosas em espaços públicos, não seleciona entre argumentos que podem e não podem ser debatidos publicamente, não exclui, não ergue muros!
São muitos os equívocos na compreensão deste instituto político-jurídico.
Primeiro, cabe dizer que não foi Cristo ou a Igreja que deu origem a um Estado fundido com a religião. Na verdade, desde a Antiguidade clássica era a religião que legitimava o poder familiar e civil. O poder temporal decorria do poder religioso. Não havia separação.
No Egito o Faraó era considerado o próprio Deus, portanto a obediência lhe era devida nesta condição. Nas famílias e tribos da Grécia e Roma antigas os primogênitos e herdeiros das fórmulas religiosas sagradasé que se tornavam seus chefes. Cidades eram fundadas a partir de um ritual religioso. Significa dizer que não havia divisão entre poder espiritual e civil, o poder era uno.
Jesus de Nazaré foi subversivo nessa questão, pois ao dizer: “A César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, retira do imperador parte de seu poder. Foi uma completa mudança de paradigma.
A Idade Média se caracterizou pela presença da Igreja na sociedade, tendo o Papa como representante de Deus na terra. Porém, a Igreja também sofria com esta situação, pois o ideal de submissão do poder temporal ao espiritual se transformou em ingerência do poder do império sobre questões internas da Igreja, reis nomeando e destituindo bispos e papas conforme interesses políticos. Evidente que isto gerou enormes abusos. Viu-se também o fenômeno do cesaropapismo, em que reis pretendiam anexar a seu poder civil o poder espiritual com o qual Cristo havia investido sua Igreja, pretendendo ser eles próprios os representantes de Deus na terra.
O início da Igreja no Brasil sofreu as mesmas interferências indevidas. O Estado era católico, confessional, isto é, a Igreja era completamente submetida à Coroa Portuguesa. Não havia autonomia dos bispos e padres. Diversos direitos eram restringidos a cidadãos não católicos.
Ao contrário do que se possa imaginar, a separação entre os poderes temporal e espiritual é totalmente aceito pela Igreja.
A laicidade do Estado garante não apenas a autonomia das esferas civil e religiosa, mas a igualdade de direitos entre os cidadãos independente de sua crença. Não significa, todavia, hostilidade em relação à religião ou supressão do âmbito público e da política de manifestações religiosas, da expressão dos cidadãos religiosos e das argumentações motivadas por crença em Deus. Esta seria uma visão ideológica de laicidade, parcial, , não neutra.
O verdadeiro Estado laico reconhece a liberdade de crença e não crença, acolhe e congrega, favorece o diálogo e a cooperação, faz parcerias em prol do bem comum, não nega acesso ao ambiente público e político por motivos religiosos a qualquer cidadão. Afinal a religião está presente com força na pós-modernidade, havendo quem fale em pós-secularização, isto é, na persistência da religiosidade e da fé, não obstante a promessa de libertação racionalista do Iluminismo e do cientificismo.
A diferenciação é imprescindível para não nos tornarmos um país laicista, excludente, que apenas tolera a religião e vê o cidadão religioso como alguém de menor importância e, em seu extremo, chega a proibi-lo de utilizar símbolos de sua religião em escolas, empresas e repartições públicas, como tem ocorrido na França.
Jornal "O São Paulo", edição 3157, 28 de junho a 4 de julho de 2017.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Armadilhas ideológicas numa realidade em crise


Continuamos a reflexão sobre quatro princípios esboçados pelo Papa Francisco na Evangelii Gaudium, nos detendo no terceiro: “a realidade é mais importante do que a ideia” (EG 231-233). Quantas vezes não percebemos no debate público, em aulas e palestras ou nas decisões governamentais que a realidade simplesmente não foi considerada, que uma ideia preconcebida, uma ideologia, se sobrepôs a ela! Entre os mais graves problemas do Brasil, estão os causados pelas vitórias das ideologias, de direita ou de esquerda, que não permitiram que se visse a realidade objetivamente, e por isso não se tomassem as decisões necessárias ao bem comum.
As ideologias são armadilhas enganosas, como que um “pecado original” da inteligência. Ninguém está livre delas. Os que mais condenam a ideologia dos outros, frequentemente querem apenas esconder a própria. A “antiideologia” não é um outro discurso, por mais inteligente e crítico que pareça. A alternativa à ideologia é sempre o amor à realidade, como Francisco tem demonstrado com seu exemplo.
Combater a ideologia não é condenar as ideias dos outros, ainda que mostrar o erro, esteja ele onde estiver, seja sempre necessário. Combater a ideologia é, em primeiro lugar, olhar para nós mesmos e, diante das dificuldades e desafios da vida e da conjuntura, perguntarmo-nos se agimos a partir de um olhar carregado de amor pela realidade e pelos que mais sofrem ou se agimos a partir de ideias preconcebidas, por mais sensatas que pareçam.
Vivemos uma crise que também é intelectual. Nos faltam pensadores e pensamentos para enfrentar os desafios atuais. Paradoxalmente, nesse contexto as ideologias tendem a ganhar uma sobrevida. Conhecemos seus erros e fracassos, mas a falta de alternativas nos leva a incorrer nos mesmos enganos e até reforçá-los. Os grandes pensadores não são aqueles que têm mais ideias, mas sim aqueles que conseguem olhar a realidade com mais atenção e amor – e desse modo encontrar respostas e caminhos onde outros só veem confusão e becos sem saída.
O apego à ideologia, contudo, não é uma questão intelectual. No fundo, trata-se de um problema moral: a realidade sempre nos tira de nossa “zona de conforto”, nos convida a um gesto concreto, a uma conversão tanto da inteligência quanto do coração. Com a ideologia, permanecemos fechados em nós mesmos, denunciamos populismos, neoliberalismos, individualismos, demagogias de outros, mas pouco fazemos para melhorar a nós mesmos.
Por tudo isso, o Papa nos lembra que a encarnação da Palavra tem um vínculo indissociável com a realidade (EG 233) e não pode pactuar com a ideologia.
Francisco Borba Ribeiro Neto
Jornal "O São Paulo", edição 3156, 21 a 27 de junho de 2017.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Viralização na internet: como levar um bom conteúdo mais longe

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Alexandre Ribeiro é doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e editor de Aleteia.org.

O site UpWorthy foi um dos primeiros a discutir abertamente o conceito de viralização de conteúdos nas redes sociais. Já em 2012, o website publicou um documento que falava de uma suposta “ciência da viralização”.
O UpWorthy afirma que a viralização deve ser parte da dinâmica de valorização de conteúdos de qualidade na Internet. Não se trata, portanto, de conquistar audiência a qualquer custo. Mas sim de integrar a ideia de viralização ao processo de elaboração de conteúdos de mídia digital.
Viralizar um conteúdo não se resume à sorte de ver uma publicação ultrapassar os padrões médios de leitura e compartilhamento, alcançando milhões de leitores. A viralização seria, na verdade, uma propriedade intrínseca dos conteúdos formatados para as mídias digitais. Ela deve permear todo o processo comunicativo. Desde a otimização do site, que se volta para a sociabilidade virtual, à seleção do conteúdo, estilo e “packaging” (“embalagem”) de distribuição.
O UpWorthy afirma que uma viralização depende de três elementos essenciais: conteúdo, enquadramento e compartilhamento.
Conteúdo - O primeiro passo é selecionar ou criar um bom conteúdo. Um bom conteúdo significa que é épico e tem elementos como: herói, vilão, emoção, significado valoroso e inspirador, timing. É ainda um conteúdo bem produzido, que traz informação útil e às vezes surpreendente; um conteúdo de valor, que toque a audiência de forma humana.
Enquadramento - O conteúdo deve ser formatado e enquadrado perfeitamente para o Facebook ou uma outra grande rede social. O título deve despertar curiosidade. O UpWorthy diz que os seus redatores chegam a escrever 25 títulos antes de definir qual irá no artigo. O título deve seguir algumas diretrizes, como: não dizer tudo; não dizer nada; não ser incômodo (favorecer que o usuário forme sua própria opinião); ser inteligente, mas acessível; e, acima de tudo, despertar a curiosidade.
Compartilhamento - Os usuários clicam e compartilham conteúdos que despertam neles uma destas duas reações: indignação ou felicidade. Por outro lado, deve-se evitar provocar tristeza ou relaxamento.
O método do UpWorthy revela a ênfase em procedimentos circunscritos ao âmbito de predeterminação da viralização. Condições iniciais favoráveis, como as que o website exercita colocar em suas publicações, aumentariam a probabilidade de um post viralizar. O UpWorthy foi bem sucedido em propor um diagrama de certas condições iniciais que aumentam a probabilidade de seus conteúdos viralizarem.
Mas isso não implica necessariamente a efetivação da viralização. Afinal, esta depende de muitas outras variáveis, sendo algumas delas impossíveis de medir, como, por exemplo, as escalas reais de distribuição de conteúdo pelo algoritmo do Facebook e de outras redes sociais em determinado momento, ou ainda a possibilidade de um influencer (uma celebridade, por exemplo) compartilhar o conteúdo, fortalecendo sua repercussão.
Além disso, o caráter preditivo do elemento viral deve-se inserir numa concepção científica de sociabilidade virtual. A predição científica não é uma profecia, mas sim o trabalho de elaborar teorias que tenham fundamento em informações fidedignas relacionadas ao estado de coisas atual ou passado. Isso exige o esforço constante de se colocar à prova hipóteses e se extrair tendências gerais que possam levar um bom conteúdo a uma ampla audiência.
Jornal "O São Paulo", edição 3156, 21 a 27 de junho de 2017.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Cracolândias da vida, entre o tempo e o espaço


Na Evangelii Gaudium, apresentando quatro princípios da doutrina social da Igreja, o Papa Francisco adverte: “o tempo é superior ao espaço” (EG 222-225).  O princípio se refere, na Exortação, à necessidade de se pensar o tempo necessário para a maturação dos processos sociais em lugar de se fixar na luta por espaços de poder.
Numa sociedade em crise política, como a nossa atual, compreender que no tempo acontecem os processos de definirão um novo Brasil, ainda que os poderosos se degladiem por espaços de poder, é animador e até consolador. Não podemos pensar adequadamente o momento atual, os desafios da política e as reformas necessárias sem o folego desse horizonte mais amplo.
Mas o tema recupera toda a sua riqueza quando o aplicamos ao desafio representado pela Cracolândia, o espaço ocupado pelos moradores de rua viciados em drogas na cidade de São Paulo.
As operações policiais realizadas na região nos últimos anos nos mostraram duas coisas. Em primeiro lugar, que a Cracolândia não é um território urbano dentro da cidade, é um espaço intangível, que inclui uma área urbana degradada, uma população sem rumos na vida, uma atividade criminosa que se aproveitou de um contexto favorável e um Estado omisso que deixou um problema social crescer até chegar perto do incontrolável. Em segundo lugar, que esse espaço não poderá ser controlado pelo simples uso da força, pelo exercício do poder. Só o tempo poderá mudar o espaço e eliminar a Cracolândia criada pela pobreza, a falta de perspectiva e a crise de sentido que afeta aquela população – e é bom salientar a crise de sentido e a falta de perspectiva, pois esses não são problemas exclusivos da classe média e dos ricos, pois atingem ainda com mais força e mais razão as populações empobrecidas e excluídas em nossa sociedade.
O tempo remete a outra palavra cara a Francisco, que aparece tanto na Evangelii gaudium quanto na Laudato si’: cuidar. A Cracolância é o resultado de uma sociedade que não soube cuidar dos seus quando isso era possível e agora enfrenta as consequências de seu descaso. Por isso, só o cuidado – ao longo do tempo – poderá resolver o problema desse espaço social.
A intervenção dos órgãos públicos na Cracolândia nem sempre será adequada, independentemente da boa ou da má vontade dos gestores. Mas nunca será satisfatória se for pensada como espaço de poder e não como processo de cuidar que acontece no tempo.
Gerar processos que construam um povo (EG 224): esse é o caminho para superar realidades aparentemente tão diferentes quanto a Cracolândia ou a crise econômica brasileira.
Francisco Borba Ribeiro Neto
Jornal "O São Paulo", edição 3155, 14 a 20 de junho de 2017.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O protagonismo da pessoa: ensinamento da Doutrina Social da Igreja

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Ana Lydia Sawaya é professora titular de Fisiologia da UNIFESP - campus São Paulo e é conselheira do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Há séculos a filosofia política estabeleceu uma confiança maior no Estado do que na pessoa. Nas vertentes autoritárias, isso justificou muitas das modernas ditaduras. Nas vertentes liberais, levou a uma confiança desmedida nas leis, como se a letra escrita fosse suficiente para criar a justiça na prática. É mais fácil pensar no ser humano como mau, egoísta ou incapaz de bem; e acreditar que toda vez que ele tiver oportunidade desfrutará, usurpará e tornar-se-á lobo do seu irmão. É muito difícil, hoje em dia, pensar que possa não ser assim. Essa visão negativa do ser humano está na origem da confiança no Estado (por vezes, absoluta!) como única garantia do bem e da justiça.
Mas esta não é uma visão cristã. A Doutrina Social da Igreja parte de outra visão antropológica e não abandona a confiança no ser humano como única origem real de mudança. Os cristãos sabem que a solução verdadeira para o bem comum é a religiosidade autentica e o amor ao próximo que brotam do coração do ser humano e não, antes de tudo, do controle do Estado. É verdade que o mal nasce no coração do ser humano, mas o bem também nasce nesse mesmo coração. Por isso, a Doutrina Social da Igreja tem como ponto de partida a centralidade, unidade e liberdade da pessoa. Diz que devemos partir da pessoa e de suas livres agregações antes que do Estado. É por isso que valoriza, antes de tudo, a família e os corpos sociais intermediários (as associações civis).
É absolutamente urgente e fundamental que nós católicos conheçamos e estudemos a Doutrina Social da Igreja. Esta é a nossa melhor contribuição para o país: que os católicos brasileiros ofereçam a todos a sabedoria de sua tradição. Se não o fizermos, quem o fará? Os brasileiros podem estar assim fadados a conhecer (e acreditar) somente em outras visões antropológicas, tão amplamente difundidas nas escolas brasileiras.
O Papa Francisco disse recentemente que o católico precisa se envolver com política e reafirmou que a política é a forma mais alta de caridade. O exercício da política vivida de forma cristã tem como ação o cuidar de todos e não só de si mesmo. Todos sabemos que nossos políticos atuais estão no espectro oposto ao que a tradição cristã entende como real ação política. Mas, e isso também é o fundamento da fé cristã, não podemos nem devemos nos resignar. Não há nada mais distante de Cristo do que a posição fatalista, negligente ou niilista.
Por fim, a Doutrina Social da Igreja diz que o caminho para o bem comum é reforçar a sociedade e não agigantar o Estado (como infelizmente ocorreu no Brasil).
“A comunidade política e a sociedade civil, embora reciprocamente coligadas e interdependentes, não são iguais na hierarquia dos fins. A comunidade política está essencialmente a serviço da sociedade civil e, em última análise, das pessoas e dos grupos que a compõem. Portanto, a sociedade civil não pode ser considerada um apêndice ou uma variável da comunidade política: pelo contrário, ela tem preeminência” ( Compêndio da Doutrina Social da Igreja, CDSI  418).
E ainda, “o Estado tem o dever de secundar a atividade das empresas, criando condições que garantam ocasiões de trabalho, estimulando-a onde for insuficiente e apoiando-a nos momentos de crise” (CDSI 351). (...) “uma intervenção direta (do Estado) excessivamente açambarcadora acaba por desresponsabilizar os cidadãos e produz um crescimento excessivo de aparatos públicos guiados mais por lógicas burocráticas do que pela preocupação de satisfazer as necessidades das pessoas” (CDSI 354).
Está é a mudança que o Brasil precisa urgentemente.
Jornal "O São Paulo", edição 3155, 14 a 20 de junho de 2017.