quarta-feira, 9 de maio de 2018

A violência e o perdão


Ana Lydia Sawaya, professora titular de Fisiologia da UNIFESP - campus São Paulo e é conselheira do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

O Brasil está na lista dos países mais violentos do mundo. No ano passado foram assassinados 60 mil brasileiros. Por que? Atribui-se à instabilidade econômica, ao desemprego, e à desigualdade de oportunidades. Um grande estudioso sobre violência relata que esta não explode por causa da pobreza, mas devido à percepção de injustiça. Ou seja, a violência explode onde as pessoas percebem, com clareza, que estão sendo excluídas daquilo que a sociedade considera um valor e um bem para si. Por isso, é a percepção de exclusão e injustiça que faz explodir a violência.
O Brasil não é particularmente pobre - é uma economia emergente. Sua riqueza, porém, é extremamente mal distribuída. Sabe-se também que um dos fatores que mais influência a má distribuição de riqueza é a qualidade da educação. E é exatamente neste quesito que o Brasil mostra péssimas estatísticas. Não tem havido melhora na qualidade da educação no país e, em proporção a outros países, tem havido piora.
Outro dado impressionante e que também está associado a este quadro geral é a grande mudança que vem ocorrendo do ponto de vista religioso. Há algumas décadas atrás os brasileiros diziam-se católicos em 90% dos casos. Este número caiu para 50% segundo as últimas estatísticas, enquanto a proporção dos que se tornaram evangélicos aumentou 61% nos últimos 10 anos. É evidente, portanto, a grande instabilidade e insatisfação que está ocorrendo na experiência religiosa dos brasileiros. Mas há um dado novo ainda mais exemplificativo desta sociedade em profunda mudança e crise. O número de evangélicos tem decrescido nas regiões onde primeiro se expandiram como a região Sudeste e o número de evangélicos que hoje se declaram não praticantes chegou a 4 milhões de pessoas nas últimas estatísticas.
É inegável, portanto, as dificuldades que tantos brasileiros tem encontrado para achar uma casa que os acolha na profundidade de sua vida e de seu ser, e na resposta aos anseios mais profundos do seu coração. A experiência religiosa parece uma zona movediça e insegura que faz milhões de pessoas buscarem e correrem para lá e para cá, indo de igreja em igreja, do pastor A para o B ou C, de uma paróquia para outra, em busca de algo profundamente sólido, seguro, e que os ajude a viver. Algo, sobretudo que lhes dê o sentido para viver.
Ainda podemos descrever um nível mais íntimo da vida das pessoas e que também está profundamente em crise e pertence a essa areia movediça que engole a tantos: a perda da segurança familiar, e consequentemente social e econômica. Quantos jovens não vão para o tráfico porque seu “novo grupo” substitui sua família, gerando laços fortes e promessas reais de inclusão na sociedade de consumo pelo dinheiro fácil, que não precisa de uma boa escola, nem entrar no mercado de trabalho.
O que fazer diante deste quadro cada vez mais claro e estabelecido que faz alguns estudiosos relatarem que o Brasil pode estar sofrendo um processo descivilizatório (ou seja, está indo para trás em termos de civilização)?
O que podemos fazer nós que somos católicos? Repercorrer o caminho dos primeiros cristãos. Reconstruir comunidades de leigos onde o amor e o perdão sejam experiências reais, possíveis de serem encontradas e experimentadas. Comunidades onde se compartilhe a vida real, as alegrias, as tristezas, as dificuldades econômicas, se ajude os casais a viver seu casamento e a educar seus filhos. E onde a mensagem de Cristo e seu anúncio de perdão e amor possam ser vividos comunitariamente no dia a dia.
Jornal "O São Paulo", edição 3191, 21 a 27 de março de 2018.

O número de mortes maternas justifica a liberação do aborto no Brasil?


Elizabeth Kipman Cerqueira, médica ginecologista-obstétrica, especialista em Logoterapia, coordenadora do Departamento de Bioética do Hospital São Francisco, em Jacareí/SP.

Constantemente, ouve-se de autoridades públicas que o aborto deve ser liberado no Brasil por ser uma questão de Saúde Pública.
O Ministério da Saúde apresenta, para vinte anos (de 1996 a 2016), um total de 21.057.085 mortes na população brasileira, incluindo homens e mulheres de todas as idades. O número de mortes só do sexo feminino, foi de 8.925.579. Todas as mortes referentes à gravidez, parto ou aborto até 45 dias após o término da gestação são agrupadas na categoria denominada MORTE MATERNA, com o total de 34.348 casos (0,38% das mortes do sexo feminino). Destas, a maioria está ligada ao atendimento deficiente no pré-natal e no parto. O total de mortes por aborto foi 2.767 (0,03% das mortes do sexo feminino) aí incluídos motivos diversos não ligados ao aborto provocado e clandestino como gestação ectópica, mola hidatiforme e outros. Se forem computadas apenas as mortes por falha na tentativa de aborto (aborto clandestino) e mesmo adicionadas às causas não especificadas neste item, chega-se ao número de 1.251 mortes (3,64% das MORTES MATERNAS).
Não deveria ocorrer nenhuma morte possível de ser evitada, porém essas cifras indicam a manipulação de informação quando se quer indicar a liberação indiscriminada do aborto por ser uma questão de Saúde Pública, sobretudo considerando que essas mortes poderiam ser evitadas com prevenção, orientação, acolhimento e atendimento integral à mulher surpreendida por uma gestação indesejada. Além disso, no total, as mortes maternas exigem atenção especial ao pré-natal, parto e puerpério.
A indicação de proteção da mulher abrange todas as idades, sobretudo onde existe maior vulnerabilidade. O próprio site DataSUS - Sistema de Informações sobre Mortalidade - apresenta 534.609 MORTES DE MENINAS ATÉ OS 5 ANOS no mesmo período de 20 anos no Brasil. Dessas, existe a cláusula ÓBITOS POR CAUSAS EVITÁVEIS EM MENINAS ATÉ 5 ANOS: 358 341. Como causas possivelmente evitáveis, mais 125 707. Números que somam quase 500.000 mortes de meninas que poderiam ter sido evitadas! Observe-se que aí NÃO estão incluídas: desnutrição, atenção inadequada ao parto, sífilis congênita, verminose, tuberculose, tétano – doenças que exigem ações de Saúde Pública. São todas mulheres cujas mortes deveriam ter sido evitadas!!!
Outro argumento usado tem sido o custo das internações no SUS decorridos de abortos clandestinos. Mesmo ignorando os números que servem de base para esses cálculos, sabe-se que os países como EUA, Canadá ou Reino Unido que liberaram o aborto assumiram gasto impossível de ser financiado pelos cofres públicos, sem considerar os problemas (imediatos, médio e longo prazo) de saúde decorrentes do próprio aborto provocado para a mulher, mesmo quando realizado em hospital. 
O número de mortes maternas não justifica a liberação do aborto no Brasil sob a alegação de problema de Saúde Pública. É preciso que se contemple a verdade para descobrir o erro!

terça-feira, 20 de março de 2018

Celebrando o dia da Mulher

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte

Angela Vidal Gandra Martins é Doutora em Filosofia do Direito (UFRGS)/ Sócia Advocacia Gandra Martins/Membro da Academia Brasileira de Filosofia.

A celebração do dia da Mulher é sempre uma ocasião de reflexão sobre o seu papel e o motivo pelo qual é destacada.... De fato, não há o dia do homem.... Há, portanto, uma diferença antropológica natural, ainda que goze da igualdade de direitos e oportunidades devida a cada ser humano.
Pensando no que queria compartilhar em torno desse dia, deparei-me com um texto de Fulton Sheen, filósofo americano muito profundo, mas prático, que, embora longo, gostaria de transcrever: “Imagine uma orquestra no palco diante de um maestro famoso que regerá uma linda sinfonia composta por ele mesmo. Cada membro da orquestra é livre para seguir o maestro e assim contribuir para a harmonia. Mas cada membro é também livre para desobedecer ao maestro. Suponha que algum dos músicos deliberadamente toque uma nota falsa e induza a violinista ao lado a fazer o mesmo. Ouvindo o desafino, o maestro poderia seguir duas alternativas: levantar a batuta e ordenar que recomeçassem a tocar ou ignorar o acorde destoante. De qualquer forma, sua atitude não faria nenhuma diferença visto que aquele acorde já foi para o espaço atingindo uma altura de mil e cem pés por segundo, seguindo adiante e afetando a infinitesimal pequena radiação do universo. Como uma pedra caída no lago causa uma ondulação que afeta a mais distante zona costeira, esse acorde afeta até mesmo as estrelas...Em algum lugar nesse universo de Deus soará essa desarmonia”.
Como a filosofia deseja estudar o mais profundo do ser, é óbvio que deve abrir-se à realidade tal como é intrinsecamente - the way things are -, como expressa o jusfilósofo Lon Fuller. Nesse sentido, li também recentemente uma narrativa em um periódico australiano que contava a história em quadrinhos de um pato que quis fazer uma operação para tornar-se ganso...
Partindo desses exemplos gráficos como inspiração, pensava em como a sociedade poderia ser se a mulher vivesse como tal; fosse respeitada como tal; amasse como tal;  vivesse seu destino antropológico maternal como tal; se lhe fosse totalmente permitida a prestação de sua original contribuição profissional em harmônica somatória de luzes; se se fizesse valer pelo que é, sem comparações e oposições, mas sim através da afirmação e maximização de sua unicidade  feminina..., ou seja, se cada mulher se decide a viver com profundidade seu papel na sinfonia sendo simplesmente e totalmente mulher e  trazendo sonora harmonia a toda sociedade através de sua contribuição única...
Utopia? Definitivamente não, já que a força da natureza - a força do ser! - é infinitamente maior do que a do não ser. Parabenizo, portanto a cada mulher por suas lutas positivas, convidando também a cada uma, e também a toda comunidade masculina, a refletir em como vivem - identidade -, e oferecem o espaço - reconhecimento - para que cada mulher seja cultivada e possa se realizar plenamente como tal, de forma que seus acordes harmonizem novamente a sociedade ecoando perenemente através do espaço e dos tempos.
Jornal "O São Paulo", edição 3190, 14 a 20 de março de 2018.

Cinco anos do Papa Francisco


Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs.

Gestos, visitas e ações que valem uma encíclica. Esta poderia ser uma fórmula sintética de sublinhar os cinco anos do pontificado do Papa Francisco. Eleito à Cátedra de Pedro no dia 13 de março de 2013, Jorge M. Bergoglio, a bem dizer, logo passou a usar uma linguagem de sabor popular, com os pés no chão e as mãos estendidas. Gestos simbólicos, sem dúvida, mas sobretudo marcados pela presença de um pastor fortemente temperado por uma espiritualidade radicada na Palavra de Deus e na comunhão com o próximo.
Mas o contrário também é verdadeiro: um voo de pásaro às cartas encíclicas Lumen Fidei (2013) e Laudato Si’ (2015), bem como à exortação apostólica Evangelii  Gaudium (2013) ou a seus discursos e mensagens em geral, bastará para dar-se conta que seus escritos costumam ser tão simples quanto profundos, tão concretos quanto um olhar, um toque, um abraço, um ouvido atento, uma presença amiga. Vem à tona a figura evangélica do bom pastor que conhece suas ovelhas e estas conhecem sua voz (Jo 10,1-21).
Na prática do pontífice, os relatos evangélicos e a Boa Nova de Jesus Cristo possuem primazia absoluta, tanto em seu modo de falar quanto em seu modo de agir. Como o Mestre, sabe comunicar-se com as multidões – na Praça São Pedro, em Roma, ou nas visitas pelos diversos países – mas, ao mesmo tempo, é capaz de deter sua caravana quanto alguém grita por “compaixão” (episódio dos dez leprosos – Lc 17,11-19) ou o  “toca” de mais perto (mulher que sofre de fluxo de sangue – Mc 5, 25-34), porque o desespero é maior.
Por outro lado, a familiaridade com o Evangelho leva o Papa Francisco a igual vizinhança com os mais necessitados. A esse respeito, alguns gestos marcaram de forma particular a sua ação. No campo das migrações, por exemplo, visita as ilhas de Lesbos (Grécia) e Lampedusa (Itália), além da fronteira entre México e Estados Unidos. Acolhe em sua casa e em sua mesa o povo da rua. Tem visitado hospitais, casas de refugiados e presídios, inclusive lavando os pés dos prisioneiros. Manifesta um carinho especial para com doentes, as crianças e pessoas aflitas, chegando a telefonar-lhes ou responder suas cartas.
Uma volta às fontes! Talvez esteja seja uma outra forma de resumir o pontificado do Papa Francisco. Fontes entendidas aqui como a novidade do Evangelho, a Doutrina Social da Igreja e a situação concreta em que vive e se move a população mais pobre e indefesa. Daí sua insistência em passar da “globalização da indifereça e da economia que mata” à “cultura da solidariedade”.
Jornal "O São Paulo", edição 3190, 14 a 20 de março de 2018.

Liberdade de escolha e dilemas éticos


Elis Lavanholi é bacharel em Tradução - Línguas Inglesa e Espanhola.

A paixão pela liberdade é um aspecto muito positivo da cultura contemporânea. Afinal, se não fôssemos livres, não poderíamos amar. A liberdade, bem orientada, revela o melhor de cada um de nós.
Porém, a cultura contemporânea é também influenciada por correntes de pensamento que confundem a liberdade com uma espécie de impulso arbitrário. A lógica é simples: o prazer nos satisfaz, é útil; devemos honrar nossos desejos, pois somos livres.
Porém, é preciso refletir sobre as consequências das escolhas na vida pessoal e na vida social, pois o ser humano vive em sociedade. E nesse contexto de valorização da liberdade – mesclada com as máximas do individualismo e do hedonismo -  alguns temas presentes no debate público ganham contornos polêmicos e polarizados. Tudo depende da noção de liberdade de escolha.  

Afinal, a liberdade de escolha é soberana?

As pessoas, de modo geral, baseiam suas opiniões e escolhas nas informações disseminadas pela grande mídia. Os meios de comunicação, contudo, tendem a retratar os assuntos – quaisquer que sejam as suas nuanças - a partir de uma perspectiva dualista, binária e simplória: liberal versus conservador, flexível versus intolerante, vítima versus opressor. Além de inconsistentes, tais dicotomias negligenciam aspectos fundamentais para o entendimento da realidade.
Constata-se, por exemplo que no debate de temas como o aborto, o soberano argumento da “liberdade de escolha” desqualifica antecipadamente posições contrárias, como se essas fossem de per si intolerantes ou fanáticas. Os mais prejudicados por essa pobreza de argumentação são as próprias mulheres, até mesmo adolescentes, que carecem de informações precisas para tomarem decisões melhor fundamentadas, não precipitadas. As consequências físicas e psíquicas do aborto, para a mulher que o pratica, estão documentadas. O peso da cultura machista, o abandono, que pressiona e induz ao aborto, é fato notório, reforçado e facilitado pela legislação permissiva do aborto. A morte de seres humanos inocentes é real. Porém, não há debate. 
Outro exemplo ilustrativo é a discussão atual sobre pessoas transgêneras – i.e., que não se identificam com seu sexo biológico. Por um lado, há o argumento de que o indivíduo é livre para decidir o que fazer com seu corpo. Porém, a Universidade John Hopkins (Boston), que há vinte anos foi pioneira nessas cirurgias abandonou a prática. Por quê?  As mesmas trazem consequências físicas e psíquicas irreversíveis, e os distúrbios emocionais anteriores não eram aliviados por elas. Constatou-se alto índice de suicídio entre as pessoas que a elas se submeteram. Além disso, em se tratando de crianças, pesquisas científicas apontam que a maioria daquelas identificadas com “disforia de gênero” não continuam com o transtorno após a puberdade. Tais pesquisas e experiências mereceriam entrar no debate, mas de fato não é assim. Tudo se simplifica com o respeito à “liberdade de escolha”, inclusive a infantil. Será mesmo livre uma escolha tão mal informada? A sábia sentença evangélica adverte: “a verdade vos fará livres”.
Em suma: esquivar-se de pensar e prescindir da análise das consequências pessoais e sociais de uma escolha significa não desejar - de fato – a liberdade, e sim o exercício de um mero arbítrio irrefletido.  

Verdade e liberdade

A verdadeira liberdade pressupõe o acesso a informações e a oportunidade de uma reflexão fundamentada e ponderada sob os diversos ângulos, tão ricos, que a realidade humana oferece. A dignidade inerente à pessoa humana só é assegurada levando-se em conta seus aspectos biológico, psicológico, social e espiritual. E só seguindo essa pista a legislação poderá efetivamente promover o “bem comum”, isto é, aquele conjunto de condições que permitam e favoreçam o desenvolvimento integral da pessoa humana.  
São João Paulo II em sua memorável encíclica Fides et Ratio convidava todos a refletirem profundamente sobre o homem, e sobre a sua busca constante de verdade e de sentido. Só neste horizonte da verdade – dizia o Papa -  poderá compreender, com toda a clareza, a sua liberdade e o seu chamamento ao amor.

Sínodo Arquidiocesano de São Paulo: Urgências e Desafios da Missão na Grande Cidade.

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte

Pe. José Ulisses Leva é prof. da PUC SP.

A Cosmopolita São Paulo se recria e se reinventa cotidianamente. A Pauliceia desvairada enaltecida pelo paulistano e poeta Mário de Andrade se redescobre como universalista e pluralista todos os dias. No frenesi da efervescente cidade, a cada instante, surgem novos conceitos e novos valores, mas a megalópole não perde sua identidade, como lemos na famosa inscrição estampada no Brasão: “Non ducor, duco”. Assim, a cidade constituída através de uma Ermida e de um Colégio, por São José de Anchieta, no Planalto, se agiganta e mantém viva sua missão: Não sou conduzido, conduzo.
Como acompanhar o gigantismo e brilhantismo da cidade de São Paulo? Como senti-la plural, sem perder seu dinamismo e sua identidade? Essas perguntas podemos fazer, também, tendo como referência da Igreja de Cristo Jesus presente entre nós. O Jesuíta, São José de Anchieta, no dia 25 de janeiro de 1554, a quis edificada no Planalto alicerçada por um Colégio, mas, também, dedicada ao Apóstolo São Paulo. A cidade traz a Educação imbricada com o religioso; a Sociedade paulista está em simbiose permanente com a Igreja de Cristo Jesus.
Lembremo-nos que nosso Orago é o Apóstolo São Paulo, quando da Ereção Canônica da primeira Paróquia a ele dedicada, em 1591, criação da Diocese em 1745 e, posteriormente, Arquidiocese em 1908. O missionário anunciava Cristo Jesus nas cidades e utilizava linguagem urbana. Esteve nas praças e no Aerópago Ateniense. Esteve em Roma e também nas cidades portuárias. Procura conhecer o coração humano, suas querências e mazelas, para testemunhar o Ressuscitado. Não relutava o martírio, mas pregava firmemente até o fim o bom combate.  Combater hoje significa dialogar racionalmente com todas as gentes, porém, sem perder a dinâmica e o dinamismo da Fé.
No hoje da Metrópole Deus continua a se revelar e a dialogar conosco. Na barulhenta e movimentada cidade como falar, com quem falar e onde escutar o Altíssimo? Quais são os Aerópagos da grande cidade? Qual a linguagem que devemos ter para anunciar Jesus Cristo? Qual a metodologia que devemos empregar para testemunhar coerentemente o Ressuscitado? 
As pessoas querem a Igreja aberta e dialogante. Quantos ainda procuram a clareza e a precisão da Doutrina, contando sempre com a coerência e testemunho daquele que prega, para o empenho eficaz daquele que escuta. Na Cosmopolita e multifacetária São Paulo encontram-se pessoas que querem ouvir o Evangelho de Cristo Jesus. Elas se encontram no turbilhão do gigantismo da metrópole que muitas vezes seduz para o personalismo e individualismo.
Assim se comportava nosso Padroeiro São Paulo Apóstolo “Ai de mim se não evangelizar (1 Cor 9, 16). A missão se dá junto aos desafios, e eles sempre existiram e ainda persistem. Podemos assim dizer que é desafiante ser Cristãos e manter os Valores que são Eternos anunciados por Cristo Jesus. O Salvador nos indica a Ressurreição e nos fala no Mandamento do Amor, quer seja ele o mais próximo de nós ou o mais diferente de nós. O maior desafio é o outro, isto é, aquele que pensa diferente de nós, que anuncia diferente de nós, que se faz oculto e marginalizado, ou até aquele que nem mesmo quer saber da existência e transcendência de Deus.
Portanto, o desafio é sair de nós mesmos e dos nossos rigorismos teóricos e quando não inócuos. Precisamos nos lançar ao diferente dialogando, sem perder as conquistas bimilenares da Igreja.  Devemos sempre ocupar todos os espaços para anunciar o Evangelho de Jesus Cristo, proporcionando liberdade e Vida “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6).
Jornal "O São Paulo", edição 3189, 7 a 13 de março de 2018.

Adeus a Germain Grisez, Longa Vida ao Direito Natural


Angela Vidal Gandra Martins é Doutora em Filosofia do Direito (UFRGS)/ Sócia Advocacia Gandra Martins.

No dia primeiro de fevereiro, perdemos o grande filósofo franco-americano, Germain Grisez. Apaixonado pela teoria de Tomás de Aquino, ainda que através de uma releitura própria, levantou questões essenciais sobre a natureza humana, seu agir e liberdade. E, como católico praticante, ao ritmo de “Fides e Ratio”, aprofundava na metafísica do ser, hoje e agora, secular, mais do bem do que do mal, como é próprio do ser que é uma afirmação e não uma negação, porém sem perder sua vocação à eternidade. Como escreveu por ocasião de sua morte, John Grondeslski, acadêmico americano que se inspirou em sua obra: que possa continuar sendo uma luz para os jovens pensadores que desejam empreender um sério trabalho intelectual para encontrar respostas satisfatórias para uma verdadeira “vida boa” sustentada por uma saudável ética social.
Grisez, desde que defendeu seu doutorado na Universidade de Chicago, sentia-se comprometido em auxiliar a comunidade acadêmica a refletir. Como comentou, em artigo recente, o jusfilósofo de Oxford, John Finnis:  desejava ajudar a descobrir o bem; o outro; a abertura à verdade e à própria fé.  Grisez, através de sua profissão e como filósofo, sentia-se responsável por servir e despertar o amor pelos verdadeiros valores éticos.
Ainda que não compartilhe de todas as suas posturas, admiro profundamente sua defesa da lei natural como denominador comum das relações sociais, base do autêntico pluralismo. De fato, falar hoje sobre uma lei natural como denominador comum da vida em sociedade evoca muitas vezes um posicionamento preconceituoso, desde o superficial politicamente incorreto, passando erroneamente pelo permissivismo naturalista ou identificando-o com uma postura religiosa.
Será possível que diferentes concepções possam conviver concordando sobre princípios provenientes de uma lei natural? Sim, pois compartilhamos uma mesma natureza. Ainda que praticamente 90% da vida em comunidade possa ser opinável, e dependa de decisões da maioria, há alguns pilares sobre os quais se edifica o diálogo, que devem ser respeitados, como por exemplo, o direito à vida, à liberdade ou à verdade: ninguém gostaria de instituir a mentira ou a infidelidade como regra de convivência social.... Por sua vez, os direitos deles provenientes não estão sujeitos à vontade arbitrária dos que governam, cabendo-lhes simplesmente reconhecê-los.
É nesse sentido tão prático que Grisez e outros filósofos que explicam o Direito Natural, aprofundaram nas bases teóricas e científicas que fundamentam as relações humanas e que demonstram também empiricamente o verdadeiro caminho para a felicidade, já preconizado desde Aristóteles, ainda que, hoje infelizmente, a prova é contrária, já que vivemos no século mais depressivo da história da humanidade por desafiar esses parâmetros naturalmente evidentes.
Como afirmou Bento XVI em sua iluminadora Encíclica Spes Salvi (n. 25) cada geração deve fazer sua própria contribuição para estabelecer estruturas convincentes sobre a liberdade e o bem, que possam auxiliar a próxima geração, como um guia orientativo para o uso adequado da liberdade humana. Dessa forma, sempre dentro dos limites humanos, oferecerão também uma certa garantia para o futuro. Grisez foi uma luz nesse sentido, ao promover os sábios limites positivos da natureza, como a aeronáutica respeita a lei da gravidade para voar cada vez mais alto. Que ele nos ajude a todos a entender melhor e sublinhar o que nos une como seres humanos para alavancar nossas relações pessoais e sociais, bem como um Direito justo, e assim poder efetivamente cruzar os céus sem limites.  
Jornal "O São Paulo", edição 3188, 28 de fevereiro a 6 de março de 2018.