quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

É Natal se acontece em você

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Ana Lydia Sawaya é professora da UNIFESP, fez doutorado em Nutrição na Universidade de Cambridge. Foi pesquisadora visitante do MIT e é conselheira do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Toda festa litúrgica é um “memorial”, um evento a ser vivido e não apenas celebrado. Na tradição da Igreja, viver a memória do Natal significa muito mais do que se lembrar de um evento que aconteceu no passado e que nós recordamos porque é importante não esquecer. Quer dizer reviver um “evento divino” em nosso presente. Um acontecimento feito por Deus que entra na história da humanidade e, portanto, é um fato divino e eterno, que não se restringe a um tempo (dois mil anos atrás) ou um lugar (Belém). Um prefácio da liturgia de natal diz: “por ele, realiza-se hoje o maravilhoso encontro que nos dá a vida nova em plenitude. No momento em que vosso filho assume nossa fraqueza, a natureza humana recebe uma incomparável dignidade – ao tornar-se ele um de nós, nós nos tornamos eternos”. Ou como diz São Leão Magno: “despojemo-nos, portanto, do velho homem com seus atos; e tendo sido admitidos a participar do nascimento de Cristo, renunciemos às obras da carne”. Nos lembra ainda uma antífona da oitava de natal: “admirável intercambio! O criador da humanidade, assumindo corpo e alma, quis nascer de uma virgem. Feito homem, nos doou sua divindade”!
Assim, nós todos, cada um de nós, é chamado a nascer de novo neste tempo. E numa espiral ascendente aprofundar a consciência da nossa dignidade divina. Precisamos voltar a ser crianças com o menino Jesus.  O Natal, não é de fato, antes de tudo a festa das crianças? Quem é tão velho que não pode voltar a ser criança? Jesus diz, olha, convém-lhe voltar a ser criança, pois é assim que você entrará no céu.
A sociedade de consumo se aproveitou disso e foi aos poucos transformando o natal em uma festa de presentes a serem comprados, primeiro para as crianças e depois para todos os adultos. O consumismo e a obrigatoriedade de comprar presentes tornou a festa de natal, uma festa para poucos escolhidos... Mas convém-nos não ser passivos diante dessa cultura que definiu o ser humano como aquele que “é objeto de consumo”; pois ela nos reduz tremendamente e nos faz perder a consciência da nossa dignidade. O que podemos fazer então para viver o natal de modo cristão? Que tal fazermos os presentes para os outros em vez de comprar? Uma torta, brigadeiros ou bolo? Um crochê, tricô ou pintura? Um vaso? E para quem não tem tempo: gravar umas músicas, pegar uma bela apresentação na internet e presentear? Quando era pequena nós construíamos a arvore de natal com galhos e pintávamos as bolas que fazíamos com pedaços de jornal e cola. Por que também não perguntar no trabalho ou no prédio se tem alguém que vai passar o natal sozinho, sem família, ou que o marido ou a esposa o deixaram, ou quem perdeu alguém este ano e fazer uma festa alargada e comunitária? Para muitas pessoas o natal é o período mais triste do ano, e quando o número de suicídios mais aumenta.
Uma linda mensagem de Natal, que teve ampla divulgação nas redes sociais, nos lembra que essa festa deve acontecer em nós: “Natal é você quando se dispõe, todos os dias, a renascer e deixar que Deus penetre em sua alma. O pinheiro de Natal é você, quando com sua força, resiste aos ventos e dificuldades da vida. (...) Você é o sino de Natal, quando chama, congrega, reúne. A luz de Natal é você quando com uma vida de bondade, paciência, alegria, generosidade consegue ser luz a iluminar o caminho dos outros. Você é o anjo de Natal quando consegue entoar e cantar sua mensagem de paz, justiça e de amor. (...) O presente de Natal é você, quando consegue comportar-se como verdadeiro amigo e irmão de qualquer ser humano. (...) Você será os votos de Feliz Natal quando perdoar, restabelecendo de novo, a paz, mesmo a custo de seu próprio sacrifício. (...) Você é a noite de Natal quando consciente, humilde, longe dos ruídos e de grandes celebrações, em silêncio recebe o Salvador do mundo”.
Jornal "O São Paulo", edição 3132, 20 de dezembro de 2016 a 10 de janeiro de 2017.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Pátio da Cruz - A judicialização da Política

Esse ano que está findando foi marcado pelos embates entre lideranças políticas nacionais e a justiça brasileira. Qual o significado dessa "judicialização da política"? Para debater esse tema, o Pátio da Cruz trouxe o jornalistas Marcelo Godoy, do jornal O Estado de São Paulo, e o Prof. Cláudio Langroiva Pereira, da Faculdade de Direito da PUC-SP. Ambos discutem a questão do ponto de vista das relações entre mídia, justiça e política no contexto atual e da capacidade da legislação brasileira em prever e punir os crimes políticos que vieram a tona nesse ano.

Neste Advento, leia também: Dezembro, entre Deus e o diabo

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Pátio da Cruz - O amor cristão e a solidariedade


O Natal é a festa da solidariedade de Deus que chega ao ser humano, num gesto de amor e ternura. Neste Advento, o programa Pátio da Cruz retoma o testemunho de vida e a visão sobre a sociedade do Prof. Antonio Carlos Malheiros, pró-reitor de Cultura e Relações Comunitárias da PUC-SP.

Neste Advento, leia também: Dezembro, entre Deus e o diabo

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Pátio da Cruz - Deus e a ciência


Qual é a postura certa na relação entre a ciência e a fé? Como as novas descobertas da ciência afetam a fé religiosa no mundo de hoje? Qual o impacto do sofrimento e da dor na experiência humana do cientista e na sua possibilidade de encontrar a Deus? Como a teoria da evolução dialoga com a doutrina católica? Afinal, como, um cientista pode acreditar em Deus nos tempos atuais? Para discutir essas questões, Padre Vandro Pisaneschi, coordenador do Vicariato Episcopal para a Educação e a Universidade, entrevista o Prof. Eduardo Cruz, da PUC-SP, especialista em Teologia da Ciência, e o Prof. Francisco Borba, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Dezembro, entre Deus e o diabo

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte

Francisco Borba Ribeiro Neto, 
coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Nenhum outro mês é como dezembro. A iminência das festas de final de ano, a chegada das férias escolares, as comemorações “da firma”, os balanços anuais e os planos para um novo ano... Num frenesi de emoções contrastantes, corremos tanto para preparar nossos momentos felizes que nos arriscamos a esquecer de porque estes momentos deveriam ser felizes. Nos afanamos tanto em preparar nossas festas que não saboreamos sua razão de ser.
Esse é o mês de pinheiros alienígenas e vitrines com enfeites e neves de algodão, de Papais Noel se derretendo sob um calor abrasador – símbolos extravagantes, mas carregados de uma ternura infantil, de nosso anseio pelo totalmente Outro, desse anseio que o mundo aprendeu a comercializar, mas não entende nem consegue realmente satisfazer.
A Igreja, em sua sabedoria milenar, dedicou esse mês à interiorização do Advento, para a redescoberta das razões pelas quais fazemos as coisas, preparação para encontrar Deus como um singelo e desprotegido bebê. Esse deveria ser o tempo do retorno ao lar, quando os distantes voltam para suas famílias, os solitários redescobrem o amor, os pobres e os que sofrem são acolhidos com justiça e ternura, os filhos reencontram o Pai.
Mas um habilidoso demônio preencheu dezembro com atividades estafantes e tediosas. Usando amores falsos, vendidos e até cínicos, conspurcou a memória do Amor e dos amores verdadeiros. Desvirtuou as festas, que deixam de celebrar a alegria e se tornam uma duvidosa catarse do vazio e da falta de sentido.
A questão não é só de uma festa mal comemorada. As festas celebram a vida. Uma festa mal comemorada representa uma vida mal vivida. Assim, uma cruel desumanidade, como sombra sútil, nos acompanha nesse tempo de maravilhas, transformando a Beleza em fantasia inconsequente.
Nós, cristãos, nos acostumamos a criticar a mercantilização do Natal em nossa sociedade. É justo, mas com esse foco não percebemos que tudo que fazemos revela um pouco de nossos anseios mais profundos. O desejo de um amor sem limites; da paz que apaziguará não só as nações beligerantes, mas também os corações amargurados; da ternura que não só sanará nossas feridas, mas também trará a justiça para os excluídos e os pobres da terra – tudo isso está presente, ainda que desfigurado, nesse mês de dezembro.
O resgate desse tempo passa menos pela censura de seus desvios que pela percepção de toda a profundidade e riqueza humana que se esconde em seus símbolos, mesmo que oscilem da mais sublime espiritualidade ao mais reles mercantilismo.
Papai Noel não é só a degradação consumista do espírito natalino. Ele é a confirmação de que nossa cultura, por mais mercantilista e interesseira que seja, não consegue apagar em nosso coração o desejo de uma gratuidade e de uma bondade sem limites. A mentalidade do mundo diz que todos queremos ser sobrinhos (e herdeiros) do Tio Patinhas. Mas, no fundo, sabemos que só seremos felizes sendo filhos de um Papai Noel que sempre nos dê a alegria e a liberdade dos que vivem para amar.
A força do cristianismo não está em condenar o mundo, mas em mostrar sua verdade. Cristo não é aquele que condenou Mateus, Zaqueu, a samaritana, Madalena ou mesmo Pedro, mas sim aquele que lhes mostrou a existência de um Amor ansioso por responder ao drama humano.
O Advento e o Natal são o tempo de descobrir e testemunhar a verdade que se esconde por traz de nosso desejo de alegria, de paz e de festa. O mal não está em acreditar em Papai Noel, mas em pensar nele como a fantasia de uma noite de ilusão, e não como símbolo de uma realidade que nos acompanha todos os dias do ano.
Jornal "O São Paulo", edição 3131, 8 a 13 de dezembro de 2016.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A drástica queda da pobreza no mundo nos últimos 20 anos

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Ana Lydia Sawaya é professora da UNIFESP, fez doutorado em Nutrição na Universidade de Cambridge. Foi pesquisadora visitante do MIT e é conselheira do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

É característica de quem tem fé lembrar-se sempre, ou ter sempre diante dos olhos, que o mundo não é um caos abandonado ao vento dos impulsos dos homens maus, pois Deus veio nos ajudar de forma definitiva; e o Espírito Santo age interminavelmente na história. Assim podemos afirmar com o apóstolo Paulo “onde abundou o pecado, superabundou a graça”. Goethe no Fausto diz que o diabo é aquele ser que quer sempre fazer o mal, mas acaba sempre fazendo o bem.
Ninguém, que tenha o olhar um pouco atento, pode negar que o mal tenha abundado no mundo nos últimos tempos; mas se fixarmos ainda o olhar com atenção para escrutinar toda a realidade na sua integralidade, descobriremos fatos surpreendentes. Um exemplo disso são os dados sobre pobreza tornados públicos na recente Assembleia Geral das Nações Unidas. Diz o relatório que estamos num momento histórico de inflexão, pois:
1.       O número de pessoas vivendo na pobreza extrema (US$ 1,90 por pessoa por dia) caiu pela metade em duas décadas, e o número de crianças pequenas morrendo teve queda semelhante – são seis milhões de vidas salvas todo ano pelas vacinas, incentivo ao aleitamento materno, remédios para pneumonia e tratamentos contra a diarreia! Assim argumenta que é preciso anunciar ao mundo que o processo mais importante que aconteceu no início do século 21 foi a impressionante redução do sofrimento humano. Em 1981, 44% da população mundial vivia na extrema pobreza (segundo dados do Banco Mundial), e calcula-se que este número se tenha reduzido para menos de 10% e continua em queda!
2.       Ele cita ainda outros fatos de deixar qualquer um de queixo caído de surpresa. Durante toda a história da humanidade até a década de 1960, a maioria dos adultos era analfabeta, sendo que atualmente 85% dos adultos presentes no mundo já foram alfabetizados e a proporção está aumentando.
3.       Além disso, a desigualdade no mundo está em queda por causa dos ganhos conquistados pelos pobres em países como a China e a Índia que contam com cerca de um terço da população mundial. Por isso, a ONU tem como objetivo factível erradicar a pobreza extrema até 2030.
4.       Por fim, é necessário considerar que esta transformação da condição humana ocorreu num período de 20 anos, ao passo que a pobreza e as péssimas condições de vida assolaram a maior parte da humanidade por milhares de anos.
Esses são fatos que as pessoas normais não sabem, porque ninguém ou quase os noticia. A tradição cristã nos ensina ao contrário, educar-se a olhar sempre para o fator positivo da realidade, para os dentes brancos da carniça de um cão morto como dizia um livro apócrifo, para não cair na armadilha de sermos instintivamente arrastados pelo mal com a ilusão de que estamos abandonados.
Não se trata absolutamente de uma visão otimista da realidade, mas de uma observação atenta e realista, que não pode deixar de constatar desde tempos imemoriais quando os homens começaram a filosofar que a maioria dos seres humanos age sobre a terra em busca do bem da beleza e da verdade, e com a ajuda de Deus, sempre encontrarão caminhos para alcançar essas realidades. E que o mal existe, mas não é o fator predominante. Enquanto há guerras, terrorismo, assassinatos, corrupção sistêmica, há também milhões de pessoas trabalhando e atuando para diminuir a pobreza no mundo que estão sendo bem-sucedidas!
Jornal "O São Paulo", edição 3130, 30 de novembro a 7 de dezembro de 2016.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Trump ganhou. Para onde olhamos?

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Rafael Mahfoud Marcoccia é professor do Centro Universitário da FEI, fez Doutorado sobre Doutrina Social da Igreja e é colaborador do site católico Terre d'America. 

Passada a surpresa da eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos, várias análises começaram a circular. Entre os cristãos, há aqueles que comemoram a vitória do republicano, seja porque ele se coloca com uma agenda pró-vida, seja porque Hillary, que tem relações complicadas com a Igreja, perdeu. E há aqueles que lamentam e não entendem como um candidato com um discurso muitas vezes preconceituoso possa ter vencido. Para onde olhamos?
Há um consenso de que a vitória de Trump foi impulsionada pela classe operária que sente um mal-estar crescente com a globalização, que exportou empregos industriais para o México, em menor escala, e para a China, em maior volume. Os empregos somem e a renda também despenca – dados mostram queda de 14% somente nos últimos dez anos. Além disso, 80% dos apoiadores de Trump se disseram cansados de políticas que favoreciam grupos específicos da população, como negros e imigrantes. Ou seja, o mal-estar é também cultural e de identidade. Em suma, o fenômeno aponta para o cansaço daqueles “de fora” do sistema com aqueles que comandam o processo. Trump captou a insatisfação e usou um discurso certeiro.
Fenômeno semelhante ocorre na Europa. O Brexit é consequência disso, da mesma forma que a francesa Marine Le Pen, voz de direita contra a imigração e a União Europeia, tem 25% das intenções de voto na corrida presidencial, o que a levaria ao segundo turno. Partidos antiglobalização de direita também estão ganhando força na Alemanha, na Holanda, na Hungria e na Áustria.
Em comum com Trump, todos canalizam a seu favor as angústias dos cidadãos que se sentem marginalizados pela globalização e vitimados pela imigração, culpando minorias e forças externas pelos problemas sociais e pelo desemprego, e incentivando o sentimento nacionalista.
Estamos diante de um discurso que divide a sociedade, que joga uns contra outros, que tem propostas mais reativas que propositivas. Esse é o principal problema. Reportagens dos jornais mostram que desde a eleição de Trump foram contabilizados 310 ataques de quem se diz ser seu seguidor contra negros, homossexuais e imigrantes.
Frente a esse cenário, o Papa Francisco defende a “cultura do encontro”, com uma participação social efetiva e plural e disposta ao diálogo sincero em todos os níveis: desde a cooperação entre os países até às associações, obras de caridade, cooperativas etc. que já promovem, em suas comunidades, a dignidade da pessoa e o bem comum através do acolhimento e integração das pessoas à sociedade.  Ou seja, por meio de ações baseadas não nas ideologias – quaisquer que sejam -, mas no amor às pessoas concretas que estão diante de si.
Como S. João Paulo II escreveu, retomando Paulo VI, devemos construir a “Civilização do Amor, o fim para o qual devem tender todos os esforços tanto no campo social e cultural, como no campo económico e político” (“Dives in misericordia”). Tomar ações concretas para uma sociedade mais justa, fraterna e inclusiva. Afinal, diz S. João Paulo II, “a solidariedade é a responsabilidade de todos com todos os homens” (Centesimus annus).
Em qualquer situação, a Igreja reafirma a esperança. O sistema político pode estar ruindo pela corrupção ou por discursos e propostas vistas como irresponsáveis, e isso machuca a todos. Mas não eliminam a experiência de inúmeras pessoas e obras cristãs que, com sua criatividade e liberdade, respondem aos desejos de bem comum, de felicidade e de justiça.

Jornal "O São Paulo", edição 3129, 23 a 29 de novembro de 2016.