terça-feira, 25 de outubro de 2016

A arte sacra universal perde um talento brasileiro

Cláudio Pastro

Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

O paulistano Cláudio Pastro morreu na madrugada do dia 19 de outubro. Era considerado internacionalmente como o mais importante artista sacro brasileiro e um dos maiores do mundo.
Nascido no Tatuapé, em 1948, recebeu na infância, das irmãzinhas da Assunção, uma formação religiosa marcada pela beleza da liturgia e pela objetividade da relação da pessoa com Deus. Posteriormente, se aproximou da Ordem Beneditina e tornou-se oblato do Mosteiro Nossa Senhora da Paz, em Itapecerica da Serra, sua casa espiritual em vida e onde foi sepultado.

Trajetória artística
No início da década de 1970, foi trabalhar como voluntário na periferia de São Paulo, dando aulas de artesanato nas favelas de São Mateus. Foi lá que conheceu Comunhão e Libertação, movimento católico responsável pelo início de sua trajetória artística.
Considerada a mais marcante influência na vida de Pastro, Madre Dorotéia Rondon Amarante, abadessa do Mosteiro da Paz, o formou e o incentivou a conhecer os grandes mestres do Concílio Vaticano II, como Odo Casel e Romano Guardini. 
Cláudio estudou arte na Abbaye Notre Dame de Tournay (França), no Museu de Arte Sacra da Catalunha (Espanha), na Academia de Belas Artes Lorenzo de Viterbo (Itália), na Abadia Beneditina de Tepeyac (México) e no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. As origens de sua arte, contudo, sempre foram sua experiência de fé, marcada pela beleza da liturgia, e sua vivência junto aos mosteiros beneditinos.
No final da década de 1990, foi convidado para sua obra mais importante: concluir o interior da Basílica de Aparecida, que na época tinha as paredes nuas, sem nenhuma obra de arte. Ainda no início dos trabalhos, em função de uma crise hepática, entrou num coma que durou quarenta dias.
Praticamente renascido, seus últimos anos foram marcados pelos sofrimentos advindos de uma saúde muito comprometida e por uma produção artística que impressionava a ele mesmo. Nunca havia produzido tanto ou sido tão reconhecido.

A renovação dos espaços sagrados
Os especialistas de patrimônio cultural consideram os templos religiosos como obras físicas “mortas”, a serem preservadas para retratar um período histórico. Pastro os considerava como obras vivas, fruto da interação permanente da comunidade de fieis com as estruturas materiais. Por isso, afora casos específicos de alto valor histórico, considerava que o templo tinha que passar sempre por um processo de renovação que mantivesse suas raízes, mas também acompanhasse a evolução da comunidade.
Assim, seguindo o espírito do Concílio Vaticano II, concebeu, em 1988, o primeiro espaço celebrativo no Brasil que seguia as normas litúrgicas pós conciliares: a Capela da Hospedaria do Mosteiro Beneditino de Brasília.

 Capela da Hospedaria do Mosteiro Beneditino de Brasília


As comunidades, das pessoas simples do interior do Brasil aos membros de grandes associações europeias, sempre gostaram e se renovaram com suas obras. Por isso, hoje em dia, existem centenas de espaços religiosos de sua autoria no Brasil, na Itália, Alemanha, França e Espanha.
Caso exemplar é o Pátio do Colégio, marco da fundação de São Paulo. A igreja colonial que ali existia praticamente desabou no século XIX e o espaço passou à prefeitura, sendo retomado pelos jesuítas só em 1953.
Pastro não quis reconstruir a igreja colonial, pois essa não mais existia e refazê-la seria uma falsidade. Usando azulejos (material típico do Brasil colônia) refez a igreja internamente, de modo a recuperar a memória de seu significado histórico, mas incorporando as normas litúrgicas preconizadas pelo Concílio Vaticano II e a estética da atualidade.

Capela do Pátio do Colégio


Associação Cláudio Pastro
Após sua morte, a catalogação de sua imensa obra (cerca de 300 igrejas espalhadas pelo mundo e um número incontável de quadros, esculturas e objetos litúrgicos) está a cargo da Associação Cláudio Pastro – Ars Sacra. A ela cabe agora o encargo de tornar esse patrimônio acessível e conhecido por todos.
Jornal "O São Paulo", edição 3125, 26 de outubro a 1º de novembro de 2016.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A alternância de poder é a melhor coisa para a democracia

Ana Lydia Sawaya é professora da UNIFESP, fez doutorado em Nutrição na Universidade de Cambridge. Foi pesquisadora visitante do MIT e é conselheira do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Eleições mais modestas e com um terço dos gastos aproximaram os candidatos da população e os afastaram dos marqueteiros cujo trabalho é, essencialmente, construir uma “personalidade” fictícia que corresponda ao imaginário da população. Uma eleição menos midiática, com menos gastos, com mais encontros pessoais e visitas locais, só pode beneficiar a democracia ao diminuir as distâncias entre políticos e eleitores. Esta foi uma conquista que a população não pode deixar voltar atrás. Gastos exorbitantes (enquanto há tantos desempregados) não devem mais ocorrer porque eles mais prejudicam a democracia do que favorecem. O marketing político cria também artificialmente “salvadores da pátria” e deifica uma pessoa em detrimento de uma equipe (que mal aparece).
Em democracias mais amadurecidas, o controle do povo sobre os políticos é favorecido quando acontece alternância de poder. Houve no Brasil grande ganhos com a queda da ditadura, a constituição de 1988 e os benefícios sociais que permitiram a diminuição da pobreza, da subnutrição, do analfabetismo, e a universalização do ensino (embora ainda sem qualidade). Mas é evidente que estamos num período de inflexão onde a democracia brasileira parece estar querendo dar mais um passo de maturidade, pois cresce o número de pessoas que está se dando conta que a resposta não está em salvadores da pátria, entre “bons” e “maus”, mas em um sistema de governança novo que inclui trabalho em rede com a constituição cada vez mais sólida de entidades que representem a sociedade civil organizada.
Nas últimas décadas foram criadas leis e normas que favoreceram enormemente os políticos e sua permanência no poder. Há muitos políticos “profissionais” que estão no governo há décadas. A carreira política é a que oferece os maiores benefícios em termos de salário com os muitos acréscimos, aposentadoria após pouco tempo de exercício no cargo, foro privilegiado, carros e apartamentos de graça além de auxílio moradia, muitos assessores a seu serviço, etc., que não existem em muitos países desenvolvidos. Muitos políticos conseguem não só permanecer na política por muito tempo, mas até garantir a permanência da família por várias gerações, passando o bastão de pai para filho e até neto. Tudo isso distancia o político do compromisso com a população e a obrigação de servir ao bem comum, pois torna a política uma carreira própria em benefício de si mesmo e de sua família. Por isso a alternância de poder é altamente benéfica para o exercício da democracia e de mais controle social. Outro fator ainda é a descentralização do poder e do dinheiro. Hoje poucas pessoas tem o poder de decidir para onde vão grandes quantidades de recursos. Em uma cidade como São Paulo, por exemplo, é o Secretário (e seus interesses políticos) quem determina aonde irá o dinheiro. As subprefeituras, que são uma estrutura que permite uma visão mais local e podem reconhecer melhor as diferentes necessidades de cada região, estão esvaziadas.
Se para nós cristãos é claro que a política deve ser o serviço ao bem comum é muito importante que não caiamos na ilusão do político salvador da pátria, daquele que “me dá coisas” ou do político “profissional” que me representa. E a resposta está como ensina a Doutrina Social da Igreja na formação de uma sociedade organizada que trabalha em rede. Um exemplo disso é que mais pessoas que amem verdadeiramente Jesus Cristo se candidatem aos Conselhos Tutelares, às Associações com interesse social e de bairro, etc..
Jornal "O São Paulo", edição 3123, 12 a 18 de outubro de 2016.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

As verdadeiras armas da paz

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Wagner Balera é professor titular de Direitos Humanos na Faculdade de Direito da PUC-SP e conselheiro do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

A agenda da Doutrina Social da Igreja girou inicialmente em torno do mundo do trabalho. Tratava-se de enfrentar a questão social que, no final do século dezenove, intentava colocar em claro confronto o capital e o trabalho.
Ocorre que os primeiros cinquenta anos do século XX foram palco de nada menos que dois conflitos mundiais. Essa grave patologia fez com que o Magistério da Igreja inscrevesse outro tópico na pauta da Doutrina Social.
Coube a São João XXIII qualificar esse tópico quando lançou a luminosa Encíclica Pacem in terris e, por intermédio dela, busca compreender que a paz depende do adequado relacionamento entre os Estados que tenha como base quatro conceitos fundamentais: a verdade, a justiça, a liberdade e o amor.
A partir dessa peculiar perspectiva podem ser analisadas todas as guerras que percorreram a história.
A guerra tanto pode ser a fórmula de degradação que um Estado quer impor ao outro, como ocorreu com o fenômeno do colonialismo como, ainda, pela dominação ideológica, como se viu com a temática da guerra fria.
Os critérios da Pacem in terris exigem que, em primeiro lugar, os povos se relacionem – notemos bem, os povos, antes que os Estados – com verdade. Este bem – que o próprio Cristo atribuiu como característica de sua personalidade – impõe aos participes da comunidade humana que vejam os demais como sujeitos de direitos e de deveres, enfim, como pessoas.
A liberdade, como fio condutor do agir das pessoas e dos Estados, associa cada qual a um cabal compromisso com a responsabilidade. Sou livre porque sou responsável pelas ações que posso e devo praticar. E, enquanto tal, respondo pelos acertos, pelos erros e pelos excessos.
Não será alcançada a paz, no entanto, se o coração humano não se dispuser ao amor. Eis a boa notícia do Evangelho que João XXIII resume e compendia como atributo da vida social que deve “estar animado por um amor tal que sintam as necessidades dos outros como próprias, induzindo-as a compartir seus bens com os outros, e a esforçar-se no mundo para conseguir que todos os homens sejam iguais herdeiros dos mais nobres valores intelectuais e temporais”.
Quão distinto seria o liame entre povos desenvolvidos e os que estão em vias de desenvolvimento se o amor fosse a regra do jogo nos relacionamentos!
Mas, a paz depende, mais propriamente, da construção de uma sociedade mundial mais justa e humana.  A fisionomia atual, onde a brutal distinção entre os povos da fome e os povos da opulência (como assinalava a Gaudium et Spes), fomenta as guerras dentro de inúmeros países e, igualmente, entre dois ou mais países, como também notou o grande Pontífice, faz com que a questão social assuma uma dimensão mundial.
Perguntava São João XXIII e, até agora, ninguém lhe ofereceu resposta: “Esquecida a justiça, a que se reduzem os reinos senão a grandes latrocínios? ”
O Programa de Direitos Humanos da PUC-SP lançou, neste ano, pela Editora Lumen Juris, dois livros sobre este tema:  “Na verdade a paz” e “A paz é possível”. Dentro de um projeto abrangente, essas obras esmiúçam algumas das guerras que a história humana catalogou, intentando compreende-las à luz dos critérios estabelecidos pela Pacem in terris, e apresentam as Mensagens de Paz que, desde Paulo VI, tem sido incorporada à Doutrina Social da Igreja, como referenciais de interpretação dos conflitos que afligiram e afligem a humanidade em todos os tempos.
Jornal "O São Paulo", edição 3122, 5 a 11 de outubro de 2016.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

As eleições municipais e a Doutrina Social da Igreja

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Rafael Mahfoud Marcoccia é professor do Centro Universitário da FEI, fez Doutorado sobre Doutrina Social da Igreja e é colaborador do site católico Terre d'America. 

Em outubro estaremos diante de mais uma eleição para prefeito e vereador. Desejamos compreender os critérios oferecidos pela Igreja Católica para escolher os candidatos e viver o momento das eleições de modo positivo e construtivo.
Em uma sociedade, as pessoas se organizam em grupos e movimentos para responder às suas exigências e necessidades mais profundas. São inúmeros exemplos, tais como: centros de acolhida para pessoas em situações críticas, creches, centros de formação profissional, escolas, hospitais filantrópicos, cooperativas de microcrédito, cooperativas de trabalho, atividades de assistência a idosos, entre outros. São presenças capilares no tecido da nossa sociedade. 
Essa riqueza não depende exclusivamente da ação de quem “faz política”, mas das realidades sociais que vivem uma estima sincera para com o outro, em qualquer situação que este se encontre, que o torna mais livre e responsável diante das próprias circunstâncias da vida. São experiências de solidariedade e gratuidade. Isso é construção política!
Partindo da experiência humana, a Doutrina Social da Igreja nos convida a participar da vida política de nosso município em torno de alguns princípios:
1) Princípio da Dignidade Humana: significa aceitar que no centro do sistema político está a pessoa com os seus direitos e seus deveres. O governo deve garantir a liberdade de pensamento e consciência, de educação e de associação, e reconhecer o valor da pessoa da concepção até o último instante da vida.
2) Princípio de Solidariedade: defende que não se dê como caridade o que já é devido a título de justiça; que se eliminem as causas estruturais dos males, não só os efeitos; e que a ajuda seja encaminhada de tal modo que, os que a recebem, aos poucos, se libertem da dependência e se tornem autossuficientes (cf. Concílio Vaticano II, n. 8).
3) Princípio de Subsidiariedade: sugere que tudo aquilo que pode ser realizado pela sociedade deve ser incentivado e incrementado pelo poder público, deixando para o governo somente aquilo que a sociedade não é capaz de resolver, e sua fiscalização.
Concretamente podemos exemplificar a aplicação desses princípios:
- na educação: o poder público deve incentivar e apoiar integralmente, inclusive no campo financeiro, todas as propostas educativas, como creches, escolas, centros de formação e universidades criadas pelas próprias comunidades ou por organizações religiosas e leigas, que sejam eficientes e verdadeiramente públicas.
- na saúde: cabe à administração pública valorizar obras nascidas da sociedade, como a Santa Casa de Misericórdia, aumentar as verbas repassadas a essas instituições, além de valorizar o serviço prestado pelos ambulatórios médicos e odontológicos que oferecem serviços gratuitos às populações mais pobres.
- na habitação: o governo deve favorecer associações que realizam assentamentos legais e regularizados, e fazer convênios de assessoria técnica e econômica, ou seja, favorecer as inúmeras experiências de mutirões existentes.
Em suma, a política precisa de governantes éticos e que respeitem a liberdade e a criatividade das pessoas, valorizando as iniciativas sociais que delas nascem e respondem às necessidades cotidianas. A política não precisa de pessoas que se julgam no direito de decidir o que é bom para todos. Que cada pessoa seja protagonista de sua história e que possa estar sempre a serviço do bem comum.
Jornal "O São Paulo", edição 3121, 28 de setembro a 4 de outubro de 2016.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O Profetismo da Igreja Doméstica

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte

Padre Denilson Geraldo, SAC, é professor da Faculdade de Teologia da PUC-SP e membro da Cátedra André Franco Montoro de DIreito da Família da PUC-SP. 

As Conferências do Episcopado Latino-Americano e do Caribe apresentam, de Medellín a Aparecida, a dimensão profética da Igreja doméstica que se exprime no anúncio do Evangelho e na denúncia das injustiças sofridas, principalmente contra as mulheres. O II Simpósio Internacional de Teologia da PUC-SP, na mesa temática apresentada no campus Santana, refletiu sobre a centralidade da mulher para a configuração da família e sua desconfiguração pela violência.
O fundamento da abordagem encontra-se no conceito de pessoa como imagem e semelhança de Deus e no reconhecimento de sua dignidade. As denúncias do CELAM se fazem diante das diversas formas de violência, principalmente contra a mulher pobre, ainda mais vulnerável. Estudos apontam que a violência não é um fenômeno somente da miséria material, mas se relaciona com os determinantes sociais ao qual a mulher pertence e onde a relação de dominação sobrepõe-se à de amar, ou seja, a violência doméstica encontra-se em todas as classes sociais. A família, que representa um lugar de refúgio e segurança torna-se, para muitas mulheres, o local da vulnerabilidade, destacando-se o problema do machismo. A família, como Igreja doméstica profética, não pode deixar de fazer a denúncia das situações de violência.
A prática de Jesus foi decisiva para ressaltar-se a dignidade da mulher e seu valor insubstituível. A figura de Maria, discípula por excelência entre os discípulos, é fundamental na recuperação da identidade da mulher e de seu valor na vida eclesial, familiar, cultural, social e econômica, criando espaços e estruturas que favoreçam sua participação. O anúncio dessa boa nova será sempre proclamado pela família.
De fato, é necessário superar a mentalidade que ignora a novidade do cristianismo, no qual se reconhece a identidade da mulher e torna-se urgente à Pastoral Familiar a necessidade de uma escuta qualificada do clamor, muitas vezes silenciado pela violência de mulheres submetidas a muitas formas de exclusão. A escuta qualificada significa a urgência em preparar pessoas para acolher as vítimas, especialmente aqueles que trabalham na secretaria paroquial e na Pastoral Familiar, proporcionando uma acolhida em situação de extrema vulnerabilidade. 
Acolher é o primeiro passo para ajudar a vítima de violência a readquirir a autoestima e a coragem para falar sobre o que se passa na intimidade do lar, superando a vergonha familiar e social. O acolhimento na comunidade paroquial faz a pessoa retornar porque sabe que, se acontecer novamente a violência, não será julgada ou debochada. Do mesmo modo, o sacerdote no Sacramento da Penitência saberá acolher a pessoa enfraquecida pela situação doméstica e ajudará a própria vítima a adquirir forças para tomar decisões que coloquem fim à violência doméstica. A acolhida é sinal de uma Igreja paroquial em saída, de uma verdadeira opção pelos pobres. Oferecer uma formação qualificada de acolhimento às vítimas de violência pode ser uma excelente contribuição da Pastoral Familiar diocesana às comunidades.
O desejo de estar e viver em família faz parte da natureza humana, como uma verdadeira ecologia humana, abrindo espaço para um efetivo profetismo da Igreja doméstica. A família é o rosto visível e concreto do Mistério da Igreja, “Sacramento de salvação” no mundo. É a célula viva da sociedade e da Igreja, lugar privilegiado no qual os batizados têm a possibilidade de fazer uma experiência concreta do encontro com Cristo e da sua dimensão profética. A mulher tem uma centralidade para a configuração da família, mas a violência doméstica desconfigura essa comunidade de vida e amor.
 Jornal "O São Paulo", edição 3120, 21 a 27 de setembro de 2016.

O Profetismo da Igreja Doméstica




Padre Denilson Geraldo, SAC, é professor da Faculdade de Teologia da PUC-SP e membro da Cátedra André Franco Montoro de DIreito da Família da PUC-SP. 


As Conferências do Episcopado Latino-Americano e do Caribe apresentam, de Medellín a Aparecida, a dimensão profética da Igreja doméstica que se exprime no anúncio do Evangelho e na denúncia das injustiças sofridas, principalmente contra as mulheres. O II Simpósio Internacional de Teologia da PUC-SP, na mesa temática apresentada no campus Santana, refletiu sobre a centralidade da mulher para a configuração da família e sua desconfiguração pela violência.
O fundamento da abordagem encontra-se no conceito de pessoa como imagem e semelhança de Deus e no reconhecimento de sua dignidade. As denúncias do CELAM se fazem diante das diversas formas de violência, principalmente contra a mulher pobre, ainda mais vulnerável. Estudos apontam que a violência não é um fenômeno somente da miséria material, mas se relaciona com os determinantes sociais ao qual a mulher pertence e onde a relação de dominação sobrepõe-se à de amar, ou seja, a violência doméstica encontra-se em todas as classes sociais. A família, que representa um lugar de refúgio e segurança torna-se, para muitas mulheres, o local da vulnerabilidade, destacando-se o problema do machismo. A família, como Igreja doméstica profética, não pode deixar de fazer a denúncia das situações de violência.
A prática de Jesus foi decisiva para ressaltar-se a dignidade da mulher e seu valor insubstituível. A figura de Maria, discípula por excelência entre os discípulos, é fundamental na recuperação da identidade da mulher e de seu valor na vida eclesial, familiar, cultural, social e econômica, criando espaços e estruturas que favoreçam sua participação. O anúncio dessa boa nova será sempre proclamado pela família.
De fato, é necessário superar a mentalidade que ignora a novidade do cristianismo, no qual se reconhece a identidade da mulher e torna-se urgente à Pastoral Familiar a necessidade de uma escuta qualificada do clamor, muitas vezes silenciado pela violência de mulheres submetidas a muitas formas de exclusão. A escuta qualificada significa a urgência em preparar pessoas para acolher as vítimas, especialmente aqueles que trabalham na secretaria paroquial e na Pastoral Familiar, proporcionando uma acolhida em situação de extrema vulnerabilidade. 
Acolher é o primeiro passo para ajudar a vítima de violência a readquirir a autoestima e a coragem para falar sobre o que se passa na intimidade do lar, superando a vergonha familiar e social. O acolhimento na comunidade paroquial faz a pessoa retornar porque sabe que, se acontecer novamente a violência, não será julgada ou debochada. Do mesmo modo, o sacerdote no Sacramento da Penitência saberá acolher a pessoa enfraquecida pela situação doméstica e ajudará a própria vítima a adquirir forças para tomar decisões que coloquem fim à violência doméstica. A acolhida é sinal de uma Igreja paroquial em saída, de uma verdadeira opção pelos pobres. Oferecer uma formação qualificada de acolhimento às vítimas de violência pode ser uma excelente contribuição da Pastoral Familiar diocesana às comunidades.
O desejo de estar e viver em família faz parte da natureza humana, como uma verdadeira ecologia humana, abrindo espaço para um efetivo profetismo da Igreja doméstica. A família é o rosto visível e concreto do Mistério da Igreja, “Sacramento de salvação” no mundo. É a célula viva da sociedade e da Igreja, lugar privilegiado no qual os batizados têm a possibilidade de fazer uma experiência concreta do encontro com Cristo e da sua dimensão profética. A mulher tem uma centralidade para a configuração da família, mas a violência doméstica desconfigura essa comunidade de vida e amor.
 Jornal "O São Paulo", edição 3120, 21 a 27 de setembro de 2016.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Verdade, fatos e versões

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Klaus Brüschke, é membro do movimento dos Focolares, ex-publisher da Editora Cidade Nova, articulista da revista Cidade Nova.

Os recentes acontecimentos políticos do País trazem à luz um fenômeno dos tempos atuais. Se formos além das narrativas construídas para a opinião pública e dos interesses dela ocultados, depararemos com verdades em todos os contendores; não há um lado puramente “certo” ou puramente “errado”. O mesmo se poderia dizer do plebiscito sobre o Brexit, no Reino Unido, da política sobre os refugiados na Europa, da questão entre israelenses e palestinos no Oriente Médio, e de tantos acontecimentos, daqueles de nosso cotidiano aos que afetam a humanidade toda. Vivemos hoje numa sociedade complexa, explicaria Edgard Morin. Assim, não bastam alguns esquemas para dar conta da realidade. A verdade – “correspondência, adequação ou harmonia passível de ser estabelecida, por meio de um discurso ou pensamento, entre a subjetividade cognitiva do intelecto humano e os fatos, eventos e seres da realidade objetiva” (Houaiss) – não é mais inteligível.
Observamos então algumas atitudes decorrentes disso.
Uma é agarrar-se a afirmações já consolidadas, simplificando a realidade, ignorando ou rejeitando o que não se enquadra nelas, classificando-as como errôneas – ou mesmo como pecaminosas e ação do demônio… Comportamento que se revela intolerante.
Outra é desistir de procurar a verdade, relativizando-a, ou mesmo renunciar aos fatos, preferindo versões ou opiniões – ainda que não exatamente verazes, mas em sintonia com as próprias convicções. A tolerância aqui é manifestada de duas formas: as diversidades são pacificamente aceitas, sem interferirem umas nas outras, ou viram tabu, aceitas desde que silenciadas e guardadas na esfera do privado.
O pluralismo da verdade expressa que só é possível apreender parte dela, que transcende a todos, e que esta se desenha como um mosaico de muitas tesselas, e também que ela é dita de diferentes modos, pois sua compreensão é mediada por fatores históricos, culturais, etc. A compreensão da verdade se dá, então, mediante processos interativos entre pessoas, processos de “comunicação colaborativa”.
Um desses processos é o debate. Nele, as diferentes proposições são argumentadas até os envolvidos formarem suas convicções. Contudo, pelo seu método de convencimento, ainda se tende à prevalência de uma das teses – como vemos nos tribunais, nos parlamentos, nas mesas-redondas…
Já no diálogo visa-se compartilhar visões. Sua finalidade não é “analisar as coisas, vencer uma discussão ou trocar nossas opiniões. É suspender nossas opiniões para considerar as opiniões de todos, para escutá-los e depois suspendê-los, para ver o que emerge disso tudo”, observa David Bohm. Paulo Freire ensina: “O diálogo é encontro entre homens, mediado pelo mundo, para dar um nome ao mundo”.
Por se tratar de um encontro entre pessoas – não entre posições, ideias, conceitos… – um pré-requisito, segundo Chiara Lubich, é que antes elas se amem, com aquele amor de Cristo, que possui algumas características: é universal e inclusivo, é proativo, reconhece o valor do interlocutor e é empático (“faz-se um”, diz Chiara). Outro pressuposto é a escuta, a capacidade de tentar compreender as razões do interlocutor, de ver as coisas com seus olhos.
Assim se dá um aprendizado recíproco e, não raramente, o encantamento com uma verdade mais complexa que se vai descobrindo juntos e aos poucos. Então, a riqueza da diversidade não será mera retórica, mas uma experiência de fato.
Jornal "O São Paulo", edição 3119, 14 a 20 de setembro de 2016.