quarta-feira, 20 de setembro de 2017
segunda-feira, 18 de setembro de 2017
Crise Política: e eu com isso? Corrupção, cultura e responsabilidade
![]() |
| Ilustração: Sergio Ricciuto Conte |
Rafael Mahfoud Marcoccia é professor do Centro Universitário da FEI, fez Doutorado sobre Doutrina Social da Igreja e é colaborador do site católico Terre d'America.
Estamos presenciando uma forte crise política no país. Mas ainda
que estejamos indignados com a situação, estamos também, em geral, passivos. Passivos
porque, se é verdade que emitimos as nossas opiniões (de forma inteligente),
cobramos as responsabilidades (como temos mesmo de fazer) e exigimos a justiça,
ao mesmo tempo assistimos aos acontecimentos da crise como se fossem uma
realidade distante de nós, sem nos reconhecermos como parte dela.
Somos parte da crise não simplesmente porque somos afetados
por ela, mas porque ela própria é fruto do nosso posicionamento. Podemos
defender ou não o atual governo, gostar ou não do atual presidente, ser de
direita ou de esquerda. Ou ainda, querer novas eleições logo ou aguardar o fim
de 2018. Mas em geral o que mais se lê na imprensa e nas redes sociais, ou se
ouve nas conversas nas ruas, nos bares com os amigos, parte da mesma premissa: depositamos
a responsabilidade de mudar a sociedade, que é de todos os que a compõem, em um
único membro, o presidente, ou, no máximo, em uma classe, a política.
Frustrados em nossas expectativas, nos encontramos
indignados e desanimados, e o discurso gira em torno de frases como “político é
tudo igual mesmo”, ou “temos que punir os culpados”, ou ainda “o Brasil não tem
jeito”. Esse discurso do momento pode carregar dois problemas: a culpa é sempre
do outro; e partir de um posicionamento que se satisfaça apenas com a punição.
Esses problemas parecem ter sua origem na nossa cultura, que
privilegia uma postura individualista. Percebemos a gravidade dos fatos, mas
nos interessamos mais pelas nossas obrigações pessoais do dia-a-dia. E a ideia
que acaba prevalecendo é a de que “tenho minha vida para levar”. Assim, colocamos
os nossos problemas individuais como sendo prioritários em relação aos sociais.
Não entendemos que os problemas sociais são igualmente relevantes também para
toda pessoa. E isso é também uma forma de corrupção. Santo Agostinho dizia que
corrupção é o coração (cor) rompido (rupto).
Há, então, níveis de corrupção. Uma corrupção em nível
político-social, como a que nós temos visto. Uma corrupção cotidiana, o
“jeitinho brasileiro”, onde são cometidas infrações aceitas e acobertadas pela
sociedade. E, por fim, uma corrupção individual, onde a pessoa abandona seus
valores e aspirações mais íntimas em função das imposições da própria dinâmica
social atual. A crença na solidariedade, ou a ideia de que ela nos levaria a
construir um mundo melhor, é substituída pelo medo da violência, pela falta de
confiança no outro, fazendo com que pensemos que apostar no ser humano é uma
postura demasiada ingênua para os dias de hoje.
Contudo, ainda que constatemos uma marca forte do
individualismo em nossa cultura e que a corrupção esteja presente tanto no
nível social quanto no pessoal, encontramos diversos exemplos de atos
verdadeiramente solidários, ou melhor, verdadeiramente sociais em nossa
cultura.
Sendo assim, o que parece razoável é pensarmos nos problemas
políticos que o país vem passando, passou e provavelmente irá passar, não de
uma maneira passiva, onde apenas se emite uma opinião ou se exige um direito
(como o da punição), mas valorizando espaços de produção de cultura real que
nos sustentem, a todos (políticos e homens comuns), em uma posição construtiva,
capaz de favorecer autocrítica e retomada contínua dos ideais.
Jornal "O São Paulo", edição 3166, 13 a 19 de setembro
de 2017.
Reforma política e doutrina social da Igreja
Os debates sobre reforma política num momento em que os
homens públicos brasileiros enfrentam uma grave crise de legitimidade lembra as
palavras do poeta católico T.S. Eliot, quando diz que frequentemente tentamos
escapar à treva, que nos corrói e se alastra a nosso redor, sonhando com
sistemas tão perfeitos que tornem desnecessário sermos bons (cf. Coros de”A
rocha”).
Não cabe à doutrina social da Igreja postular sobre sistema
eleitoral (proporcional, distrital, etc.), financiamento de campanha,
parlamentarismo e outros temas assim. São questões circunstanciais, que
dependem da história e da conjuntura de cada nação, responsabilidade a ser
exercida com autonomia por seu povo. Mas o realismo cristão nos leva a
reconhecer que a solução dos problemas nunca pode ser confiada apenas às
estruturas.
Instituições realmente boas são o fruto de pessoas boas e
ajudam todos a se tornarem melhores. Como afirmou Bento XVI, na abertura da
Conferência de Aparecida: “As estruturas justas são [...] condição
indispensável para uma sociedade justa, mas não nascem nem funcionam sem um
consenso moral da sociedade sobre os valores fundamentais e sobre a necessidade
de viver estes valores com as necessárias renúncias, inclusive contra o
interesse pessoal”.
Valorizar o papel da pessoa na vida política não significa
buscar salvadores messiânicos, mas compreender que uma sociedade justa vai
sendo construída aos poucos, com a contribuição de todos. Nesse momento, é
dever de cada brasileiro, dentro do espaço de responsabilidade que lhe cabe,
lutar para que estruturas e instituições sejam transformadas com vistas ao
bem-comum, consciente que não existirão soluções mágicas, que qualquer caminho
implica em um trabalho de construção e correção continuas.
Tanto a esperança desmedida nessa ou naquela solução quanto
a desesperança que imobiliza e fecha no individualismo são manifestações de
irrealismo, opostas à sabedoria cristã.
Para termos uma política comprometida com o bem-comum é
necessário não só buscar a correção das deformações do sistema atual, mas
também trabalhar para que todos tenham cada vez mais condições de escolher bem
seus representantes, por meio da educação e da participação efetiva na vida
pública, além de criar condições para que pessoas honestas se candidatem com
chances aos cargos eletivos.
Afinal, como Eliot conclui a passagem citada, aquele que
realmente é há de ofuscar o que apenas pretende ser.
Francisco Borba Ribeiro Neto
Jornal "O São Paulo", edição 3166, 13 a 19 de setembro
de 2017.
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
Como eliminar uma barreira muito comum à conquista da felicidade
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| Ilustração: Sergio Ricciuto Conte |
Um lindo casal entra no metrô. A mulher se veste com elegância: salto alto, unhas e cabelos perfeitos. O marido usa um terno impecável. A pele bem cuidada e a expressão confiante de ambos chamam a atenção. A maioria dos passageiros analisa o casal com o canto dos olhos. Algumas mulheres pensam: “como seria bom se eu fosse tão bonita e elegante como ela”. Já outros homens imaginam: “como seria bom se eu fosse tão jovem e confiante como ele”.
Seja entre desconhecidos, entre vizinhos, no trabalho ou na escola, a comparação é sinal de uma característica lamentável da condição humana: a inveja.
O filósofo Bertrand Russell chegou a considerar a inveja uma das causas mais poderosas de infelicidade. O invejoso é infeliz porque, em vez de se satisfazer e sentir prazer com aquilo que tem, sofre por tudo aquilo que os outros têm.
A inveja, que inicia com uma comparação aparentemente inofensiva, acaba levando o invejoso a querer causar dano àqueles que, aos seus olhos, parecem mais bem-sucedidos.
Em suas formas mais graves, a inveja conduzirá o invejoso até mesmo a causar o dano, desde que ele veja a possibilidade de sair impune do mal que quer provocar.
Em seu extremo, “se puder, o invejoso privará todos os demais de suas vantagens, o que para ele é tão satisfatório quanto conseguir essas mesmas vantagens para si”, diz Russell.
Se o invejoso abrir caminho para o seu vício, acabará por “ser nocivo a tudo o que seja excelente, inclusive para as aplicações mais proveitosas das aptidões excepcionais”.
Segundo o filósofo, a inveja é um vício que consiste em nunca ver as coisas como elas são, mas em sempre compará-las umas às outras. Mas, as comparações do invejoso são absurdas e tolas, pois de que adianta descontentar-se diante do aparente sucesso e bem-estar do colega, parente ou vizinho? “Para o sábio, o que temos não deixa de ser agradável, porque outros têm outras coisas mais”.
O primeiro passo para lutar contra a inveja é parar com a mania de fazer comparações. “Quando nos acontece algo agradável, é preciso desfrutá-lo plenamente, sem perder tempo, pensando que isso não é tão agradável como alguma outra coisa que esteja ocorrendo com outra pessoa”, afirma Russell.
Basta pensar que a primavera na Sicília seria tão mais bonita do que a daqui para que o nosso sol e os nossos pássaros percam o encanto. E assim nasce um desgosto que, pouco a pouco, pode transformar-se em ódio velado por aqueles que desfrutam da maravilhosa primavera na Sicília.
Segundo Russell, a inveja nasceria do acúmulo de privações e contratempos sofridos desde a infância, como, por exemplo, a falta de afeto e confiança. “Há certos tipos de felicidade a que todos têm direito por nascimento, e aqueles que se veem privados disso tornam-se mais tarde ressentidos e amargurados”.
Ele indica dois remédios contra a inveja. O primeiro é a admiração. Quem busca aumentar a admiração acaba por reduzir a inveja. O segundo é a disciplina mental. Deve-se cultivar o hábito de não ficar remoendo pensamentos inúteis.
“Para encontrar o caminho que lhe permita sair desse desespero, o homem civilizado precisa desenvolver seu coração, assim como desenvolveu seu cérebro. Deve aprender a transcender a si próprio e, com isso, alcançar a liberdade do universo”, diz Russell.
Jornal "O São Paulo", edição 3165, 6 a 12 de setembro de 2017
O desenvolvimento do homem todo e de todos os povos
Wagner Balera é professor titular de Direitos Humanos na Faculdade de Direito da PUC-SP e conselheiro do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.
Parece que a comunidade internacional se deu conta, no início do terceiro milênio, que o grande desafio a ser vencido por ela é o do desenvolvimento. Não é por outra razão que a Cúpula do Milênio, a mais importante reunião mundial já realizada em toda a história, reunindo mais de 190 países, houve por bem definir a necessidade de enfrentar e resolver os assim chamados Objetivos do Desenvolvimento do Milênio, conhecidos pela sigla ODM, que dentre outros temas deveria tomar providências para a erradicação da pobreza. Fora fixado um prazo, de 15 anos, que venceu em 2015, e foram dados passos concretos para o enfrentamento das grandes questões sociais do nosso tempo.
No entanto, novo desafio foi apresentado desta feita, não como continuidade da primeira proposta, mas como uma especificação cabal dessa. Então, foram configurados os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, designados ODS, que, para além da questão do desenvolvimento puro e simples, propõem a implementação de medidas para que fosse capaz de ser implementado sem ofensa aos recursos ambientais e com a preservação do ecossistema, além de, igualmente, com a segurança alimentar, a questão energética, a da água, a do saneamento e, em suma, a preservação do mundo habitável. Essa agenda espantosa deve ser implementada até o ano de 2030.
Quem insere novo tópico na agenda da Doutrina Social da Igreja é o Beato Paulo VI, que há 50 anos lançava a Encíclica Populorum Progressio sobre o tema do desenvolvimento.
Dois pontos do documento revelam sua atualidade. O primeiro afirma que “o desenvolvimento é o novo nome da paz”. Ninguém dúvida desse imperativo ético universal. Importa irradiar a paz mediante equitativa distribuição dos bens deste mundo, porque é dever grave dos povos desenvolvidos cooperar com aqueles que estejam em vias de desenvolvimento. O segundo responde à elementar questão: qual desenvolvimento?
E o Pontífice afirma: o verdadeiro desenvolvimento só pode ser integral, vale dizer, o do homem todo e de todos os homens. Progresso meramente econômico sem repercussão na esfera social e, igualmente, na dimensão cultural não é conforme à ética.
Parece uma pauta simples, mas é de extrema complexidade e exige, decerto, a implantação de outra ordem econômica mundial capaz de quebrar as cadeias permanentes de degradação da maioria dos povos em favor de quem, desde o colonialismo, sempre amealha cada vez mais.
Parece que a comunidade internacional se deu conta, no início do terceiro milênio, que o grande desafio a ser vencido por ela é o do desenvolvimento. Não é por outra razão que a Cúpula do Milênio, a mais importante reunião mundial já realizada em toda a história, reunindo mais de 190 países, houve por bem definir a necessidade de enfrentar e resolver os assim chamados Objetivos do Desenvolvimento do Milênio, conhecidos pela sigla ODM, que dentre outros temas deveria tomar providências para a erradicação da pobreza. Fora fixado um prazo, de 15 anos, que venceu em 2015, e foram dados passos concretos para o enfrentamento das grandes questões sociais do nosso tempo.
No entanto, novo desafio foi apresentado desta feita, não como continuidade da primeira proposta, mas como uma especificação cabal dessa. Então, foram configurados os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, designados ODS, que, para além da questão do desenvolvimento puro e simples, propõem a implementação de medidas para que fosse capaz de ser implementado sem ofensa aos recursos ambientais e com a preservação do ecossistema, além de, igualmente, com a segurança alimentar, a questão energética, a da água, a do saneamento e, em suma, a preservação do mundo habitável. Essa agenda espantosa deve ser implementada até o ano de 2030.
Quem insere novo tópico na agenda da Doutrina Social da Igreja é o Beato Paulo VI, que há 50 anos lançava a Encíclica Populorum Progressio sobre o tema do desenvolvimento.
Dois pontos do documento revelam sua atualidade. O primeiro afirma que “o desenvolvimento é o novo nome da paz”. Ninguém dúvida desse imperativo ético universal. Importa irradiar a paz mediante equitativa distribuição dos bens deste mundo, porque é dever grave dos povos desenvolvidos cooperar com aqueles que estejam em vias de desenvolvimento. O segundo responde à elementar questão: qual desenvolvimento?
E o Pontífice afirma: o verdadeiro desenvolvimento só pode ser integral, vale dizer, o do homem todo e de todos os homens. Progresso meramente econômico sem repercussão na esfera social e, igualmente, na dimensão cultural não é conforme à ética.
Parece uma pauta simples, mas é de extrema complexidade e exige, decerto, a implantação de outra ordem econômica mundial capaz de quebrar as cadeias permanentes de degradação da maioria dos povos em favor de quem, desde o colonialismo, sempre amealha cada vez mais.
Jornal "O São Paulo", edição 3165, 6 a 12 de setembro de 2017
Dos fundamentalismos? Livrai-nos Senhor!
Léo Pessini, doutor em Teologia Moral-Bioética e pós-graduado em Clinical Pastoral Education and Bioethics, pelo St. Luke`s Medical Center, em Milwaukee, nos EUA. Atualmente exerce a função de Superior Geral dos Camilianos, em Roma.
“Fundamentalismo: desafios à Ética Teológica” foi o tema do 41º. Congresso de Teologia Moral, realizado em São Paulo, no Centro Universitário Salesiano (UNISAL)/Campus Pio XI, de 28-31 de agosto de 2017.
Nestaedição do evento, debateu-se essa instigante e preocupante questão do crescimento dos fundamentalismos em amplos setores da vida humana, desembocando em fanatismos nocivos e promotores de violência.
Fazemos a seguir alguns destaques de aspectos que nos marcaram neste evento, e que merecem nossa atenção. Começa-se a falar de “fundamentalismo” no sentido teológico entre os presbiterianos conservadores dos EUA no final do século XIX e início do século XX, voltando-se para as questões dogmáticas. Hoje o termo fundamentalismo ganhou um significado ampliado, apontando para movimentos e /ou atitudes, na teologia e em outros campos, para além do âmbito religioso inclusive, que se agarram de uma forma irremovível a determinadas posições, como dogmas inquestionáveis. Deparamo-nos assim com fundamentalismo de cunho sócio-econômico-político e ético-moral em geral.
Segundo o biblista Yohan Konings, “o problema do fundamentalismo não é seu conservadorismo ou tradicionalismo, mas sua recusa de diálogo e interpretação”. Fundamentalismos e fanatismos são expressões de enfermidade e patologias de pensamentos e visões humanas, que necessitam de uma urgente intervenção terapêutica em vista de saúde. Neste cenário, necessitamos de educação terapêutica das nossas consciências. Uma consciência e convicção religiosa que saiba respeitar o sadio pluralismo religioso e laicidade secular, como espaços preciosos de diálogo na sociedade de hoje. Trata-se de um pensamento, visão e ação “hospitaleira” que acolhe o diferente, marcada pela inclusão, compaixão e solidariedade, e não uma postura de “hostilidade” que exclui o diferente com violência (fanáticos). Em vez de ser para e pelo outro, posiciona-se contra “o outro”, que é eleito como inimigo a ser combatido.
Lembramos ainda que sempre precisamos colocar “o texto, no contexto para que depois não sirva de pretexto”. O que se diz da ética teológica, o mesmo pode ser dito em relação a bioética. Como afirma Bruce Jennings (editor-chefe da última edição da Encyclopedia of Bioethics, 2014), “Se a bioética não for crítica, pode se tornar apologética ou ideológica”. Sem dúvida alguma a crítica hermenêutica será sempre um remédio necessário e eficaz para garantir a lucidez e sapiência do pensamento ético teológico e bioético para combater preventivamente toda e qualquer patologia ou enfermidade do pensamento, fundamentalista que alimenta ações de fanatismo e violência.
Ao falarmos de fanatismo, de cunho religioso ou não, é bom lembrar o que diz Amós Oz, escritor israelense e ativista político, na sua obra mais recente lançada no Brasil, “Como curar um fanático”. Sua definição é emblemática: “O fanático nunca entre em um debate. Se ele considera que algo é ruim, seu dever é liquidar imediatamente aquela abominação. Todos os tipos de fanáticos tendem a viver num mundo em preto e branco. Num faroeste simplista de mocinhos contra bandidos”. Concluindo seu ensaio, Oz, sendo judeu, argumenta que todos os mandamentos que regem a fé e a cultura de sua gente poderiam ser resumidos numa só frase: “Não causarás a dor”.
O Papa Francisco não cessa de nos alertar criticamente a respeito da necessidade de discernimento perante as situações “cinzas” da vida, quando os fundamentalistas somente veem “preto e branco”. Num livro de entrevistas a ser lançado na França, comenta a respeito das posições fundamentalistas dizendo “Quando encontro alguém rígido, em especial se ele é jovem, eu digo para mim mesmo, que ele está doente. Na verdade, estão procurando segurança” (Folha de S. Paulo, 01/09/2017).
Que triste doença está de ver, encarar e viver a vida somente em “preto e branco”, quando a criação divina é tão rica e linda quando a respeitamos como sendo originalmente multicolorida.
“Fundamentalismo: desafios à Ética Teológica” foi o tema do 41º. Congresso de Teologia Moral, realizado em São Paulo, no Centro Universitário Salesiano (UNISAL)/Campus Pio XI, de 28-31 de agosto de 2017.
Nestaedição do evento, debateu-se essa instigante e preocupante questão do crescimento dos fundamentalismos em amplos setores da vida humana, desembocando em fanatismos nocivos e promotores de violência.
Fazemos a seguir alguns destaques de aspectos que nos marcaram neste evento, e que merecem nossa atenção. Começa-se a falar de “fundamentalismo” no sentido teológico entre os presbiterianos conservadores dos EUA no final do século XIX e início do século XX, voltando-se para as questões dogmáticas. Hoje o termo fundamentalismo ganhou um significado ampliado, apontando para movimentos e /ou atitudes, na teologia e em outros campos, para além do âmbito religioso inclusive, que se agarram de uma forma irremovível a determinadas posições, como dogmas inquestionáveis. Deparamo-nos assim com fundamentalismo de cunho sócio-econômico-político e ético-moral em geral.
Segundo o biblista Yohan Konings, “o problema do fundamentalismo não é seu conservadorismo ou tradicionalismo, mas sua recusa de diálogo e interpretação”. Fundamentalismos e fanatismos são expressões de enfermidade e patologias de pensamentos e visões humanas, que necessitam de uma urgente intervenção terapêutica em vista de saúde. Neste cenário, necessitamos de educação terapêutica das nossas consciências. Uma consciência e convicção religiosa que saiba respeitar o sadio pluralismo religioso e laicidade secular, como espaços preciosos de diálogo na sociedade de hoje. Trata-se de um pensamento, visão e ação “hospitaleira” que acolhe o diferente, marcada pela inclusão, compaixão e solidariedade, e não uma postura de “hostilidade” que exclui o diferente com violência (fanáticos). Em vez de ser para e pelo outro, posiciona-se contra “o outro”, que é eleito como inimigo a ser combatido.
Lembramos ainda que sempre precisamos colocar “o texto, no contexto para que depois não sirva de pretexto”. O que se diz da ética teológica, o mesmo pode ser dito em relação a bioética. Como afirma Bruce Jennings (editor-chefe da última edição da Encyclopedia of Bioethics, 2014), “Se a bioética não for crítica, pode se tornar apologética ou ideológica”. Sem dúvida alguma a crítica hermenêutica será sempre um remédio necessário e eficaz para garantir a lucidez e sapiência do pensamento ético teológico e bioético para combater preventivamente toda e qualquer patologia ou enfermidade do pensamento, fundamentalista que alimenta ações de fanatismo e violência.
Ao falarmos de fanatismo, de cunho religioso ou não, é bom lembrar o que diz Amós Oz, escritor israelense e ativista político, na sua obra mais recente lançada no Brasil, “Como curar um fanático”. Sua definição é emblemática: “O fanático nunca entre em um debate. Se ele considera que algo é ruim, seu dever é liquidar imediatamente aquela abominação. Todos os tipos de fanáticos tendem a viver num mundo em preto e branco. Num faroeste simplista de mocinhos contra bandidos”. Concluindo seu ensaio, Oz, sendo judeu, argumenta que todos os mandamentos que regem a fé e a cultura de sua gente poderiam ser resumidos numa só frase: “Não causarás a dor”.
O Papa Francisco não cessa de nos alertar criticamente a respeito da necessidade de discernimento perante as situações “cinzas” da vida, quando os fundamentalistas somente veem “preto e branco”. Num livro de entrevistas a ser lançado na França, comenta a respeito das posições fundamentalistas dizendo “Quando encontro alguém rígido, em especial se ele é jovem, eu digo para mim mesmo, que ele está doente. Na verdade, estão procurando segurança” (Folha de S. Paulo, 01/09/2017).
Que triste doença está de ver, encarar e viver a vida somente em “preto e branco”, quando a criação divina é tão rica e linda quando a respeitamos como sendo originalmente multicolorida.
Herança de Dom José Maria Pires
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, teólogo, é o atual Vigário Geral da Congregação dos Missionários de São Carlos (scalabrinianos). Realizou trabalhos pastorais em favelas, cortiços e no interior do Estado com os migrantes cortadores de cana. Foi diretor do CEM-Centro de Estudos Migratórios de São Paulo, assessor do Setor Pastorais Sociais da CNBB, Superior da Província São Paulo dos Padres Scalcabrinianos.
Que nos deixa Dom José Maria Pires? Pouco mais do que uma memória de gigante e, ao mesmo tempo, um estridente e respeitoso silêncio de eternidade. Não obstante o silêncio solene e reverente, atrevo-me a rabiscar algumas palavras sobre essa figura de raízes, tronco, ramos, folhas e frutos. Um homem que se assemelhava a uma árvore platantada à beira de um riacho, como diz o salmo número um.
Comecemos com as raízes. Desde logo convém dizer que Dom José era um homem de profundas raízes. Raízes que, vindas da mãe África, souberam nutrir-se dos ingredientes encontrados do outro lado do Atlântico. Tinham cor negra, som de música e uma versatilidade de dança. No “terreiro da diocese”, moviam-se ao som do tambor que vem do centro da terra, tal era a integridade com que assumiu sua negritude. Primeiro o chamaram de Dom Pelé, depois preferiu que o chamassem de Dom Zumbi, devido à luta deste último pela libertação do seu povo escravo. Amou o povo brasileiro, formado por três raças, sem jamis deixar de amar seus antepassados.
Possuía um tronco vigoroso de pastor, de profeta e de sábio. As raízes o alimentavam a partir do solo úmido e escuro, onde o povo sofre e luta, reza e espera. Nos tempos sombrios da ditadura militar, foi marcante sua “opção preferencial” pelos pobres e oprimidos, juntamente com a CNBB. Sua profecia, mansa e robusta a um só tempo, fazia tremer os latifundiários das dioceses de Araçuaí e da Paraíba. Suas palavras, sempre iluminadas por um sorriso, adquiriram uma eloquente veemência. A sabedoria vinha-lhe de um ouvido aberto ao clamor de todo rebanho, com grande respeito pela alteridade. Sabia ler no rosto das pessoas a lágrima e o riso, “as alegrias e esperanças, tristezas e angústias” (GS, n. 1).
Os ramos eram braços e mãos enérgicos, sem ser grosseiros ou brutais. Uma energia não impetuosa ou precipitada, mas oportuna e pontual. Tanto quanto estava pronto a abençoar as vítimas e os injustiçados da história, também era capaz de golpear os lobos com sua autoridade de pastor. Quando o conheci na Paraíba, estava justamente em meio a um conflito entre trabalhadores rurais sem terra, de um lado, e fazendeiros inescrupulosos, de outro. Sua figura se agigantava, seja na defesa dos primeiros, quanto na advertência aos segundos. Uma e outra fundamentadas na misericórdia evangélica. Todos os anos, por ocasião da Romaria da Terra, caminhava toda a noite ao lado dos peregrinos.
Quanto às folhas e frutos dessa árvore, basta relembrar sua sombra de pai/pastor, ou suas ações em prol dos famintos e sedentos de justiça. Tive a alegria de conhecer vários agentes de pastoral, e outros tantos trabalhadores e trabalhadoras, que se viram livres da perseguição ou da prisão devido à sua sombra. Acolhia-os e protegia-os com a peregrinos errantes que têm necessidade de uma tenda e de repouso, lembrando o espisódio de Abraão no Carvalho de Mambré (Gn 18,1-10). Inumeráveis, por outro lado, são seus projetos, gestos e ações em favor da justiça e da paz.
Que nos deixa Dom José Maria Pires? Pouco mais do que uma memória de gigante e, ao mesmo tempo, um estridente e respeitoso silêncio de eternidade. Não obstante o silêncio solene e reverente, atrevo-me a rabiscar algumas palavras sobre essa figura de raízes, tronco, ramos, folhas e frutos. Um homem que se assemelhava a uma árvore platantada à beira de um riacho, como diz o salmo número um.
Comecemos com as raízes. Desde logo convém dizer que Dom José era um homem de profundas raízes. Raízes que, vindas da mãe África, souberam nutrir-se dos ingredientes encontrados do outro lado do Atlântico. Tinham cor negra, som de música e uma versatilidade de dança. No “terreiro da diocese”, moviam-se ao som do tambor que vem do centro da terra, tal era a integridade com que assumiu sua negritude. Primeiro o chamaram de Dom Pelé, depois preferiu que o chamassem de Dom Zumbi, devido à luta deste último pela libertação do seu povo escravo. Amou o povo brasileiro, formado por três raças, sem jamis deixar de amar seus antepassados.
Possuía um tronco vigoroso de pastor, de profeta e de sábio. As raízes o alimentavam a partir do solo úmido e escuro, onde o povo sofre e luta, reza e espera. Nos tempos sombrios da ditadura militar, foi marcante sua “opção preferencial” pelos pobres e oprimidos, juntamente com a CNBB. Sua profecia, mansa e robusta a um só tempo, fazia tremer os latifundiários das dioceses de Araçuaí e da Paraíba. Suas palavras, sempre iluminadas por um sorriso, adquiriram uma eloquente veemência. A sabedoria vinha-lhe de um ouvido aberto ao clamor de todo rebanho, com grande respeito pela alteridade. Sabia ler no rosto das pessoas a lágrima e o riso, “as alegrias e esperanças, tristezas e angústias” (GS, n. 1).
Os ramos eram braços e mãos enérgicos, sem ser grosseiros ou brutais. Uma energia não impetuosa ou precipitada, mas oportuna e pontual. Tanto quanto estava pronto a abençoar as vítimas e os injustiçados da história, também era capaz de golpear os lobos com sua autoridade de pastor. Quando o conheci na Paraíba, estava justamente em meio a um conflito entre trabalhadores rurais sem terra, de um lado, e fazendeiros inescrupulosos, de outro. Sua figura se agigantava, seja na defesa dos primeiros, quanto na advertência aos segundos. Uma e outra fundamentadas na misericórdia evangélica. Todos os anos, por ocasião da Romaria da Terra, caminhava toda a noite ao lado dos peregrinos.
Quanto às folhas e frutos dessa árvore, basta relembrar sua sombra de pai/pastor, ou suas ações em prol dos famintos e sedentos de justiça. Tive a alegria de conhecer vários agentes de pastoral, e outros tantos trabalhadores e trabalhadoras, que se viram livres da perseguição ou da prisão devido à sua sombra. Acolhia-os e protegia-os com a peregrinos errantes que têm necessidade de uma tenda e de repouso, lembrando o espisódio de Abraão no Carvalho de Mambré (Gn 18,1-10). Inumeráveis, por outro lado, são seus projetos, gestos e ações em favor da justiça e da paz.
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