segunda-feira, 10 de abril de 2017

A relação entre homem e mulher, entre o poder e o dom

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Klaus Brüschke, é membro do movimento dos Focolares, ex-publisher da Editora Cidade Nova, articulista da revista Cidade Nova.

Em pleno século XXI, persistem em nossa sociedade alguns fatos inaceitáveis com relação à situação da mulher: das desigualdades de renda (elas têm remuneração menor que seus colegas homens) e na condução do lar (elas dedicam-se às tarefas domésticas em média 7,5 horas mais do que seus maridos, apesar de terem uma carga de trabalho comparável nos empregos) até a escandalosa violência sobre a mulher, passando pelo acesso desproporcionalmente reduzido aos espaços de decisão no âmbito corporativo e político.
É a partir desses fatos e de sua pertinácia que nasceram as controversas “teorias de gênero”. Cabe esclarecer que há muitas correntes, que vão dos estudos científicos sérios e fundamentados ao mero panfleto ideológico, discutindo a questão do sexo (diferença biológica entre homem e mulher), da sexualidade (vivência do sexo) e do gênero (expressão e adequação entre sexo e sexualidade pela sociedade), Umas sublinham que o gênero é um elemento constitutivo das relações sociais, a partir do qual busca pensar a história e entender as hierarquias sociais e relações de poder. Outras sustentam que a diferença sexual é efeito das relações de poder e dos discursos sobre gênero e sexualidade. Apesar das diferenças, a maioria compartilha uma mesma posição antropológica.
As “teorias de gênero” partem de uma concepção do ser humano visto em sua individualidade. As relações que ele estabelece seriam fundamentalmente relações de poder (de opressor e oprimido). Para se emancipar dessa dominação, seria preciso libertar-se de tais laços, “ser dono do próprio nariz” (e do próprio corpo), e não se submeter ao que dita a sociedade. Esse mesmo indivíduo é visto “fatiado” em suas dimensões biológica, psicológica, social e espiritual, sem que elas se integrem harmonicamente. Outra característica de tais posicionamentos – aliás, de muitos saberes contemporâneos – é cada ciência (filosofia, sociologia, antropologia, psicologia, neurociências, biologia…) seguir isoladamente em suas investigações, sem uma considerar as contribuições das outras.
A discussão sobre esse tema complexo, que acontece na academia e tem reflexos na política e na educação, representa para os cristãos uma oportunidade de contribuírem proficuamente. Penso que possam dar importantes aportes justamente nos pressupostos das citadas correntes. A antropologia iluminada pelo cristianismo vê o ser humano de modo totalmente diverso dessa visão reduzida a relações de poder. O cristianismo vê a pessoa como sujeito livre em sua integridade biopsicossocial e espiritual, e suas relações (consigo mesmo, com Deus, com os outros, com a natureza e com as coisas) como relações de dádiva. Sua identidade é percebida e afirmada justamente enquanto ele se doa. Portanto, a identidade feminina (e masculina), com a consequente assunção de papeis sociais, se dá nessa troca recíproca de dádiva. Além disso, os cristãos podem contribuir num diálogo transdisciplinar, capaz de lançar novas luzes em cada ciência.
O pensamento católico tem páginas sublimes sobre a relação homem-mulher no interior do matrimônio, amiúde desconhecidas dos próprios cristãos. Mas ainda são poucas as reflexões sobre a relação homem-mulher em outras esferas da vida humana (na Igreja, no mundo do trabalho, na política…). É pouco difundido o pensamento de João Paulo II, Chiara Lubich, Edith Stein e outros a respeito…
Em tempos em que a Igreja é chamada a sair ao encontro da sociedade contemporânea, inclusive como um “hospital de campanha”, está aí um desafiador horizonte a se descortinar.
Jornal "O São Paulo", edição 3145, 5 a 11 de abril de 2017.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Campanha da Fraternidade 2017 - Lições mútuas

A Doutrina Social da Igreja na defesa dos biomas brasileiros

VII



Esse é o terceiro ano consecutivo em que a Igreja é chamada, no Brasil, a pensar a questão ambiental. Em 2015, refletimos sobre a encíclica Laudato si’, em 2016 a Campanha da Fraternidade nos convidou a refletir sobre a “Casa comum, nossa responsabilidade” e agora em 2017 sobre “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”. Que lições nos ficaram de todas essas reflexões? Que contribuições podemos levar a nossos irmãos não católicos que também lutam pela defesa do meio ambiente e da vida?
A doutrina social da Igreja ganhou muito com suas reflexões sobre a questão ecológica.
Não há dúvida de que a percepção da justiça intergeneracional e de nossa responsabilidade diante das gerações futuras, ainda que presente na doutrina social, foi muito melhor compreendida a partir das contribuições do pensamento ecológico.
Refletir sobre o necessário cuidado com a criação nos tem ajudado a recuperar dimensões da espiritualidade cristã que muitas vezes haviam se perdido no tempo. Perceber o mundo como um dom e um sinal do amor de Deus para conosco, recuperar o cuidado para com toda a criação são elementos da espiritualidade cristã desde os primeiros séculos, passando por grandes santos, como São Francisco de Assis. Mas são coisas que havíamos perdido, imersos em nossas preocupações e inquietações.
Essa espiritualidade é justamente a grande contribuição que o cristianismo traz aos movimentos ecológicos. Quem convive com esses movimentos sabe que existe neles uma grande busca por espiritualidade e uma compreensão “religiosa” do mundo. Não nos esqueçamos que religião vem do latim religare, que indica a necessidade de religar a pessoa ao Todo, à Divindade – assim como a ecologia trata da ligação que existe entre todos os seres. Num mundo cada vez mais banalizado e superficial, a recuperação da espiritualidade é uma força que reúne ambientalistas e cristãos.
A doutrina social da Igreja também reforça a consciência da profunda ligação que existe entre o meio ambiente e os mais pobres e excluídos na sociedade. Justiça social e conservação dos recursos naturais são indissociáveis na prática.
Num mundo cada vez polarizado e intransigente para com o outro, o Papa Francisco – mas não só ele – salientou a necessidade absoluta do diálogo no enfrentamento dos problemas socioambientais. Diálogo entre sociedade e governo, entre os diferentes grupos sociais, da ciência com a religião e a arte.
A defesa da “casa comum” e dos biomas brasileiros necessita de todos esses elementos, da colaboração solidária entre cristãos e ambientalistas. Nosso encontro com Cristo nos leva a aprofundar nossa experiência de fé e compromisso com o próximo também nesse sentido.
Francisco Borba Ribeiro Neto
Jornal “O São Paulo”, edição 3145, 5 a  11 de abril de 2017

Campanha da Fraternidade 2017 - Para um desenvolvimento humano e sustentado

A Doutrina Social da Igreja na defesa dos biomas brasileiros

VI



Na segunda metade do século XX, tanto a doutrina social da Igreja quanto os movimentos ambientalistas e alguns economistas se procuraram repensar o desenvolvimento, superando o economicismo. Daí nasceu a ideia do desenvolvimento humano integral, na Populorum progressio (PP) de Paulo VI, do desenvolvimento sustentado, entre os movimentos ecológicos, e do desenvolvimento como liberdade, proposto pelo Prêmio Nobel Amartya Sen.
Todas essas propostas se baseiam na percepção de que o desenvolvimento é indispensável à vida humana, mas que deve se orientar para o bem-comum e não para interesses privados: “promover todos os homens e o homem todo” (PP 14). A integralidade é o fio condutor dessa visão de progresso e o Papa Francisco evidencia essa ligação entre desenvolvimento e meio ambiente ao propor, na Laudato si’, uma ecologia integral (LS 137ss).
Ambientalismo e doutrina católica partem da busca de uma sabedoria que torne a vida mais humana, lutando contra as falsas promessas do poder econômico e tecnocientífico (LS 101-114), as pretensões do individualismo e do consumismo (LS 50, 203-210). Essa sabedoria já se manifesta na percepção de que não podemos ser felizes sozinhos, sem olhar para nossos irmãos e para a própria natureza. A solidariedade – e sua expressão máxima, que é a fraternidade – estão presentes nas propostas tanto do desenvolvimento humano integral quanto do desenvolvimento sustentado. Hoje, o Magistério católico compreende que essa solidariedade é intergeneracional (Caritas in veritate, CV 48, LS 159ss) e se estende também a um cuidado com toda a criação, conforme propõe o movimento ecológico (CV 48-52, LS 14). Mas também o movimento ecológico se tornou cada vez mais consciente que a defesa do meio ambiente implica também num compromisso com os mais pobres, que sempre foi prioritário para os cristãos.
E mais: a valorização das comunidades e organizações locais (CV 58, LS 176-181), dos saberes tradicionais (LS 63, 143-146), do Estado a serviço do bem-comum, da colaboração e da ajuda mútua entre todas as nações (CV 53ss, LS 164-175) são pontos em comum entre a doutrina social católica e a maioria das propostas de desenvolvimento sustentado.
São muitos pontos em comum, todos apontando para um trabalho compartilhado e uma busca conjunta por aquilo que realmente dá sentido á vida e preenche o nosso coração.
Francisco Borba Ribeiro Neto
Jornal “O São Paulo”, edição 3144, 29 de março a 4 de abril de 2017

segunda-feira, 3 de abril de 2017

La Civiltà Cattolica

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Francisco Catão, teólogo com doutorado pela Universidade de Estrasburgo (França), foi professor no Instituto Pio XI e na Faculdade São Bento, autor de vários livros, tais como "O que é a Teologia da Libertação", "Em busca do sentido da vida" e "Espiritualidade cristã".

Papa “vindo do fim do mundo”, como ele mesmo o disse, ao ser eleito há quatro anos, Francisco imprime um dinamismo sem precedentes a seu pontificado, sobretudo pelo espírito que comunica aos órgãos mais tradicionais da Igreja. É o que se observa no seu discurso do dia 9 de fevereiro, por ocasião da comemoração do nº 4.000 da revista jesuíta La Civiltà Cattolica.
Fundada há 167 anos, quer ser expressão do pensamento católico em face das grandes questões de seu tempo. Neste sentido, para atualizá-la, o papa Francisco sublinha duas importantes inovações: a publicação da revista, não só em italiano, mas também em inglês, espanhol, francês e coreano, para que seja realmente católica, universal, e a prioridade a ser dada ao Espírito, que deve presidir sua redação.
A pluralidade linguística é fruto do reconhecimento efetivo da diversidade do mundo globalizado. Assim como os católicos deixaram de rezar somente em latim, a comunicação oficiosa do pensamento católico se deve fazer na pluralidade dos universos culturais.
A prioridade dada ao Espírito corresponde à visão renovada da Igreja estabelecida pelo Concílio Vaticano II. A vida católica deve tender a ser, antes de tudo, vida no Espírito que anima o povo cristão.
Na Igreja, o povo cristão é servido pelo ministério e pelo testemunho daqueles que, pelos dons hierárquicos e carismáticos recebidos de Deus, são chamados a sustentá-la em si mesma e no mundo.
Inseridos no mundo, todos os batizados, todo o povo cristão participa das alegrias e das angústias dos homens e mulheres de seu tempo. Nossa presença no mundo, pelo testemunho da vida de fé, de esperança e de amor, em primeiro lugar, com todos os recursos deque dispomos, antecipa o reinado de Deus que motivou a vinda do Filho de Deus e toda a vida de Jesus.
Sob esse ângulo, La Civiltà Cattolica, quer ser expressão da presença católica no mundo. Seus redatores, como autênticos comunicadores da Boa Nova da salvação, devem estar imbuídos do espírito missionário, que comporta, diz o papa, três características fundamentais: inquietação, incompletude e imaginação.
Inquietação enquanto somos chamados a participar das grandes interrogações que, homens de hoje, nos colocamos sobre nós mesmos, os destinos da humanidade e até mesmo do planeta.
Incompletude enquanto demonstramos saber que tudo está nas mãos de Deus e o que fazemos, por mais significativo que seja, é apenas uma pequena parte do todo, que somente o desígnio de Deus completa.
Imaginação, enfim, para discernir com criatividade os caminhos a seguir de fidelidade ao Espírito de Jesus. Orientados pela Palavra, mas sem ficar presos aos ditames do legalismo das interpretações casuístas da lei.
Que a inspiração do papa Francisco nos leve a renovar, no Espírito nossa vida, a vida de nossas comunidades e finalmente, nossa tarefa missionária de comunicadores do Evangelho!
Jornal "O São Paulo", edição 3144, 29 de março a 4 de abril de 2017

segunda-feira, 27 de março de 2017

Liturgia da Igreja e a exuberante natureza.

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
José Ulisses Leva é padre secular, doutor em História Eclesiástica pela Pontifícia Universidade Gregoriana e professor da Faculdade de Teologia da PUC-SP.

A belíssima mistagogia da nossa Igreja é alicerçada sobre as Verdades dos Mistérios da Encarnação e da Ressurreição. Do nascer ao acaso da vida somos presenteados pela narrativa do nascimento do Verbo de Deus e Sua gloriosa Páscoa, que nos remete à eternidade.
A natureza se manifesta exuberante no período. A Campanha da Fraternidade deste ano nos lembra que devemos “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2, 15). A criação é obra maravilhosa do Altíssimo e Onipotente Deus. “Deus, nosso Pai e Senhor, nós vos louvamos e bendizemos por vossa infinita bondade. Criastes o universo com sabedoria e o entregastes em nossas frágeis mãos pra que dele cuidemos com carinho e amor” (Oração da C/F 2017). A Quaresma nos lembra o itinerário dos últimos momentos na Terra de Cristo Jesus e marca, profundamente, o caminho da sua Paixão, Morte e Ressurreição. Recorda-nos, também, sobretudo como Igreja no Brasil, que devemos cuidar e amar a belíssima obra do Criador.
As pessoas que habitam no Hemisfério Norte podem meditar profusamente o período quaresmal. Elas vivem o momento litúrgico entre as Estações inverno/primavera. A Páscoa Cristã nos indica a passagem entre o rigoroso inverno, sem vida, para a entrada da estação das flores e o sentido da vida que nasce resplandecente.
Vivendo no Hemisfério Sul, entre as Estações verão/outono, somos agraciados pela natureza, quando as quaresmeiras se apresentam radiantes, combinando com o paramento roxo da Igreja. Somos convidados ao jejum, à oração e à esmola, como nos recorda a Palavra de Deus na celebração da Quarta-feira de Cinzas. Saindo das Paróquias e Capelas somos lembrados pela natureza, que nos ajuda a refletirmos sobre o período litúrgico atual.
Apreciando a natureza, especialmente a Mata Atlântica, que cobre boa parte do Estado de São Paulo, como homens e mulheres, crentes ou não crentes, percebemos Deus nos falando na explosão das cores e cercando-nos de carinho na majestosa criação. Como cristãos, ligamos a ação litúrgica da Igreja com o colorido das árvores, especialmente quaresmeiras e manacás. Quantos que não professam a Fé em Cristo Jesus também podem observar algo diferente nas cores emanadas das árvores, mormente na tonalidade roxa, que enfeita nossas praças, parques e avenidas.
A celebração da Quarta-feira de Cinzas lembrou-nos da nossa efêmera vida, sem a proteção e o carinho de Deus. Por isso recordou-nos: “Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15).
Lemos, no Livro do Gênesis, que somos feitos do barro e necessitamos do sopro divino para existirmos: “O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem tornou-se um ser vivente” (Gn 2, 7). O barro é apenas barro. Deus criou-nos do pó da terra com o sopro divino. Somos seres viventes em Deus.
O oleiro trabalha o barro, prepara a sua obra de arte, e a entrega inanimada, enquanto Deus infla o sopro divino nas nossas narinas e nós ganhamos a possibilidade de viver consciente e plenamente. 
Deus estabeleceu a relação de amor entre Ele e nós. Soprou em nossas narinas o alento da vida para que respirássemos e cuidássemos uns dos outros e de toda a Casa comum. Em tempos como o nosso, como cristãos, somos chamados a viver e celebrar o tempo litúrgico da Quaresma, que nos prepara para a belíssima Celebração da Páscoa. Tempo favorável, também, para lembrarmos e cuidarmos de toda a obra da criação. Enquanto cuidamos da Terra, honramos a Deus, respeitamos os outros e passamos a amar a nós mesmos, porque valorizamos e somos valorizados.   
Jornal "O São Paulo", edição 3143, 22 a 28 de março de 2017.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Campanha da Fraternidade 2017 - Subsidiariedade e diálogo na defesa do meio ambiente

A Doutrina Social da Igreja na defesa dos biomas brasileiros

V



Veja no final do texto as leituras sugeridas para aprofundamento

O princípio da subsidiariedade vem doutrina social da Igreja, mas está presente na organização política de muitos países. Estabelece que o Estado deve apoiar e dar condições para o pleno desenvolvimento das pessoas, mas sem querer dirigi-las ou tutelá-las, resguardando seu protagonismo, suas organizações e sua visão de mundo. Defende um Estado social, voltado ao bem-comum, que não é centralizador, autoritário ou assistencialista. Bento XVI, na Caritas in veritate, considera que solidariedade e subsidiariedade devem estar juntas, como pilares para o bem-comum (CV 58).
Esse princípio é fundamental para a conservação dos biomas. As populações locais são, quase sempre, aquelas que melhor conhecem os ecossistemas, podendo encontras as melhores práticas para sua conservação. Contudo, muitas vezes, sob a pressão de necessidades econômicas e grupos de interesse, acabam não se comprometendo com o meio ambiente, prejudicando a médio prazo a si e às gerações futuras. Por isso, é importante uma ação do Estado que não se imponha às populações locais, mas crie condições para que elas possam tomar as decisões mais adequadas para o manejo dos recursos naturais.
Um bom exemplo é a gestão das bacias hidrográficas. Os municípios vão captando e usando a água dos rios, despejando resíduos e esgotos. Assim, cada um têm responsabilidades e interesses com relação à qualidade da água na bacia hidrográfica. Recebem a água poluída pelas cidades e atividades humanas que estão antes no curso do rio e poluem a água para quem está depois. Se cada um for cuidar só da sua água – sem se preocupar com os demais – a situação tenderá a ficar ruim para todos. Cabe aos órgãos estaduais e federais e aos comitês de bacias, que reúnem os municípios e os atores sociais da região, ajudar os municípios a entrarem em acordo, conseguindo recursos para as obras necessárias, respeitando seus interesses e o bem-comum de toda a população.
Na Laudato si’, o princípio da subsidiariedade só vem nomeado duas vezes (LS 157, 196), mas todo o Capítulo V da encíclica (LS 163-201), que fala sobre linhas de ação para os governos e organizações sociais, ilustra esse princípio, mostrando o que é necessário para que ele exista: o diálogo. Mas, para haver diálogo é fundamental uma postura de humildade e verdadeiro interesse pelo bem do outro. Esse é o caminho para a defesa dos biomas e para a construção do bem-comum em nossa sociedade.

Leituras sugeridas do Magistério:
·         BENTO XVI. Carta Encíclica Caritas in veritate sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade. Roma, 29 de junho de 2009. Disponível aqui. Nº 57-67. Apresenta o princípio da subsidiariedade e sua vinculação ao princípio da solidariedade.
·         FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato si’ sobre o cuidado da casa comum, Roma, 24 de maio de 2015. Disponível aqui. Nº 164-201. Ilustra o princípio da subsidiariedade nos diferentes diálogos que devem existir para a defesa do meio ambiente e do bem-comum.
·         PONTIFÍCIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ. Compêndio de Doutrina Social da Igreja. Roma, 2 de abril de 2004. Disponível aqui. Nº 171-184. Explica o princípio da subsidiariedade.

Outras leituras sugeridas:
·         HERMANY, R. & LIPPSTEIN, D. O princípio da subsidiariedade e a (re)dimensão da competência municipal: cuidando do meio ambiente no espaço local. Iuris Dicere - Revista de Direito das Faculdades João Paulo II, 1 (1), 2016. Disponível aqui. Como o título mesmo diz, retoma o tema da subsidiariedade na gestão do meio ambiente numa perspectiva acadêmica.
Francisco Borba Ribeiro Neto
Jornal “O São Paulo”, edição 3143, 22 a 28 de março de 2017

segunda-feira, 20 de março de 2017

Agradecimento ao pai pelo dia em que não bebeu

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Alexandre Ribeiro é doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e editor de Aleteia.org

Meu pai, Afonso, mudou-se para São José dos Campos em meados de 1970. O quarto onde ele se hospedou nas primeiras semanas, de onde saía todas as manhãs para ir a pé de fábrica em fábrica procurar trabalho, era nos fundos de uma casa velha e pobre. Naquele mesmo lugar, alguns anos antes, havia morado seu irmão mais velho, Geraldo, também vindo do sul de Minas.
Geraldo tinha aspirações literárias, escrevia poemas metrificados. E bebia. Aos 25 anos, era um espírito solitário e alcoólatra. Fora seminarista na infância e juventude, mas abdicou da profissão religiosa para tomar as armas. Do Seminário ao Exército, os cadernos e a letra memorável sempre o acompanharam. Foram seu prazer e sua fuga. Quando vi seus poemas pela primeira vez, sua caligrafia impecável, fiquei abalado e fui conversar com minha avó materna sobre aquele velho tio. Minha avó, quando questionada, pensou alto, deixando escapar: "Ah, aquele irmão do seu pai que se matou..."
Busquei informações, confrontei fontes, mas aquele assunto estava enterrado, e ninguém nunca mais tocaria nele. Geraldo fora encontrado morto, em circunstâncias misteriosas, naquele mesmo quarto que meu pai viria a habitar tempos depois.
O dormitório era a imagem da pobreza e do horror que o seguiam na cidade grande, assombrado pelo vulto do irmão bêbado. Naquele momento da vida do meu pai, em que encontrar um trabalho possibilitaria a realização do sonho de se casar com minha mãe e começar sua própria família num lugar novo, ele teve a atitude que definiria sua vida: não bebeu.
O destino traçado por Geraldo, seguido por Isaac, o outro irmão mais velho, também estilhaçado pelo alcoolismo, não se confirmaria. Afonso conviveria com a depressão a vida toda, sem trégua, com os olhos petrificados, o olhar cabisbaixo, o jeito doce, porém sem confiança ao qual eu me aconchegava na infância, enquanto chamava de papai.
Lembro-me, quando criança, do cheiro do café a inundar nossa casa todas as tardes. Eu, voltando da rua, sento-me à mesa ao lado do pai, que reclina para acariciar meus cabelos suados. Minha mãe estende-me a caneca. Papai pega um pão, rasga-o com a faca de cabo azul, passa manteiga e me entrega sobre um pires branco. Mamãe senta-se ao nosso lado. Mergulho o pão no café com leite e começo a comer calmamente, apesar das pernas agitadas debaixo da cadeira.
Papai se levanta, vai até a mesa da sala e pega seu caderno. Em letra de forma, anota os gastos diários numa planilha azul. Ele não sabia escrever em letra cursiva. Não me recordo tê-lo visto redigindo frases completas, apenas anotações soltas, em que cada linha formava um tópico. Sua letra em nada exibia a sofisticação da escrita de Geraldo. Seu carisma era quase um pedido de desculpas, e ainda assim ele era cercado de amigos fiéis, algo que para mim era incompreensível, pois imaginava que as amizades se avolumavam ao redor de espíritos expansivos e alegres, e papai, em sua melancolia cabisbaixa, não se encaixava nesse perfil.
Afonso destaca do caderno a folha tracejada e me entrega. O desenho simplório de um boizinho, que tanto me alegrava, era-me dedicado como um beijo de boa noite, antes que ele fechasse o caderno e fosse ver o noticiário na TV.
Hoje, na gaveta à minha esquerda, eu guardo os poemas de Geraldo. Eles estão logo abaixo de alguns desenhos de boizinhos que ainda me acompanham, entre os quais se encontram fotografias da infância.
Ali, em meados dos anos 1970, sozinho na cidade grande, no mesmo quarto onde o irmão desistira de tudo, meu pai tomou a atitude que definiria sua vida e a de todos nós: ele não bebeu. E assim encontrou trabalho, se casou, teve dois filhos e levou uma vida honrada até o fim. Toda ternura e paz da minha infância, de certa forma, eu devo àquela firme e nobre decisão.
Jornal "O São Paulo", edição 3142, 15 a 21 de março de 2017