quinta-feira, 7 de julho de 2016

Brexit e a União Europeia

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte

Antonio Carlos Alves dos Santos é professor titular de Economia na Faculdade da PUC-SP e conselheiro do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

A escolha dos eleitores britânicos pela saída da União Europeia é, sem duvida alguma, um duro golpe no projeto de integração do velho continente. No entanto, não é o primeiro, e dificilmente será o último, no longo e tortuoso caminho de superação de um passado cuja melhor síntese, negativa, é a sangrenta batalha de Somme, na Primeira Guerra Mundial, iniciada em 1 de julho de 1916. A memória da carnificina (cerca de 1,2 milhões de mortos e feridos numa disputa por 300 km2) ajuda a compreender a importância do projeto na história da Europa.
O processo de integração não é um projeto exclusivamente econômico. Ele é, acima de tudo, um projeto político em busca de fundamentos econômicos. Ele nasce da iniciativa de uma geração de notáveis políticos cristãos, na qual se destacam os católicos Adenauer e De Gasperi e deve à liderança do católico Delors a superação de vários problemas que impediam o progresso da integração econômica.
A incorporação do conceito de subsidiariedade no Tratado de Maastricht atesta a influência da Doutrina Social Católica na proposta de integração europeia. Subsidiariedade é o princípio segundo o qual as instâncias políticas mais amplas devem estar a serviço das subalternas (a união continental a serviço dos países, a federação a serviço dos estados, o governo a serviço sociedade organizada).
A vitória do Brexit no referendo é o desfecho de uma relação nada amigável entre o Reino Unido e os demais parceiros da União Europeia que remonta ao início do projeto de integração europeu. O Reino Unido sempre foi favorável à integração econômica, mas era reticente a qualquer forma de integração política, o que o levou a participar da criação da Associação Europeia de Livre Comércio, uma alternativa ao projeto de Mercado Comum. Além disso, por ter uma relação especial com os Estados Unidos, sempre manteve, segundo De Gaulle, uma relação de hostilidade em relação o projeto de integração europeu. Motivo, aliás, alegado por ele, para vetar a candidatura do Reino Unido ao bloco em 1961: foi aceito somente em 1973 e foi aprovado por 67% dos votantes no referendo de 1975. A opção, em 1992, por ficar fora da Zona do Euro é a melhor expressão desta relação de tapas e beijos entre britânicos e demais parceiros da União Europeia.
Em que pese o fato de ser uma relação difícil, ela não necessariamente teria que terminar no divórcio do Brexit. Erros foram cometidos de ambos os lados: a burocracia europeia deveria ter levado mais a sério o princípio da subsidiariedade e os políticos britânicos deveriam ter sido menos beligerantes com a União Europeia. A insistência em imputar à tecnocracia europeia a responsabilidade por problemas econômicos e sociais britânicos ajudou a criar um caldo de cultura anti- União Europeia em segmentos da sociedade britânica fortemente atingida pela crise econômica. Para eles, a livre circulação dos trabalhadores da União Europeia – um dos pilares de todo projeto de integração econômica – era responsável pelo aumento da criminalidade, baixa oferta de empregos, pela longa espera por tratamentos no Sistema Nacional de Saúde.
O desafio, agora, é conter as danosas consequências econômicas do Brexit. Os maiores prejudicados serão justamente os que optaram pela saída, já que a recessão no Reino Unido dificilmente poderá ser evitada. O impacto no resto da Europa será menor, mas implicará em crescimento abaixo do esperado e poderá ser sentido com mais força nos países mediterrâneos.
Jornal "O São Paulo", edição 3110, 13 a 19 de julho de 2016.

Comunidade de Leigos: uma urgência*

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Ana Lydia Sawaya é professora da UNIFESP, fez doutorado em Nutrição na Universidade de Cambridge. Foi pesquisadora visitante do MIT e é conselheira do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Quando vemos, por exemplo, as vicissitudes políticas desse tempo e a falta impressionante de políticos que almejem o bem comum do povo, mas também a grande desigualdade e violência, o crescimento do crime organizado e do tráfico de drogas, percebemos que o Brasil precisa de uma evangelização profunda que chegue à conversão dos costumes. Por que a vida de tantos cristãos parece dividida entre o âmbito da religiosidade privada ou dominical e o âmbito do mundo? Há uma longa história e um ambiente cultural que levam a essa situação; mas o que nos interessa é saber como sair dessa cisão, pois nem Cristo, nem os apóstolos, nem tampouco as primeiras comunidades, ou os cristãos dos primeiros séculos, a viviam.
Uma das iniciativas que mais contribuem para vencer essa dicotomia é a formação de comunidades de leigos que se encontrem periodicamente para compartilhar uma educação permanente à fé. Essas reuniões já são realizadas em muitos lugares, não só nas paróquias, mas também nas casas das pessoas, em clubes, escolas e universidades, nos locais de trabalho, associações de bairro, etc. Nessas comunidades os leigos compartilham a vida, compreendem textos e obras que ajudam na educação à fé no cotidiano, no trabalho e na vida de família como: as cartas e encíclicas da Igreja, a vida dos santos, a história da Igreja, a Doutrina Social da Igreja, livros de espiritualidade. Nelas, muitos aprendem, por exemplo, a oração da liturgia das horas, a meditação das leituras da missa, a Lectio Divina ou a reza do terço. São comunidades de amigos que, num caminho crescente de maturidade de fé, podem chegar até a se aventurar na construção de obras sociais, de associações da sociedade civil, realizando juntos atividades de impacto social. E, porque não, a construção de empresas que vivam o trabalho de acordo com os costumes cristãos.
Mas nem sempre esses grupos se tornam verdadeiras comunidades de fé e vida, mas se perdem em aspectos que podem ter sua importância, mas são secundários. O que dá início a uma experiência comunitária, não é um discurso ou uma atividade comum, mas uma presença que se impõe e que provoca nossa vida, abrindo-a à promessa de um “a mais”. É preciso, portanto, o encontro na vida real com uma pessoa na qual a fé se expresse por um jeito de ser, antes que de fazer. Alguém que viva a serenidade, a paz que nasce da familiaridade com a oração. Que reconheça o Espírito presente e O siga. Essa pessoa será uma verdadeira autoridade na medida em que valorizar toda a riqueza que Deus desperta em qualquer pessoa que é verdadeira. Somente se as pessoas se reconhecerem interpeladas por esta humanidade provocadora, é que poderão viver a responsabilidade, ou seja, responder seriamente à vida. Mas se numa comunidade, ou numa sociedade, não se vive isto, a responsabilidade se reduz a obedecer passivamente às regras de uma organização, e se identifica a autoridade com quem tem um projeto de poder ou com quem se vive um apego sentimental.
A construção de comunidades de leigos que vivam uma verdadeira religiosidade no cotidiano, garantida por responsáveis que sejam autoridades reais e não idolátricas ou meramente burocráticas é urgente, para que a Igreja possa dar uma contribuição real para o incremento da liberdade e crescimento do povo brasileiro.
Jornal "O São Paulo", edição 3109, 6 a 12 de julho de 2016.


segunda-feira, 4 de julho de 2016

A pessoa entre o sentido comunitário e a autonomia individual

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Gustavo Adolfo P. D. Santos, PhD em Teoria Política (Catholic University of America), gerente de programas na Oficina Municipal.

Na democracia fundada no Estado de direito, a proteção da liberdade de consciência e a tolerância das diferenças são princípios centrais para o ordenamento das relações entre indivíduos e grupos. A luta contra os vários tipos de discriminação, que se traduzem numa negação do acesso de determinados indivíduos a certos direitos e condições que em princípio deveriam ser universalmente disponíveis, é uma expressão da defesa desses valores.
O desenvolvimento do indivíduo na liberdade e na autoafirmação, no entanto, não se dá num vácuo. Como ser essencialmente social, a pessoa existe e se realiza no contexto de relações, normas e tradições compartilhadas. O sociólogo americano Robert Nisbet (1913-1996) alertou sobre a progressiva ênfase posta sobre a relação entre o indivíduo portador de direitos e o Estado garantidor dos mesmos, que destitui os agrupamentos intermediários de suas funções e de sua autoridade social.
 A vida concreta não acontece, porém, num espaço abstrato de disputa por direitos individuais, mas em famílias, comunidades de crença, associações. A verdade que eu busco, encontro e vivo nunca é totalmente minha propriedade – eu a devo a uma cadeia de relações históricas e sociais. Nestas relações e comunidades, muitas vezes os participantes não ocupam todos a mesma posição, e se submetem a normas que, se limitam a gama de escolhas individuais possíveis, possibilitam a concretização de um sentido da vida que transcende a individualidade isolada. As relações familiares, ou as baseadas no compartilhamento da fé, são exemplos dessa realidade.
No Brasil, os jornais recentemente noticiaram polêmicas em torno da introdução de conteúdos relativos à chamada ideologia de gênero nos currículos escolares do ensino fundamental e médio. A visão tradicional da complementaridade entre homem e mulher e o direito da criança ao conhecimento e à criação por seus progenitores biológicos na família vai assumindo, nesse contexto, ares de limitação dos direitos individuais – não os das crianças, é claro, que não são consideradas nesses raciocínios tipicamente individualistas. Pode chegar o ponto em que afirmar o caráter privilegiado do casamento tradicional para a criação dos filhos será considerado um ato discriminatório e ilegal.
Por detrás dessas e outras incursões do Estado na vida social e comunitária das pessoas, pode-se encontrar uma concepção que vê cada pessoa como radicalmente livre para definir a própria realidade – e as práticas correspondentes – nas mais variadas dimensões. Essa autonomia radical não teria limites, a não ser a interferência na vida e no bem estar alheios (o famoso “princípio da injúria”, definido por John Stuart Mill).
No entanto, como lembrou S. João Paulo II, a democracia não pode abrir mão da referência a uma “reta concepção da pessoa humana”. Isso significa, entre outras coisas, respeitar o espaço e a autoridade das diversas comunidades éticas, sejam elas laicas ou religiosas, em que o ser humano se constrói.
Entre a defesa dos direitos e da liberdade individual e o respeito à autoridade e autonomia das comunidades éticas nas quais todo indivíduo se desenvolve, um caminho de equilíbrio e razoabilidade precisa ser encontrado, sob pena de ferir os próprios indivíduos cujos direitos o Estado moderno tem como função garantir.
Jornal "O São Paulo", edição 3108, 30 de junho a 5 de julho de 2016.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Como usar a internet de forma positiva e ainda lutar por uma sociedade melhor

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte

Alexandre Ribeiro é jornalista, foi editor no Brasil do site católico de notícias Zenit e é atualmente editor do site Aleteia. É membro do Conselho do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-SP

O meu pai vem de uma cidade pequena do sul de Minas. Ele me contava que a honestidade era algo muito valorizado por lá. Todos tinham palavra, e se podia confiar uns nos outros. Até porque, sendo um povoado pequeno, se alguém faltasse com a honestidade, todos ficariam sabendo.
Hoje, de certa forma, vivemos numa cidadezinha. Pelo menos no sentido de que os malfeitos estão mais difíceis de esconder. Uma hora ou outra, alguém bate à porta da nossa timeline para contar em detalhes os mais recentes escândalos. Mas não só de notícias ruins vive o mundo virtual.
A internet nos permite aprofundar um aspecto fundamental da vida em sociedade: a cooperação. A base de uma sociedade é a cooperação. Duas pessoas cooperam entre si quando o comportamento social de cada uma delas é valioso para a outra ou para um terceiro.
Os primeiros evolucionistas, entre eles o prêmio Nobel de Medicina Konrad Lorenz (1903-1989), afirmavam que ao lado da cooperação vinha sempre a competição. A luta pela existência seria uma dinâmica entre cooperar e concorrer. Mas competir não significa necessariamente prejudicar ou causar danos ao próximo. Significa reconhecer que a sua expressão esbarra com a de outros.
Apesar das tensões que existem entre as pessoas e os grupos, a cooperação é um valor maior do que a competição. Como a própria natureza ensina, a cooperação é indispensável para a sobrevivência. As espécies que mantêm relações simbióticas – ou seja, relações de cooperação, nas quais indivíduos e grupos se beneficiam uns dos outros – acabam apresentando melhores condições de vida e descendência. Cooperar e compartilhar os seus valores individuais, como por exemplo a sua honestidade e a sua disponibilidade em ajudar, contribui realmente para o desenvolvimento da sociedade.
Aqueles que se comportam na contramão da cooperação, pautados pelo egoísmo e a busca de vantagens ilícitas, estão fadados a um destino desfavorável. O seu voo, de aparente sucesso, é curto.
Os políticos corruptos e seus súditos, por exemplo, hábeis em se infiltrar em todos os partidos, ideologias e setores da sociedade, não entendem que não podem comprar um destino favorável. Assim, eles costumam viver em bandos, buscando cúmplices, pois sempre têm algo a esconder. Sua marca é a miséria humana, pois se sentem ameaçados pela vida, pelo próximo e por todos que sabem amar e cooperar.            
A ação direta ou indireta dos cidadãos contra a corrupção é imprescindível. E nisso as redes sociais na internet podem ser de grande utilidade. A internet é uma ferramenta de grande potencial no combate aos corruptos e na busca de mais cooperação entre os indivíduos. Quando os usuários das redes sociais têm como norte o comportamento simbiótico, ou seja, aquele que busca a cooperação e o compartilhamento de valor, eles estão automaticamente combatendo os grupos antibióticos e parasitários, que são aqueles que causam prejuízo à sociedade e querem ganhar em cima da perda de outros.
Quando você navegar nas redes sociais, procure observar se está estimulando a cooperação e a difusão de comportamentos valiosos. Por outro lado, pressione os corruptos e parasitas. E assim, mesmo que de forma aparentemente imperceptível, você estará dando à megalópole digital aquele ar de cidadezinha do interior. Um lugar onde a palavra e a conduta têm valor, e onde os corruptos não têm vez.
Jornal "O São Paulo", edição 3107, 22 a 28 de junho de 2016.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A cidade, as eleições municipais e a “cultura do encontro”

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Klaus Brüschke, é membro do movimento dos Focolares, ex-publisher da Editora Cidade Nova, articulista da revista Cidade Nova.

Neste ano teremos eleições municipais. Os partidos políticos já afiam facas na disputa da cadeira de prefeito e abrem suas portas a candidatos a candidatos a vereador…
O legislador foi sábio ao destacar essas eleições daquelas federais e estaduais. A importância política da cidade é única. É nela que moramos, trabalhamos, nos locomovemos, estudamos, nos divertimos… É a cidade o espaço onde nos encontramos e desencontramos, crescemos em meio a possibilidades e obstáculos, exercitamos nossa identidade e diversidade. É o lugar privilegiado em que acontece a “cultura do encontro”, preconizada por papa Francisco.
Pio XII dizia que a política é a forma mais alta da caridade. E Chiara Lubich, a fundadora do Movimento dos Focolares, explicava: “A tarefa do amor político é criar e proteger as condições que permitem a todos os outros amores florescer: o amor dos jovens que desejam se casar e precisam de casa e trabalho, o amor de quem quer estudar e precisa de escolas e livros, o amor de quem se dedica à própria empresa e precisa de estradas, ferrovias, regras certas. A política é, portanto, o amor dos amores, que recolhe, na unidade de um desígnio comum, a riqueza das pessoas e dos grupos, consentindo a cada um realizar livremente a própria vocação… A política pode ser comparada ao pedúnculo de uma flor, que apoia e nutre o renovado desabrochar das pétalas da comunidade”.
As questões da nossa cidade – como os espaços de convivência, de cultura e de lazer, a mobilidade e a segurança, o desenvolvimento urbano, a gentrificação e a sustentabilidade, os recursos naturais e aqueles financeiros, as imbricações com o entorno em nível estadual, nacional e mesmo internacional etc. – podem ser tratadas tendo as relações fraternas como critério norteador e de avaliação. Relações capazes de fazer dos habitantes um “corpo político” que ultrapassa a esfera da utilidade material e alcança a dimensão do bem comum, como já ensinava Aristóteles. Relações que, para os cristãos, se inspiram no fato de nos reconhecermos todos filhos de um único Pai e irmãos uns dos outros, reconhecimento que não se limita à esfera religiosa, mas se traduz em participação, iniciativas, projetos, leis, instituições, enfim, em “cultura política”.
Por isso também, três cuidados precisam ser tomados nestas eleições municipais: 1) que elas não se contaminem pela crise política federal e pelas narrativas dos diversos grupos políticos; 2) que não se caia num sebastianismo: como no século XVI os portugueses esperavam a volta do rei d. Sebastião, morto em batalha, para conduzir o país à glória, pode-se esperar por um candidato brilhante, que livre a cidade de todos os seus males; 3) que não se descuide da escolha dos vereadores, a partir do cardápio oferecido nos programas eleitorais gratuitos, em que candidatos prometem segurança, saúde, educação, emprego…
O período pré-eleitoral é, pois, um ensejo oportuno para debatermos, articuladamente, o projeto de cidade que almejamos, e o confrontarmos com os programas dos partidos e dos candidatos.
Dessa forma, votar não será o mero uso de nossa soberania popular para transferir o poder a alguém que, em nosso nome, encontre soluções para nossos problemas. Será uma das formas – ao lado de tantas outras – de expressarmos a cidadania, a corresponsabilidade por nosso destino comum.
Jornal "O São Paulo", edição 3106, 15 a 21 de junho de 2016.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

O desemprego e a crise

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Wagner Balera é professor titular de Direitos Humanos na Faculdade de Direito da PUC-SP e conselheiro do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

O tema número um de qualquer debate social recente é o do incremento do desemprego.
Para que se tenha uma ideia do tamanho do problema, comparemos os dados já consolidados dos anos de 2004 e 2014.  No primeiro ano foram pagos 4,8 milhões de benefícios enquanto que, em 2014, foram pagos 8,5 milhões.
Ocorre que, com a crise, não há incremento de arrecadação apto a acompanhar, digamos assim, o dispêndio com o benefício do seguro-desemprego.
Em um acórdão do TCU registra-se que no período de 2009 a 2013 as despesas atingiram 65,5 bilhões enquanto que as receitas somaram 55,1 bilhões.
Percebe-se, claramente, que a situação já era crítica há dois ou três anos. O problema é que o quadro só se agravou dali para cá.
Mesmo assim, as receitas destinadas à cobertura do benefício prosseguiram sendo solapadas com a DRU – desvinculação das receitas da União, que arranca vinte por cento do montante arrecadado. Como esse torpe mecanismo deixou de existir em dezembro de 2015, essa sangria poderia deixar de existir. No entanto, está no Congresso Nacional uma nova proposta de prorrogação da DRU que, ao invés de vinte por cento quer tomar trinta por cento das receitas das contribuições sociais.
No ano passado foram tornadas mais rígidas as regras para concessão do benefício, o que pode ser dado positivo, mormente com o agravamento da crise. Mas o dado só é positivo para o sistema, não para aqueles que terão negado o direito ao benefício.
Também foram solapadas as receitas por meio de desonerações das contribuições para certos setores. As desonerações impediram o ingresso de cerca de dez bilhões de reais nos cofres do Fundo de Amparo ao Trabalhador – FAT – que é a conta de onde sai o dinheiro para o pagamento do benefício.
Já se chamou o desemprego do mais social de todos os riscos.
Com efeito, o trabalho é um bem do homem e está colado à sua dignidade e à vocação que cada qual tem para a vida pessoal e comunitária.
O Brasil já ocupa o pouco honroso posto de quarto pais a ostentar elevada taxa de desemprego. Dos duzentos milhões de desempregados no mundo (dados da OIT), o nosso país já responde com mais de cinco por cento!
Em um mundo onde o econômico quer prevalecer, a todo o custo, sobre o social, os problemas não se resolvem e tendem a se agravar.
Aventemos algumas propostas de solução para o problema, que exigiriam modificação nas leis que regem a matéria.
Nem todos os segurados teriam que receber todas as parcelas. Nem tampouco o benefício deveria ser concedido na mesma quantidade de parcelas a todos os segurados.
Cada qual, deveria ter avaliada a respectiva necessidade e, então, obter o benefício por tempo determinado.
A carência - período mínimo de trabalho necessário para a aquisição do direito ao benefício – atualmente em seis meses, deve ser ampliada em pelo menos mais seis meses, equiparando-se às carências aplicáveis ao risco da doença e da invalidez. E deveria ser ainda maior para aqueles que pleiteiam seguidamente o benefício. Quem tivesse recebido o benefício nos últimos trinta e seis meses e, novamente, pleiteasse a prestação, deveria comprovar o cumprimento de uma carência de dezoito meses.
Outro aspecto a considerar é o da idade do segurado. Todos sabemos que quanto maior a idade, maior a dificuldade para a obtenção de novo posto de trabalho. Para os segurados com idade superior a cinquenta anos, por exemplo, o benefício deveria ser ampliado quanto ao período de fruição.
Enfim, eis um debate que apenas está a começar.
Jornal "O São Paulo", edição 3105, 8 a 14 de junho 2016.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

A misericórdia, a justiça e a jovem estuprada

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Francisco Borba Ribeiro Neto, 
coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Na semana de Corpus Christi, outro corpo ocupou, de forma dramática, as atenções da mídia e da opinião pública: o de uma jovem do Rio de Janeiro, estuprada ao que se sabe por cerca de 30 homens. Uma barbárie que “clama aos céus” e às nossas consciências, ainda que um estupro sempre seja uma selvageria inaceitável, não importa quantos o pratiquem.
A justiça tem que ser feita num caso como este, e de forma exemplar. Deve ser feita como exemplo que demonstre a todos o quanto esta conduta é inaceitável – em quaisquer condições.
Mas diante de um mal assim, nossa justiça humana, ainda que necessária, ainda que cumprida, tem o sabor amargo da impotência. Ela pode ser punitiva, condenando os culpados, pode até ser parcialmente restaurativa, recuperando os criminosos para a vida social. Contudo, para a vítima, nenhuma justiça humana pode reparar plenamente o mal sofrido. Num filme dos anos ’80 (Um Hotel Muito Louco, de Tony Richardson), o irmão pergunta a uma jovem vítima de estupro: “o que você quer?”. E ela responde mais ou menos o seguinte: “que o dia de ontem nunca tivesse existido”. Mas nenhum poder humano pode realmente mudar o tempo, fazer com que ontem deixe de existir. O esquecimento, mesmo que consolador, não deixa de ser um simulacro da realidade. A vingança parece saciar a indignação, mas não preenche o vazio.
Existirá no mundo alguma força capaz de fazer o bem nascer do mal mais ignominioso, como uma maravilhosa flor que nasça sobre cadáveres em decomposição? Só o amor que se manifesta como misericórdia. Ela não é só perdão, mas também é esse amor impensável, que nos mostra um horizonte de sentido e de acolhida onde mesmo o pior mal não dá a última palavra, porque se torna ocasião de encontro de um bem maior ainda.
Não há evidência tão maravilhosa da existência de um Deus de amor quanto o bem que nasce no próprio mal. Nenhuma fé é tão inquebrantável como a de quem viu, em sua própria vida, a beleza do amor florescer – insuspeita e inesperada – em meio à desolação do mal. E não há razão mais forte para a descrença e para a desumanização da pessoa do que um grande mal que permanece sem redenção.
O Estado, que deve garantir a segurança do cidadão e aplicar a justiça humana, deve fazer a sua parte. Mas também é impotente, assim como cada um de nós em nossa limitada humanidade, para redimir os grandes males sofridos. Aqui, nossa condição humana clama pela misericórdia, capaz de vir como chuva que lava toda impureza e fertiliza a terra. Aqui, o “corpo místico de Cristo” que ao mesmo tempo habita e transcende nossa comunidade humana se torna indispensável.
O que podemos fazer, nós que aparentemente estamos longe do sofrimento dessa jovem? A mentalidade progressista exige, com razão, que o Estado tome as providências necessárias. A mentalidade conservadora, com igual razão, aponta os limites de uma sociedade que perde a consciência do valor da pessoa. Apoiando as duas posições, cada cristão é chamado a verificar e testemunhar a força dessa misericórdia em sua vida, propondo-a como pequeno milagre passível de ser vivido por todo ser humano.
Podemos não conhecer a jovem que foi vítima dessa barbárie, mas – em nossa sociedade interconectada – conhecemos alguém que conhece alguém, que conhece alguém que a conhece. A misericórdia se comunica por essa rede de pessoas que comunicam uns aos outros não só a obrigatoriedade da justiça humana ou os valores necessários à vida social, mas a força que se esconde na aparente fragilidade de um amor capaz de gerar o bem em meio ao pior mal.
Jornal "O São Paulo", edição 3103, 1 a 7 de junho de 2016.

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