quinta-feira, 12 de maio de 2016
segunda-feira, 9 de maio de 2016
Corrupção X Fraternidade
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| Ilustração: Sergio Ricciuto Conte |
Em um recente relatório a ONU apontou a corrupção como um dos maiores fatores que causam o subdesenvolvimento e toda forma de problema social. Os países mais afetados por esse grande problema são os países do terceiro mundo, incluindo o Brasil.
Paralelo ao relatório da ONU, atualmente vemos no Brasil um raro momento de consciência cívica e de combate à corrupção. Um momento carregado de dúvidas, de angústias e de protestos nas ruas. De um lado, existem grupos que afirmam que o Brasil sempre foi corrupto, que a corrupção é uma instituição nacional e que, por isso, nada mudará. Do outro lado, existem cidadãos que desejam, de fato, mudar o país, torná-lo mais fraterno, são pessoas que lutam por melhores condições de existência.
O Papa Francisco tem feito reiterados pronunciamentos condenando a corrupção. Por exemplo, na Bula Misericordiae Vultus, na qual ele convoca o Ano da Misericórdia, no Parágrafo n. 39, ele afirma: “A corrupção impede de olhar para o futuro com esperança, porque, com a sua prepotência e avidez, destrói os projetos dos fracos e esmaga os mais pobres. É um mal que se esconde nos gestos diários para se estender depois aos escândalos públicos. A corrupção é uma contumácia no pecado, que pretende substituir Deus com a ilusão do dinheiro como forma de poder. É uma obra das trevas, alimentada pela suspeita e a intriga”. Já na homilia de 4/6/2013, ele esclarece que “São Pedro foi pecador, mas não corrupto, ao passo que Judas, de pecador avarento, acabou na corrupção. Que o Senhor nos livre de escorregar neste caminho da corrupção. Pecadores sim, corruptos, não”.
O cristão precisa compreender que a corrupção é um pecado que “clama a Deus” (Salmo 57, 2) e “clama por justiça” (Deuteronômio 33, 19). Por isso, um cristão não pode estar envolvido em casos e escândalos de corrupção.
Atualmente muitos grupos clamam para que sejam criadas novas e duras leis anticorrupção. Um clamor justo. No entanto, deve-se ter consciência que apenas a criação de leis não resolverá o crônico problema da corrupção no Brasil.
Jornal "O São Paulo", edição 3100, 4 a 10 de maio de 2016
quarta-feira, 4 de maio de 2016
terça-feira, 3 de maio de 2016
Dicas para ser justo: a relação entre justiça e misericórdia
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| Ilustração: Sergio Ricciuto Conte |
Ricardo Gaiotti Silva é advogado, juiz eclesiástico no Tribunal Interdiocesano de Aparecida, mestrando em Filosofia do Direito pela PUC-SP e mestrando em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade de Salamanca - Espanha.
O homem, naturalmente, se inclina para o que é bom, justo e
verdadeiro. Não por acaso, ao deparamo-nos com uma situação de injustiça, somos
atingidos por um sentimento de indignação. Queremos justiça. Nossa reação,
porém, depende da gravidade da situação e de como estes atos injustos nos
afetam.
Fazer a coisa certa, viver uma vida “moralmente” justa, não
é apenas cumprir estritamente as regras. A sociedade não pode simplesmente
distinguir os cidadãos pela forma com que agem diante das leis, pois a
fidelidade à lei pode levar à injustiça.
Na Alemanha nazista, o militar Otto Adolf Eichmann ficou
mundialmente conhecido justamente porque seguiu estritamente as regras. Uma de
suas tarefas era coordenar a deportação dos judeus para os campos de
concentração. Esta atividade muito o orgulhava, pois se considerava um fiel
cumpridor das ordens recebidas, como notou Hannah Arendt (Eichmann em Jerusalém, um relato sobre a banalidade do mal. São
Paulo: Companhia das Letras, 1999). Cumprindo a “lei”, ele agiu em contramão
com a justiça.
Como evitar esse erro? Como conciliar direito, justiça e
misericórdia?
Devemos reconhecer que temos limites, fraquezas, defeitos
que podem nos levar a cometer injustiças, por sermos pecadores. O corrupto se
distingue dos demais pecadores apenas porque se compraz com seu pecado, ou
seja, é aquele que com sua vida dupla provoca escândalo, cria hábitos que
limitam a capacidades de amar e levam à autossuficiência, passa a vida buscando
os atalhos do oportunismo, ao preço de sua própria dignidade e da dignidade dos
outros. Sim, somos pecadores, porém, não podemos ser corruptos, lembra-nos o
Papa Francisco (O nome de Deus é
misericórdia. São Paulo: Planeta, 2016). Devemos ter misericórdia, porque
somos todos capazes de cometer injustiças.
Nosso olhar deve se focar na pessoa humana. As atitudes de
Jesus nos ensinam como agir diante da lei, Ele que foi duramente questionado
quando atuou “contrário à lei”, curando em um dia proibido (Mc 3, 1-6), sentando à mesa com os
pecadores (Mt 9,11), defendendo seus discípulos quando
colheram espigas de milho para matar a fome (Mt 12, 1-13). Jesus, acima de tudo, tinha o olhar no homem, em sua
dignidade e necessidades.
Sobre o comportamento de Jesus o Papa Francisco afirma, na
Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, Misericordiae Vultus, que diante da
visão de uma justiça como mera observância da lei, que divide as pessoas em
justos e pecadores, Jesus procurou mostrar o grande dom da misericórdia que oferece
o perdão e a salvação.
Jesus foi rejeitado pelos fariseus e pelos doutores da lei
justamente porque agiu em prol do “homem”, com misericórdia, e contra a “lei”.
O apelo à observância da lei não pode obstaculizar a atenção às necessidades
que afetam a dignidade das pessoas, conclui o Papa.
Ainda em sua Bula, Francisco observa que o direito, a
justiça e a misericórdia podem caminhar juntos, mas é necessário que os homens
respeitem os direitos fundamentais da pessoa humana. Por justiça entende-se,
também, que a cada um deve ser dado o que lhe é devido, o que vai além de uma
simples observância da lei. O legalismo pode obscurecer o valor profundo que a
justiça possui. Não basta cumprir as regras, é preciso ser justo!
Jornal "O São Paulo", edição 3099, 27 de março a 3
de abril de 2016.6.
segunda-feira, 25 de abril de 2016
O realismo do Papa Francisco sobre a família
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| Ilustração: Sergio Ricciuto Conte |
Padre Denilson Geraldo, SAC, é professor da Faculdade de Teologia da PUC-SP e membro da Cátedra André Franco Montoro de DIreito da Família da PUC-SP.
A Exortação apostólica pós-sinodal sobre o amor na família, Amoris laetitia, reúne os trabalhos dos
Sínodos de 2014 e 2015, reflete uma hermenêutica de continuidade doutrinal
sobre a unidade e a indissolubilidade matrimonial e apoia-se em trabalhos das
Conferências Episcopais e em diálogo com personagens e elementos da cultura
contemporânea.
Ressalta a
importância da inculturação do Evangelho da família como chave, potencialmente
fértil, para encontrar soluções aos problemas atuais da família. Abandona a
ideia de um impulso renovador sem premissas teológicas e eclesiais, evitando o
engessamento da evolução de temas sobre a moral que sejam apenas a aplicação de
princípios abstratos e desconexos da realidade.
A família não é um idealismo, e a Sagrada Escritura está
repleta de famílias que se formam como uma “tarefa artesanal”. É preciso ouvir
os apelos do Espírito Santo para o hoje da história, ao refletir sobre temas
que se relacionam com a família: migração, sexualidade, ideologia de gênero,
mentalidade antinatalidade, idoso, educação, economia, trabalho etc. De fato,
que tema humano não está relacionado à família? É a instituição humana que
melhor concretiza a interdisciplinaridade almejada pelas ciências. Por esse
motivo, a formação e o aprofundamento sobre o tema deveriam entrar nas
discussões escolares e universitárias, no diálogo político e cultural,
religioso e científico. Esta é a concretude do tema; não uma lista de regras ou
de condenações que leva a pastoral familiar e a reflexão teológica à virtude da
humildade e a apresentar a família como “um caminho dinâmico de crescimento e
realização”, formando as consciências, como pediu o Vaticano II na Gaudium et spes (n. 16).
Impressiona, na linha do realismo, como a Exortação
apostólica desenvolve a prática das virtudes conectadas à evolução do amor
matrimonial a partir do Hino da Caridade (I Cor. 13): paciência, serviço, cura
da inveja, deixar a arrogância, amabilidade, desprendimento, perdão, alegria
pelo bem do outro, desculpa, confiança, esperança e fortaleza. A imagem de Cristo e da Igreja, refletida no
matrimônio, não pode ser um peso, mas um caminho a ser percorrido com as
virtudes, possibilitando que o laço matrimonial se renove na escolha recíproca.
Daí que a família se torna sujeito na evangelização e presente na formação
presbiteral, nos cursos de noivos, no acompanhamento dos casais jovens, nas
situações complexas, na educação sexual voltada para o amor e a oblação
que protegem do narcisismo e do consumismo, no acompanhamento acolhedor dos
idosos e enfermos.
Com um coração de pastor misericordioso, o Papa propõe
“acompanhar, discernir e integrar a fragilidade” com uma gradualidade pastoral,
considerando os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes. Esta é a
“lógica da misericórdia pastoral” que exige apresentar a Palavra do Cristo
sobre o matrimônio e incentiva os fiéis a procurarem os seus pastores para
falar, francamente, sobre o que vivem na vida familiar. Aos pastores o Papa,
com um coração de pastor, pede que escutem o povo para poderem compreender o
coração humano e “a Igreja conforma o seu comportamento ao do Senhor Jesus que,
num amor sem fronteiras, Se ofereceu por todas as pessoas sem exceção.” (AL,
250).
Uma espiritualidade conjugal e familiar faz-se com atitudes
e nas celebrações sacramentais mas, também, nas alegrias, no descanso, nas dores,
nos sofrimentos, na festa, na sexualidade, na educação dos filhos e no trabalho.
Afinal, toda realidade humana está relacionada com a situação concreta das famílias.
Jornal "O São Paulo", edição 3098, 20 a 26 de
abril de 2016.
segunda-feira, 18 de abril de 2016
A necessidade de uma evangelização profunda que chegue à conversão dos costumes
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| Ilustração: Sergio Ricciuto Conte |
Muito se tem falado que o combate à corrupção no Brasil depende da educação. Mas que educação? Será que basta aumentar a escolaridade? Bom, os corruptos que estamos vendo por aí tem inteligência, pois conseguiram galgar muitos patamares sociais, e muitos também têm alta escolaridade. Isso não quer dizer que a escolaridade média do povo brasileiro não esteja muito aquém do aceitável para um país que deseja se desenvolver economicamente; mas o aumento da escolaridade não é suficiente para levar um povo a desejar não trapacear quando tem oportunidade, roubar mesmo em pequenas coisas que parecem ter pouca valia, deixar de ser egoísta e oportunista e só pensar no interesse próprio.
O caminho para amar o bem
comum é bem outro. O se colocar a serviço dos outros com alegria e
generosidade, trabalhar de forma correta e eficiente, e o amor pelo bom fruto
do próprio trabalho são atitudes que nascem de outra fonte: uma religiosidade
profunda. Mas o que é essa religiosidade profunda que, São Bento ao fundar há
1500 anos atrás “uma escola de serviço ao Senhor”, também chama de “conversão
dos costumes”? No início de sua Regra de
Vida, ele diz:
Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes? Se
a essas palavras responderes ‘Sou eu’, Deus te dirá então: Se queres ter a vida
verdadeira e eterna, preserva tua língua do mal e não profiram os teus lábios
palavras enganadoras, desvia-te do mal e faze o bem; procura a paz e segue-a.
Quando tiveres feitos essas coisas, os meus olhos porei em vós e os meus
ouvidos estarão atentos às vossas preces, e antes que me invoqueis, direi:
‘Aqui estou’. (Prólogo, Regra de São Bento)
A religiosidade profunda, única capaz de levar à conversão
dos costumes, nasce livremente na pessoa que encontrou o Senhor e experimenta,
na relação com Ele, o caminho da felicidade. É fruto de um movimento livre para
o bem porque a pessoa se sente segura num caminho onde ela já experimenta uma
possibilidade real de felicidade. Faz o bem quem é feliz, diziam também os
antigos filósofos.
É evidente como tantos dos nossos políticos, empresários,
juízes e até cientistas e artistas não mostram um caminho de real conversão dos
costumes, e estão muito longe disso. Seria superficial esperar que leis ou
sistemas de governo, por mais eficientes que possam ser, sejam capazes de
coibir atitudes tão distantes da busca do bem
comum. Porque sempre haverá meios de burlar as regras e as leis. Da mesma
forma, seria uma grande ingenuidade acreditar que basta mudar de partido ou de
políticos para salvar o Brasil da corrupção. Há ainda que dizer que os que
foram eleitos (e o serão), de certa forma, representam a ‘moral do povo’ sendo
parte dela. L. Giussani, no livro O Eu, o
poder e as obras (Editora Cidade Nova, 2001) explica que a política é a
forma última da cultura. O ato político representa a expressão última da
cultura e do agir de um povo.
A Igreja tem uma responsabilidade importantíssima no Brasil:
dela, sobretudo, depende um trabalho de evangelização profunda, única capaz, de
levar à conversão real dos costumes. Só assim o Brasil poderá vencer a
corrupção sistêmica, a violência e a enorme desigualdade social. Mas, mais que
tudo, dar a oportunidades a muitas pessoas de encontrarem a Cristo, único
caminho para a felicidade plena e resposta adequada ao desejo mais profundo do
coração.
Jornal "O São Paulo", edição 3097, 13 a 19 de abril
de 2016.
segunda-feira, 11 de abril de 2016
A Cruz como Anti-Símbolo
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| Ilustração: Sergio Ricciuti Conte |
Eduardo Rodrigues da Cruz é professor titular do Departamento de Ciências da Religião da PUC-SP.
Aproveito que a sexta-feira santa ainda está presente na
nossa memória para fazer uma reflexão a respeito. Em particular, penso no que é
dito na liturgia da tarde: “Eis o lenho da Cruz, do qual pende a salvação do
mundo”. Associo essa lembrança a outra bem distinta, o fato de que muitos hoje
criticam a presença de crucifixos em locais públicos, argumentando que
representariam a adoção pelo estado laico de uma religião particular em
detrimento de outras. O contra-argumento gira usualmente em torno de se
respeitar a cultura do povo brasileiro, eminentemente católica, e que o símbolo
da cruz faria parte dessa cultura. Acho esse argumento fraco, pois tende a se
dissipar com a passagem do tempo. Os evangélicos, por outro lado, não se
posicionam contra tal uso de crucifixos, ainda que suas igrejas desvalorizem
símbolos, por que postulam que os supostos privilégios concedidos à Igreja
Católica também sejam estendidos a eles.
Gostaria de propor outra razão para a manutenção do símbolo
da Cruz nos espaços públicos, ainda que ela talvez não comova muito os corações
laicos. Meu argumento é que a cruz da qual o Cristo pende é um anti-símbolo, e
passo agora a explicar porque.
No início, a cruz era central na piedade cristã, ainda que
não como símbolo. Além dos relatos do evangelho, temos como destaque as
reflexões de São Paulo a respeito do mistério da cruz, presentes em especial em
1 Coríntios 1, 18-31 e Filipenses 2, 6 a 11. No primeiro caso, Paulo fala da
Cruz como “escândalo para os Judeus [representantes da lei] e loucura para os
pagãos [detentores da sabedoria]”. O versículo 20 pergunta, diante da Cruz,
“Onde está o sábio, onde está o doutor da lei, onde está o raciocinador desse
século?”. Entretanto, principalmente a partir de Constantino, o símbolo da Cruz
surge para muitos como um de vitória e poder, e aos poucos vai sendo assumido
como o símbolo por excelência do cristianismo. Com esse símbolo, muita
violência e atos de poder se realizaram no mundo.
Os ilustrados do sec. XVIII, dos quais resultam os atuais
laicistas, destacaram com força esse aspecto da cruz (com c minúsculo),
e rejeitaram-na. Mesmo quando aceita, a cruz se tornou para eles um símbolo de
uma fé específica, um entre tantos, sem nenhum valor de destaque, e por aí
compreendemos a situação atual. Mas será que é o caso de nos resignar diante da
situação?
Responderei com dois exemplos. Primeiro o de um tribunal que
sustente uma Cruz na parede principal. Enquanto a justiça dos homens é feita,
pende do lenho o Crucificado, que nos relembra de quanto o direito, mesmo no
que tem de melhor, realiza e não realiza a justiça que todos aguardamos. “Algo
falta”, mesmo quando se cumpriu o processo legal. Mas “A maldição da lei” de
São Paulo (Gálatas 3, 13) é levantada quando o Cristo é pregado no Madeiro—o
símbolo de maldição torna-se o símbolo de salvação. No segundo exemplo, temos o crucifixo que
pende da parede do Congresso. Novamente, o crucificado contempla tudo o que
ocorre no plenário, toda a ambivalência e amoralidade da política, mesmo entre
os melhores congressistas. Como já se fala nos evangelhos, o poder “desse
mundo” está ligado a interesses inconfessáveis, e mesmo quando o político busca
a justiça (como na visão idealizada de Pilatos diante de Jesus) termina por
perpetuar a obra do diabo.
Assumindo-se que todo símbolo remeta ao poder espiritual que
sacraliza o que é feito à sua sombra, a Cruz surge como anti-símbolo. Assim, ela
pode ser tomada como símbolo universal, não ligado a uma religião particular.
Diante da Cruz, a iniquidade humana se revela e, no mesmo ato, também é
redimida.
Jornal "O São Paulo", edição 3096, 6 a 12 de abril
de 2016.
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