segunda-feira, 25 de abril de 2016

O realismo do Papa Francisco sobre a família

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Padre Denilson Geraldo, SAC, é professor da Faculdade de Teologia da PUC-SP e membro da Cátedra André Franco Montoro de DIreito da Família da PUC-SP. 

A Exortação apostólica pós-sinodal sobre o amor na família, Amoris laetitia, reúne os trabalhos dos Sínodos de 2014 e 2015, reflete uma hermenêutica de continuidade doutrinal sobre a unidade e a indissolubilidade matrimonial e apoia-se em trabalhos das Conferências Episcopais e em diálogo com personagens e elementos da cultura contemporânea.
 Ressalta a importância da inculturação do Evangelho da família como chave, potencialmente fértil, para encontrar soluções aos problemas atuais da família. Abandona a ideia de um impulso renovador sem premissas teológicas e eclesiais, evitando o engessamento da evolução de temas sobre a moral que sejam apenas a aplicação de princípios abstratos e desconexos da realidade.
A família não é um idealismo, e a Sagrada Escritura está repleta de famílias que se formam como uma “tarefa artesanal”. É preciso ouvir os apelos do Espírito Santo para o hoje da história, ao refletir sobre temas que se relacionam com a família: migração, sexualidade, ideologia de gênero, mentalidade antinatalidade, idoso, educação, economia, trabalho etc. De fato, que tema humano não está relacionado à família? É a instituição humana que melhor concretiza a interdisciplinaridade almejada pelas ciências. Por esse motivo, a formação e o aprofundamento sobre o tema deveriam entrar nas discussões escolares e universitárias, no diálogo político e cultural, religioso e científico. Esta é a concretude do tema; não uma lista de regras ou de condenações que leva a pastoral familiar e a reflexão teológica à virtude da humildade e a apresentar a família como “um caminho dinâmico de crescimento e realização”, formando as consciências, como pediu o Vaticano II na Gaudium et spes (n. 16).
Impressiona, na linha do realismo, como a Exortação apostólica desenvolve a prática das virtudes conectadas à evolução do amor matrimonial a partir do Hino da Caridade (I Cor. 13): paciência, serviço, cura da inveja, deixar a arrogância, amabilidade, desprendimento, perdão, alegria pelo bem do outro, desculpa, confiança, esperança e fortaleza.  A imagem de Cristo e da Igreja, refletida no matrimônio, não pode ser um peso, mas um caminho a ser percorrido com as virtudes, possibilitando que o laço matrimonial se renove na escolha recíproca. Daí que a família se torna sujeito na evangelização e presente na formação presbiteral, nos cursos de noivos, no acompanhamento dos casais jovens, nas situações complexas, na educação sexual voltada para o amor e a oblação que protegem do narcisismo e do consumismo, no acompanhamento acolhedor dos idosos e enfermos.
Com um coração de pastor misericordioso, o Papa propõe “acompanhar, discernir e integrar a fragilidade” com uma gradualidade pastoral, considerando os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes. Esta é a “lógica da misericórdia pastoral” que exige apresentar a Palavra do Cristo sobre o matrimônio e incentiva os fiéis a procurarem os seus pastores para falar, francamente, sobre o que vivem na vida familiar. Aos pastores o Papa, com um coração de pastor, pede que escutem o povo para poderem compreender o coração humano e “a Igreja conforma o seu comportamento ao do Senhor Jesus que, num amor sem fronteiras, Se ofereceu por todas as pessoas sem exceção.” (AL, 250).  
Uma espiritualidade conjugal e familiar faz-se com atitudes e nas celebrações sacramentais mas, também, nas alegrias, no descanso, nas dores, nos sofrimentos, na festa, na sexualidade, na educação dos filhos e no trabalho. Afinal, toda realidade humana está relacionada com a situação concreta das famílias.
Jornal "O São Paulo", edição 3098, 20 a 26 de abril de 2016.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

A necessidade de uma evangelização profunda que chegue à conversão dos costumes

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Ana Lydia Sawaya é professora da UNIFESP, fez doutorado em Nutrição na Universidade de Cambridge. Foi pesquisadora visitante do MIT e é conselheira do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Muito se tem falado que o combate à corrupção no Brasil depende da educação. Mas que educação? Será que basta aumentar a escolaridade? Bom, os corruptos que estamos vendo por aí tem inteligência, pois conseguiram galgar muitos patamares sociais, e muitos também têm alta escolaridade. Isso não quer dizer que a escolaridade média do povo brasileiro não esteja muito aquém do aceitável para um país que deseja se desenvolver economicamente; mas o aumento da escolaridade não é suficiente para levar um povo a desejar não trapacear quando tem oportunidade, roubar mesmo em pequenas coisas que parecem ter pouca valia, deixar de ser egoísta e oportunista e só pensar no interesse próprio.
O caminho para amar o bem comum é bem outro. O se colocar a serviço dos outros com alegria e generosidade, trabalhar de forma correta e eficiente, e o amor pelo bom fruto do próprio trabalho são atitudes que nascem de outra fonte: uma religiosidade profunda. Mas o que é essa religiosidade profunda que, São Bento ao fundar há 1500 anos atrás “uma escola de serviço ao Senhor”, também chama de “conversão dos costumes”?  No início de sua Regra de Vida, ele diz:
Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes? Se a essas palavras responderes ‘Sou eu’, Deus te dirá então: Se queres ter a vida verdadeira e eterna, preserva tua língua do mal e não profiram os teus lábios palavras enganadoras, desvia-te do mal e faze o bem; procura a paz e segue-a. Quando tiveres feitos essas coisas, os meus olhos porei em vós e os meus ouvidos estarão atentos às vossas preces, e antes que me invoqueis, direi: ‘Aqui estou’. (Prólogo, Regra de São Bento)
A religiosidade profunda, única capaz de levar à conversão dos costumes, nasce livremente na pessoa que encontrou o Senhor e experimenta, na relação com Ele, o caminho da felicidade. É fruto de um movimento livre para o bem porque a pessoa se sente segura num caminho onde ela já experimenta uma possibilidade real de felicidade. Faz o bem quem é feliz, diziam também os antigos filósofos.
É evidente como tantos dos nossos políticos, empresários, juízes e até cientistas e artistas não mostram um caminho de real conversão dos costumes, e estão muito longe disso. Seria superficial esperar que leis ou sistemas de governo, por mais eficientes que possam ser, sejam capazes de coibir atitudes tão distantes da busca do bem comum. Porque sempre haverá meios de burlar as regras e as leis. Da mesma forma, seria uma grande ingenuidade acreditar que basta mudar de partido ou de políticos para salvar o Brasil da corrupção. Há ainda que dizer que os que foram eleitos (e o serão), de certa forma, representam a ‘moral do povo’ sendo parte dela. L. Giussani, no livro O Eu, o poder e as obras (Editora Cidade Nova, 2001) explica que a política é a forma última da cultura. O ato político representa a expressão última da cultura e do agir de um povo.
A Igreja tem uma responsabilidade importantíssima no Brasil: dela, sobretudo, depende um trabalho de evangelização profunda, única capaz, de levar à conversão real dos costumes. Só assim o Brasil poderá vencer a corrupção sistêmica, a violência e a enorme desigualdade social. Mas, mais que tudo, dar a oportunidades a muitas pessoas de encontrarem a Cristo, único caminho para a felicidade plena e resposta adequada ao desejo mais profundo do coração.
Jornal "O São Paulo", edição 3097, 13 a 19 de abril de 2016.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

A Cruz como Anti-Símbolo

Ilustração: Sergio Ricciuti Conte
Eduardo Rodrigues da Cruz é professor titular do Departamento de Ciências da Religião da PUC-SP. 

Aproveito que a sexta-feira santa ainda está presente na nossa memória para fazer uma reflexão a respeito. Em particular, penso no que é dito na liturgia da tarde: “Eis o lenho da Cruz, do qual pende a salvação do mundo”. Associo essa lembrança a outra bem distinta, o fato de que muitos hoje criticam a presença de crucifixos em locais públicos, argumentando que representariam a adoção pelo estado laico de uma religião particular em detrimento de outras. O contra-argumento gira usualmente em torno de se respeitar a cultura do povo brasileiro, eminentemente católica, e que o símbolo da cruz faria parte dessa cultura. Acho esse argumento fraco, pois tende a se dissipar com a passagem do tempo. Os evangélicos, por outro lado, não se posicionam contra tal uso de crucifixos, ainda que suas igrejas desvalorizem símbolos, por que postulam que os supostos privilégios concedidos à Igreja Católica também sejam estendidos a eles.
Gostaria de propor outra razão para a manutenção do símbolo da Cruz nos espaços públicos, ainda que ela talvez não comova muito os corações laicos. Meu argumento é que a cruz da qual o Cristo pende é um anti-símbolo, e passo agora a explicar porque.
No início, a cruz era central na piedade cristã, ainda que não como símbolo. Além dos relatos do evangelho, temos como destaque as reflexões de São Paulo a respeito do mistério da cruz, presentes em especial em 1 Coríntios 1, 18-31 e Filipenses 2, 6 a 11. No primeiro caso, Paulo fala da Cruz como “escândalo para os Judeus [representantes da lei] e loucura para os pagãos [detentores da sabedoria]”. O versículo 20 pergunta, diante da Cruz, “Onde está o sábio, onde está o doutor da lei, onde está o raciocinador desse século?”. Entretanto, principalmente a partir de Constantino, o símbolo da Cruz surge para muitos como um de vitória e poder, e aos poucos vai sendo assumido como o símbolo por excelência do cristianismo. Com esse símbolo, muita violência e atos de poder se realizaram no mundo.
Os ilustrados do sec. XVIII, dos quais resultam os atuais laicistas, destacaram com força esse aspecto da cruz (com c minúsculo), e rejeitaram-na. Mesmo quando aceita, a cruz se tornou para eles um símbolo de uma fé específica, um entre tantos, sem nenhum valor de destaque, e por aí compreendemos a situação atual. Mas será que é o caso de nos resignar diante da situação?
Responderei com dois exemplos. Primeiro o de um tribunal que sustente uma Cruz na parede principal. Enquanto a justiça dos homens é feita, pende do lenho o Crucificado, que nos relembra de quanto o direito, mesmo no que tem de melhor, realiza e não realiza a justiça que todos aguardamos. “Algo falta”, mesmo quando se cumpriu o processo legal. Mas “A maldição da lei” de São Paulo (Gálatas 3, 13) é levantada quando o Cristo é pregado no Madeiro—o símbolo de maldição torna-se o símbolo de salvação.  No segundo exemplo, temos o crucifixo que pende da parede do Congresso. Novamente, o crucificado contempla tudo o que ocorre no plenário, toda a ambivalência e amoralidade da política, mesmo entre os melhores congressistas. Como já se fala nos evangelhos, o poder “desse mundo” está ligado a interesses inconfessáveis, e mesmo quando o político busca a justiça (como na visão idealizada de Pilatos diante de Jesus) termina por perpetuar a obra do diabo.
Assumindo-se que todo símbolo remeta ao poder espiritual que sacraliza o que é feito à sua sombra, a Cruz surge como anti-símbolo. Assim, ela pode ser tomada como símbolo universal, não ligado a uma religião particular. Diante da Cruz, a iniquidade humana se revela e, no mesmo ato, também é redimida.

Jornal "O São Paulo", edição 3096, 6 a 12 de abril de 2016.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

“Avança mais para o fundo” (Lc 5,4)

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte

Ulisses Leva é padre secular e professor de História da Igreja da PUC-SP, defendeu tese de doutorado junto à Pontifícia Universidade Gregoriana com o título " O clero secular italiano na reforma da Diocese de São Paulo no Episcopado de Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho (1876-1894)".

Na Edição 3091 de “O São Paulo” (2 a 8 de março de 2016), na seção Encontro com o Pastor, Dom Odilo Pedro Scherer perguntava “Que tal um sínodo arquidiocesano?”. O cardeal explica “Por qual motivo deveríamos pensar um sínodo arquidiocesano em São Paulo? Refletindo sobre a realidade da nossa arquidiocese, suas estruturas pastorais, com as regiões, vicariatos episcopais e setores pastorais, sobre a coordenação pastoral no seu conjunto e os diversos organismos de animação pastoral [...] Não teria chegado o momento de uma grande avaliação e, quem sabe, para novas opções, organizações e práticas na evangelização e na animação pastoral? [...] Que tal refletirmos juntos sobre a proposta da realização de um sínodo arquidiocesano? Ainda não se trata de uma decisão tomada; antes de uma decisão, desejo ouvir a Arquidiocese a esse respeito”.
Como lembra Dom Odilo, São Paulo já teve um Sínodo Diocesano, realizado por Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, bispo da Diocese de 1873 a 1894. Em 1888 realizou o Sínodo Diocesano, apresentando as resoluções dos Concílios Ecumênicos de Trento (1545-1563) e do Vaticano I (1869-1870). As diretrizes do Sínodo delineavam a dinâmica da vida eclesial em São Paulo e a visibilidade da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica na Diocese Paulista.
Apesar da vastíssima Diocese, que abrangia na época São Paulo, Paraná e parte de Minas Gerais, seu pastoreio foi muito rico para a Igreja em São Paulo. Preocupou-se com as vocações sacerdotais, realizou muitas Visitas Pastorais, erigiu Paróquias e Santuários, tal como, o do Senhor Bom Jesus de Monte Alto, escreveu 21 Cartas Pastorais. Teve postura firme e decidida para orientar e conduzir sua grei, abraçou os quantos ajudavam no crescimento espiritual da Diocese. O Sínodo Diocesano buscou orientar as diretrizes para a São Paulo no século XIX e, mesmo não tendo sido publicado, seu pulsar foi marcante. A Diocese de São Paulo aproximou-se mais com a Igreja de Cristo Jesus presente em Roma, quer na Catolicidade quanto na Unicidade.
A Igreja no Brasil não se habituou a Sínodos, diferentemente da América espanhola. Em 12 de junho de 1707, Solenidade de Pentecostes, ocorre na Bahia, o Primeiro Sínodo realizado por Dom Sebastião Monteiro da Vide, para traçar metas pastorais, resultando, nas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia.  Em São Paulo o Sínodo Diocesano aconteceu em 1888, tendo como finalidade estabelecer a disciplina da Santa Igreja. Em 1890, o Episcopado Brasileiro reúne-se em São Paulo, para encontrar orientações pastorais após o advento da Proclamação da República.
Sentindo sempre com a Igreja, impulsionados pelo Espírito Santo e orientados pelos Documentos Conciliares do Vaticano II, Dom Odilo, continuou no seu artigo: “O sínodo está presente na vida das Igreja particulares, ou dioceses [...] Conforme revela o próprio significado do conceito, o ‘sínodo’ é um caminho feito em comum, feito juntos, na mesma direção. Nada mais próprio da Igreja de Cristo, que é sempre orientada por essa intenção fundamental da unidade, da comunhão e da corresponsabilidade [...]. Seja, pois, uma proposta o Sínodo Arquidiocesano como convocação, participação, discernimento, letra e espírito vivos. ‘Sê pastor das minhas ovelhas’ (Jo 21, 16)”.
Jornal "O São Paulo", edição 3095, 30 de março a 5 de abril de 2016.

segunda-feira, 28 de março de 2016

O que o Brasil precisa

Editorial do jornal O São Paulo, ed. 3094, de 23 a 29 de março de 2016.

Segundo a tradição de algumas religiões antigas, quando alguém estava em perigo grave da própria vida, podia recorrer à proteção “divina”, escondendo-se em um templo. Assim a pessoa se colocava sob a proteção da divindade e não podia ser tirada do templo. Nesse caso, nem a justiça e nem a vingança podiam ser executadas enquanto durasse o asilo divino.
Esse recurso era uma alternativa para quem não estivesse em condições de provar a sua inocência, ou de outra forma, para quem estivesse próximo de sofrer um castigo que excedesse a violência do próprio ato. Nos dois casos, o que estava em jogo era o princípio da justiça e não a conivência da divindade.
Os avanços sociais e o desenvolvimento dos mecanismos punitivos e legais, criados pela sociedade, provocaram uma mudança no jeito de fazer justiça. Foram criadas formas processuais e tribunais especializados em diferentes níveis - locais, regionais, nacionais e até mesmo internacionais. O uso de novas tecnologias e o conhecimento científico avançado deram novo impulso aos mecanismos legais. Hoje é possível obter provas residuais de um crime com uma precisão cada vez maior, por meio de impressões digitais, de exames de DNA, de escutas telefônicas, restos de documentos impressos ou digitais. Na prática, quase tudo pode ser submetido a uma perícia, para se tornar prova num processo.
Numa situação em que o Estado é laico, como é o caso do nosso País, é perfeitamente claro que os processos pelos quais se chega a fazer justiça devem ser imparciais e precisos. Refugiar-se no “Templo” não é mais uma opção. O interesse da justiça deve prevalecer em todos os âmbitos. Mas entre as engrenagens desses processos legais, foi criada uma saída, ou melhor, uma entrada para um tipo de “Templo moderno”, onde também se garante proteção. Esse recurso conhecido é chamado de “foro privilegiado”.
Segundo essa prática, quem está exercendo um determinado cargo recebe o benefício de não ser julgado como todos os demais. Nesse caso, se resguarda o ofício, mas se instala uma exceção no princípio da igualdade, garantido pela nossa Constituição federal, que afirma que todos são iguais e sem distinção de qualquer natureza, perante a lei.
Esses “Templos modernos” são muitos e são servidos por “sacerdotes” e “sacerdotisas”, que ganham o benefício da proteção para si ou o invocam para os seus afiliados. Para que toda a sociedade tomasse consciência da extensão e da conveniência desse benefício, foi necessário acontecer uma grande agitação popular.
Mas por tudo isso, parece que chegamos ao tempo de uma verdadeira mudança, de uma metanoia no pensamento e nas atitudes. Não precisamos de novos heróis, que venham para substituir os antigos, perpetuando os esquemas de sempre. A crise política atual é fruto de uma situação semelhante e é também uma ocasião que se abre em duas possibilidades.
De um lado, podemos nos debater acirradamente, defendendo dois movimentos opostos e carregando bandeiras de corres diferentes. Cada lado enxergando a justiça, o direito e o golpe sob o seu ponto de vista e tentando todos os meios para influenciar e formar a opinião das massas. Nessa luta, os vencedores serão os mesmos, e também os vencidos. Os dois lados dizem que estão lutando para manter os direitos sociais, e até fazem propostas de ampliação, mas em nenhum momento se viu a proposta uma reforma que leve à perda dos privilégios. As lideranças continuam resguardadas. Na prática, o resultado final será a manutenção do sistema, com a troca de lugares entre governo e oposição.
Por outro lado, temos a possibilidade de iniciar um processo de mudanças, na ética pública e do comportamento social. As instituições e os poderes - Executivo, Legislativo e Judiciário - existem para promover e garantir o desenvolvimento e o bem-estar do povo. As pessoas que trabalham nessas repartições são servidores públicos e devem prestar contas de seus atos a toda sociedade, sem privilégios ou obstáculos para a execução da justiça. Quanto mais transparentes as relações de governo e quanto mais éticos os servidores, mais fortes serão as instituições, e por isso é tão urgente uma reforma ética na vida pública.
Mas essa reforma não pode avançar se antes, também, não avançar uma reforma na conduta social e pessoal de toda a população. Não podemos continuar buscando obter vantagens e lucros pessoais nas pequenas coisas à nossa volta. Quem fura uma fila de banco ou no trânsito, quem passa e quem recebe notas fiscais frias, quem compra ou revende mercadorias de origem duvidosa ou falsificada, e quem sempre acha um jeito de tirar vantagens de uma situação qualquer, é tão corrupto como aqueles que superfaturaram contratos ou que cobraram propina.
O que vemos hoje pelos jornas e noticiários, com tristeza, é uma nação dividida pelas manifestações. Em nome da justiça e da igualdade, cada lado repete um gesto patriótico, cantando o hino nacional, cada qual defendendo sua ideologia ou seu partido. Não será apenas um desfile de atores e atrizes principais, rodeados por coadjuvantes? O único gesto, verdadeiramente patriótico, que poderá mudar o destino do país é dizer NÃO a todo tipo de corrupção.

Leia Também:

O Brasil entre o confronto e o diálogo.
Francisco Borba Ribeiro Neto

segunda-feira, 21 de março de 2016

Saneamento básico para todos. O sonho de ter um banheiro.

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Gilmar Altamirano é publicitário, especialista em meio ambiente e sociedade e diretor presidente da ONG Uniagua (Universidade da Água).

Desde 1963, as Campanhas da Fraternidade têm sido importante instrumento de evangelização e cidadania. A Campanha da Fraternidade de 1979 foi a primeira a abordar a questão ambiental e a água, principal agente da vida e do saneamento básico, com o tema: “Preserve o que é de todos”. Posteriormente, em 2004, a água é abordada mais diretamente numa das campanhas que mais mobilizaram as comunidades com o tema “Água. Fonte de Vida”. Este ano a campanha toca num dos principais problemas brasileiros: a falta de saneamento básico, com o tema "Casa comum nossa responsabilidade".
Com um tempo curto de articulação e veiculação da campanha, 40 dias da quaresma, o grande desafio é conseguir o pleno entendimento da mensagem, gerar consciência e, principalmente, provocar a ação. Infelizmente, boa parte das pessoas se move na vida com o “piloto automático” e apenas uma pequena parte se engaja realmente nas causas sociais e está propensa a mudar o comportamento e agir efetivamente. A maioria não quer ou não sabe o que fazer para mudar a situação. E como cita a própria CNBB “um problema específico que exige a participação de todos na sua solução", a mobilização não pode ser pontual, mas coletiva.
Uma mobilização coletiva pressupõe: identificação das barreiras para mudança, ouvindo a comunidade-alvo e qual a percepção desta comunidade sobre o problema e as possibilidades de mudar a situação.
Se fizermos uma pesquisa nos surpreenderemos com quantas pessoas sabem de alguma coisa sobre o problema da falta de saneamento ambiental, mas não sabem o que fazer a respeito. A questão estruturante: Investimento em obras de saneamento não acompanharam o crescimento da população. A questão não estruturante: gestores públicos não ensinam a importância e como usar a obra de forma sustentável.
Mesmo onde há rede de esgoto, muitos não ligam suas moradias às essas redes. Às vezes, por não darem o devido valor por desconhecerem, em parte, que esgotos a céu aberto são as principais causas de epidemias.
Como diz o rap “Castelo de Madeira” (composto pelo grupo “A família”, em 2004):

Coisa de louco, abrir a janela e ver no esgoto
Cachorro morto, sentir o mau cheiro e o desconforto
E junto com a lama, o drama, a sujeira
"Brasilite" no calor é um inferno, mó canseira [...]

Sonhei com tudo isso a vida inteira
Realizei meu sonho, meu castelo de madeira.
E é treta todo dia, todo dia, o dia inteiro
Só falta construir um banheiro.


O “Castelo de Madeira” é o barraco na comunidade e a música trata bem a falta de saneamento e dignidade humana que prevalece principalmente na periferia das cidades brasileiras.
Entretanto, uma coisa é termos consciência que “fumar pode provocar câncer”, outra coisa é “agirmos para parar de fumar”. É necessário identificar as barreiras para a ação, a partir daí desenvolver a campanha para ajudar a população a enfrentar o problema com orientações do que pode ser feito. Não cabem soluções impostas por decisões de gabinete. A Igreja já ensina: é fundamental ouvir as pessoas.
Antigamente, nas pequenas comunidades, por meio dos diálogos nos confessionários, os párocos podiam ter uma ideia mais clara de quais eram os conflitos mais frequentes enfrentados pelos fiéis e assim podiam dirigir melhor a mensagem do sermão.
Por isso, não basta a consciência, temos que encontrar o que dizer e o que fazer para mudar.
Jornal "O São Paulo", edição 3093, 17 a 22 de março de 2016.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Três anos de Francisco, a 50 anos do Concílio

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Francisco Borba Ribeiro Neto é coordenador do 
Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Domingo, 13 de março, é o terceiro aniversário da eleição do Papa Francisco. Nesta data, não é necessário comentar sua força renovadora, o peso político de seu compromisso com os pobres e o meio ambiente, ou sua preferência por uma Igreja que, nas palavras de São João XXIII, “usa mais o remédio da misericórdia que o da severidade” (cf. Misericordiae Vultus). Muito se tem escrito também sobre a relação entre Francisco e o espírito do Concílio Vaticano II, o grande evento renovador da Igreja contemporânea.
Qual é o significado dos quase 50 anos que separam o final do Concílio (1965) da eleição de Francisco (2013)? Hoje, para nós, é até difícil imaginar o clima político e cultural do pós-Concílio e seu impacto sobre a comunidade cristã da época. Ditaduras de direita na América Latina, ditaduras comunistas na Europa Oriental, o furor revolucionário terceiro-mundista e a utopia hippie – tudo prestes a se desconstruir no pragmatismo político-econômico do mundo globalizado, a se dissolver na fluidez ideológica da pós-modernidade.
O Concílio aconteceu sob o signo da secularização. Parecia evidente que as religiões eram coisa do passado, resquícios de uma humanidade ignorante e supersticiosa. Na própria comunidade católica muitos pensavam que o “aggiornamento”, a atualização, passava necessariamente pela adoção dos valores da Modernidade e das regras do universo político laico (que bania as religiões para um espaço privado e intimista); pela eficiência assistencialista ou política da Igreja (transformando-a na ONG sem Cristo criticada por Francisco no início de seu pontificado).
Nestes 50 anos, nem sempre o esforço da Igreja para afirmar o vínculo inevitável entre o ser humano e seu Criador foi adequadamente reconhecido. Leituras ideológicas, a esquerda e a direita, desfiguraram tanto a mensagem dos papas quanto o testemunho de muitos santos comprometidos com os mais pobres e com a vida. A consolidação da Igreja no pós-Concílio exigiu um grande esforço para se reconhecer sua origem mística em Deus, se aceitar uma lógica que não era a da Modernidade.
Mas, ao longo do tempo, o otimismo quanto aos potenciais da ciência, do humanismo agnóstico, da revolução utópica ou do mercado deram lugar a profundas decepções, ao pragmatismo sem ética e à perda dos ideais daqueles luminosos anos ’60.
Agora, assistimos muitos casos de renovação das religiões e da busca mística das pessoas. Alguns poderão criticar, por exemplo, o exotismo de certa espiritualidade ao estilo new age ou a intransigência de grupos tidos como fundamentalistas. Mas, 50 anos depois do Concílio, a pessoa sincera pode reconhecer ainda com mais facilidade a exigência de Deus inscrita no coração humano.
Aos cristãos parece muitas vezes que o mundo é cada vez mais hostil à fé. Mas isso não é verdade. O poder, cada vez mais despersonalizado e despótico no mundo atual, realmente tenta afastar-nos cada vez mais de Deus. Mas, quanto mais o poder tenta afastar Deus do coração da pessoa, mais esta sente a Sua falta.
Contudo, para que esta falta possa ser suprida, é preciso explicitar a força da misericórdia, de um coração que se percebe pecador, mas amado por Deus mesmo assim. Esta é a raiz oculta do encanto que o Papa Francisco exerce sobre o mundo.
Quem lê seus testemunhos pessoais em O nome de Deus é misericórdia (Planeta, 2016), compreende como este diálogo entre o coração contrito do pecador e o coração misericordioso de Deus pode criar, com Francisco, a demonstração eloquente de que a Igreja porta a resposta verdadeira também para o homem de hoje.
Jornal "O São Paulo", edição 3092, 10 a 15 de março de 2016.